O brilho da Camerata aberta

Só criação brasileira. Esta foi a proposta do sexto concerto da Camerata Aberta, único grupo estável dedicado à música contemporânea no País. Houve duas versões: na primeira, didática, realizada no auditório do Departamento de Música da USP no dia 26, ficou de fora o Réquiem para o Sol, de Lindembergue Cardoso, que no entanto foi executado no dia 29, no MASP.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

Na verdade, o ótimo Choros nº 7 - Settimino, de Villa-Lobos, entrou meio de contrabando, quase como o Réquiem, pois a intenção era concentrar-se nos dois movimentos de vanguarda brasileiros do século 20: o Música Viva, dos anos 40; e o Música Nova, dos anos 60.

O maestro Lutero Rodrigues, sistemático e talentoso pesquisador da música brasileira, comandou a Camerata neste concerto que foi praticamente seu autorretrato musical. A começar do Choros n.º 7, pequena obra-prima do melhor Villa dos anos 20, que inclui até um tam-tam invisível, pela primeira vez com andamento mais rápido, de acordo com as indicações de tempo do Villa. O Música Viva, primeira real janela contemporânea num país submerso pelo nacionalismo musical, foi comandado, na década de 40 do século 20, por Hans-Joachim Koellreutter.

Namoro. Naquele momento, todos namoravam apaixonadamente a música serial. Ainda assim, nem Claudio Santoro nem Guerra-Peixe, dois alunos mais destacados de Koellreutter, eram serialistas estritos - ambos jogavam pitadas tropicais aqui e ali, abrasileirando Schoenberg. O Noneto de Guerra-Peixe (para flauta, clarineta, fagote, trompete, trombone, piano, violino, viola e violoncelo) é de 1945 - e agora recebeu sua primeira audição brasileira, 65 anos depois de composta. Foi a obra brasileira mais tocada internacionalmente, no pós-guerra, acentua Lutero no texto do programa. Depois de ouvi-lo, é impossível não pensar no interessantíssimo serialismo à brasileira que esta dupla genial praticou - e depois abandonou.

Olivier Toni assina a peça mais recente, o Recitativo II para violino solo, de 1988, dedicado a Cláudio Cruz. Construído com apenas três notas - dó, lá e ré -, é uma bela fantasia, que recebeu vibrante interpretação de Elissa Cassini. O parceiro de Gilberto na USP e no Música Nova, Willy Corrêa de Oliveir,a assina outra peça "neue musik", de 1972, para a inusitada formação de trompa, trombone e viola. Aliás, o repertório foi tão interessante que a gente quase esquece de dizer que as execuções foram de excelência.

COTAÇÃO: ÓTIMO

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