O brega, o chique e o crime jogado para baixo do tapete

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h11

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

Existe uma maneira brega e uma chique de amar e sofrer por amor? Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, em aparência discute essa questão. É mais nobre aliviar a dor de cotovelo ouvindo a música título, de Lindomar Castilho, ou Eu e a Brisa, de Johnny Alf? Seria interessante esmiuçar limites - se é que eles existem. Mas não é o que interessa ao filme.

Nesse sentido, Vou Rifar Meu Coração não deixaria de ser um interessante "estudo" sociológico do ato de amor à brasileira. As aspas devem-se ao fato de que o cinema, estritamente falando, não "estuda" nada. Recolhe imagens, sons e falas e os ordena sob um determinado arranjo a que chamamos montagem. Nesse processo, expressa, no melhor dos casos, o ponto de vista do autor.

E, pela reação das plateias para as quais o filme tem sido exibido, esse ponto de vista tem sido entendido de maneira clara. O público ri. Porque, composto em sua grande maioria pela classe média, o público de cinema brasileiro acha engraçado tanto os casos de amor das classes mais baixas, ou menos educadas, como as músicas que, supostamente, mais bem exprimem esses sentimentos. Desse modo, o doc transforma-se em comédia. Involuntária, talvez, mas não estou muito seguro disso. É, de qualquer forma, um olhar superior e irônico que registra as situações que escolhe para examinar.

Esse é um ponto. O outro é Lindomar Castilho, que fornece a canção título e um dos depoimentos. Para quem não lembra, Lindomar matou a esposa, a também cantora Eliane de Grammont, em 1981. Entrou num bar onde ela se apresentava, disparou cinco tiros, um dos quais a atingiu e matou. Lindomar foi julgado (foi um dos julgamentos rumorosos da época) e condenado. Cumpriu sete anos de prisão. Esse é o caso encerrado. Deveria ter sido omitido? Eis a discussão. A omissão tem provocado reações estranhas no público. Assim que Lindomar aparece, ouve-se a reação de parte do público. Da parte mais madura, que conhece o crime. Os mais jovens e, sobretudo, as mais jovens, precisam ser informados da história para que entendam a reação dos outros. Depois, fica-se sabendo, mas não pelo filme, que a condição de Lindomar para dar o seu depoimento foi a de que o assunto sequer fosse mencionado.

Condição atendida, cria-se a dissonância entre os que sabem e os que não sabem do crime, já que o filme nada informa. Passa batido, sob a desculpa de que esse não é o seu tema. Como não? O doc fala do amor, dos ciúmes, das suas consequências. A própria fala de Lindomar, bem ouvida, não passa de uma tentativa de justificação do seu ato, sob olhar e ouvido complacentes da diretora.

Há pouco, a cineasta desdenhou de manifestações contra o filme, durante o Festival de Brasília de 2011, dizendo que vieram de "setores da esquerda". Fala que deixa mal a direita, supostamente mais compreensiva em relação a crimes contra a mulher. Mas nem se trata disso. Trata-se de saber se o público tem o direito de conhecer fatos graves (supondo-se que o assassinato de uma mulher seja um fato grave). Ou é mais conveniente omiti-los e abrigá-los debaixo do tapete? Uma boa discussão, sem dúvida.

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