O brega é pop. E eu adoro

E stive em Belém e voltei totalmente encantada pela cidade, seus sabores, seu calor e, mais que tudo, com a música do Pará. Ouvi a guitarrada dos Lobato, o tecnobrega de Gaby Amarantos, visitei uma aparelhagem, dancei o carimbó chamegado de Dona Onete e curti muito o pop kitsch de Felipe Cordeiro.

O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h07

Felipe é um jovem músico, produtor, compositor e um dos principais nomes da cena contemporânea em Belém. Seu show é colorido, dançante e divertido. Ele se veste como os cantores do gênero, as letras falam de um amor descarado e as guitarras fazem aquele solinho safado de bom que a gente já pode identificar em vários artistas. O brega está contagiando o País. O acento aparece no trabalho de Karina Buhr, de Andreia Dias, de Bárbara Eugênia, na guitarra de Fernando Catatau, nas baladas doloridas do Pélico e até nas indefectíveis canções de amor de Marisa Monte.

Comecei a entender o brega em sua essência quando estive no Maranhão com as irmãs Elza e Rita Ribeiro pra conhecer a Festa do Boi. Foi uma semana linda, colorida, inesquecível, quando pude ouvir os diversos sotaques dessa festa: pandeirão, orquestra, matraca… É um mundo! E voltando do tradicional Boi do Maracanã, a pé na madrugada, passamos por um terreiro pequenininho, todo enfeitado, em frente a uma pequena capela. As meninas entraram pra uma bençãozinha rápida e saíram dançando juntas quando começou a tocar uma música no alto falante. Cena de filme do Lírio Ferreira em co-direção com Pedro Almodóvar! Tudo colorido e com essa mistura maravilhosa que é típica das festas populares no Brasil, a religião e o prazer. Não sei qual era a música, mas elas conheciam muito bem e se divertiram a valer. Esse é o brega. Música romântica, fácil, cheia de clichês, e boa de dançar.

A turma mais inteligente consome o brega que Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto resolvem gravar e deixar chique. Mas esperto mesmo é quem vai na fonte. Tem que ouvir Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e a música do Pará, o nosso pop-rock-brega-contemporâneo. E como já disse Rita Ribeiro, "tropicalistas somos todos nós". O romance está na veia do brasileiro e essa visita ao cafona faz parte da nossa tradição. Voltando ao Caetano tropicalista, muito antes de gravar Peninha ele colocou o drama Coração Materno, de Vicente Celestino, na boca do povo mais descolado.

Marisa Orth, que é atriz e cantora das boas, adora o brega. Fez uma apologia ao gênero com o show Romance Vol.II que tem exatamente esse acento dramático. Ela canta Dores do Mundo do repertório clássico do soul man Hyldon, Sofre de Tim Maia (ele mesmo um brega black funk soul) e a genial Insanidade Temporária, de Flávio Souza e André Abujamra, que é um brega legítimo - uma história de amor e morte! O clipe, dirigido por Ivy Abujamra, é sensacional!

Brega é também como se chamam as casas de prostituição no norte e nordeste onde esse tipo de música de dançar coladinho sempre fez sucesso. Dos bregas foi pras rádios e virou gênero. Na definição da Enciclopédia da Música Brasileira se diz que o termo é usado formalmente desde 1982 e copio aqui o verbete: "Brega: coisa barata, descuidada ou mal feita; sinônimo de cafona; música mais banal, óbvia, direta, sentimental e rotineira possível…" E isso não é bom demais? Como já disse o poeta, não são ridículas todas as cartas de amor? O brega é pop e eu adoro.

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