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O brasileiro que monta filmes nos EUA

Conheça Affonso Gonçalves, que assina a edição de Inverno da Alma

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2011 | 00h00

Santo de casa não faz milagre - que o diga o montador Affonso Gonçalves. Embora possua um currículo com quase 30 filmes, ele é pouco conhecido no Brasil. Sua carreira se faz nos EUA, onde brilha como estrela da produção independente. Gonçalves trabalha atualmente na edição da minissérie Mildred Pierce, de Todd Haynes, com Kate Winslet, na HBO, baseada no livro de James M. Cann que deu origem ao célebre melodrama noir de Michael Curtiz - Joan Crawford ganhou o Oscar e o filme de 1945 se chamou Alma em Suplício no Brasil. Gonçalves também assina a montagem de outro filme que participa da disputa do Oscar deste ano (veja abaixo).

Inverno da Alma está em cartaz nos cinemas da cidade. É outra adaptação - do livro de Cornell Woodrell, autor de Cavalgada com o Diabo, que virou filme de Ang Lee. Woodrell criou o country noir, centrando suas histórias nos montes Ozarks, no Missour. Garota de 17 anos tenta localizar o pai, que usou a casa da família para garantir sua liberdade condicional e desapareceu sem deixar vestígios. Confrontada com a possibilidade de perder a casa onde mora com a mãe e os irmãos menores, Ree - é seu nome - desafia as mentiras e ameaças dos próprios parentes e, dessa forma, começa a juntar a verdade sobre esse pai misterioso e até ameaçador.

Gonçalves conheceu a diretora Debra Granik quando ambos participaram de um laboratório promovido pelo Sundance Institute. Ficaram amigos e prometeram-se trabalhar juntos. Demorou cerca de dez anos, mas a parceria finalmente aconteceu. O filme ganhou indicações para o Globo de Ouro, o Independent Spirit Award e o Oscar. De cara, não era um projeto fácil. "Debra optou por reproduzir na tela o diálogo do livro, que é falado num dialeto da região, difícil de entender." Para complicar, a personagem vive se deslocando. "Tentamos acelerar o ritmo, mas vimos que não daria certo. A história precisava do seu tempo para acontecer e foi isso que buscamos."

Isso é uma coisa que Gonçalves já aprendeu, trabalhando com produtores independentes. "Toda história tem seu tempo próprio, que é preciso respeitar." Inverno talvez pudesse ser tratado como thriller, dada a natureza do pai, mas seria outro filme. O tempo, aqui, é mais lento e reflexivo. A grande cena em que Ree reage - veja para saber do que se trata - até ganhou uma edição mais acelerada, mas não funcionava. "O fato de um filme ser mais lento não significa que seja parado", Gonçalves avalia.

Paulistano, ele deixou o País há cerca de 20 anos, num momento, após o malfadado governo Collor, que parecia de total falta de perspectivas para o cinema brasileiro. Gonçalves estudou em Londres e, depois, se radicou em Nova York. Embora, nos últimos anos, tenha engrenado um trabalho após o outro, ele acha que a ligação com os independentes, por mais criativa que seja, cobra seu preço. "Nunca sei o que vou fazer em seguida. Meu maior desafio é sempre me manter empregado."

E o cinema brasileiro? "O cinema como um todo evoluiu muito no Brasil. Temos hoje montadores de padrão internacional, que se colocam entre os melhores do mundo." O nome de ponta é, claro, Daniel Rezende, montador de Cidade de Deus e Tropa de Elite 2. Affonso Gonçalves revela seu sonho de consumo. "Gostaria muito de trabalhar com Walter Salles, Fernando Meirelles e Beto Brant." No cinema internacional, suas preferências vão para Terrence Malick, David Lynch, Alfonso Cuarón e Paolo Sorrentino. "São ótimos."

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