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Ignácio de Loyola Brandão
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O brasileiro mito em Hollywood

Galã, cantor, bailarino, Raoul Roulien morreu em São Paulo, em 2000, aos 95 anos. Esquecido

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 03h00

Estava passando um final de semana com o casal Sueli e Ivo Szterling e ela me deu o livro Meu Pecado, de Javier Moro, jornalista que escreve best-sellers curiosos. Não consegui largar. Em um dia e meio devorei a biografia de Conchita Montenegro, espanhola belíssima que triunfou em Hollywood nos anos 1930. O ambiente é o do cinema, mas também o da guerra civil espanhola. No livro surge o brasileiro Raoul Roulien em um episódio trágico. Quando cheguei às páginas sobre Raoul, me vi transportado para uma tarde do início dos anos 1960. 

Jô Soares e eu estávamos a conversar junto à imensa mesa que servia para reuniões na redação do jornal Última Hora. Nesta mesa, Jô às vezes dava um show de sapateado, adorávamos. Devia ser quatro da tarde, Jô me cutucou: “Olha, olha! Veja quem está entrando”. Era um homem alto, bem-apessoado, leve início de calvície, sorriso enorme. Carismático. “Quem é a figura?” Jô ironizou: “Você escreve sobre cinema e não sabe? Raoul Roulien”. Dei um salto, fui ver, Raoul chegara à mesa do Ibiapaba Martins, escritor que editava Variedades. Ouvi-o dizendo: “Trouxe minha primeira coluna”. 

Ibiapaba apanhou e chamou o Jô. Nós três ali, ele comunicou: “Roulien, a partir de hoje, escreve uma coluna sobre teatro”. Roulien na nossa UH? Fiquei paralisado, era a primeira vez que eu me via diante de um astro, no sentido total da palavra. Ele foi o Rodolfo Valentino brasileiro em Hollywood. Galã, cantor, bailarino, sedutor. Corremos ao arquivo, dona Alzira, setentona – achava eu – com seu cigarro em uma piteirazinha de prata, quando soube que Roulien estava na redação, nos atirou a pasta e desceu voando. Eles eram da mesma época. Falei para o Jô: “O cara vem trabalhar aqui com a gente? Vamos aproveitar, saber um mundo de histórias”.

Nós dois, Jô e eu, com 20 e poucos anos, éramos unidos na paixão pelo cinema. De coisas sérias a trivialidades. Descobrimos juntos o Zé do Caixão. Líamos A Cena Muda, a Filmelândia, Cinelândia, a Carioca, que traziam Dulce Damasceno de Brito, Zenaide Andrea, Lyba Fridman. Líamos Paulo Emílio, Alex Viany, Moniz Vianna, Almeida Salles. O Jô, que lia inglês muito bem e cujos pais viajavam, tinha em casa Movieland, Movie Screen e Confidential, esta com seus escândalos. Líamos Louella Parsons, fofoqueira, chantagista e sua rival Hedda Hopper, que dominaram Hollywood por anos. Temidas, uma notícia ruim delas destruía uma carreira.

Assim, sabíamos que Roulien tinha sido criança prodígio no Brasil, na juventude era um “estouro”, galã adorado pelas normalistas, a palavra fã fora criada para ele. Mudara-se para Hollywood na década de 1930, tornara-se astro disputado pelas mulheres, cantava e dançava.     Aquele homem ali na redação da UH, que todos desconheciam, frequentava as festas de Greta Garbo, contracenou com Carmem Miranda, Spencer Tracy, John Barrymore – um mito –, Joan Bennet e Leslie Howard. Foi ele quem indicou Ginger Rogers e Fred Astaire para uma cena de dança em Voando Para o Rio (Flying Down to Rio) e dali em diante Astaire se tornou o que todos sabem, o maior bailarino do cinema em todos os tempos. Ator, cantor, dançarino, produtor, diretor, Roulien foi escolhido por George Gershwin para interpretar a canção Delicious no filme de mesmo título. Lançou dois foxtrotes de Irving Berlin com versões suas: Mente por Favor e Se Eu Perdesse Você. Chegou a ser dirigido por John Ford em 1934, no filme The World Moves on, com Madeleine Carroll, superstar. Há indícios de que teria também descoberto Rita Hayworth. Quando voltou ao Brasil, em 1932, foi carregado nos ombros pela multidão. 

Em 1933, uma tragédia. Raul era casado com uma mulher belíssima, Diva Tosca, que morreu atropelada por um bêbado de nome John Huston, futuro diretor. Raul processou, porém os Hustons eram poderosos, ele perdeu a causa e foi banido de Hollywood. Um latino processando a elite? Sua carreira terminou, ele voltou ao Brasil, fez teatro, jornalismo, planejou superproduções. Fez televisão e era adorado pelos colegas, deu aulas de interpretação. Quando o conhecemos devia estar com 56 anos, sempre disposto e sorridente. Todas as vezes que tentamos saber do passado, ele se calou. Nunca tocou no assunto Hollywood. Que histórias perdemos? O que nunca foi contado que poderíamos ter sabido? Por que ele nunca escreveu uma autobiografia? Também nunca ouvimos uma só palavra de autopiedade, nostalgia, lamento. Morreu em São Paulo em 2000, aos 95 anos. Esquecido.

Raul publicou em 1933, pela Freitas Bastos, um livro, A Verdadeira Hollywood, esgotadíssimo. Haverá nele um desabafo ou sua indignação?

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ZERO’ E ‘NÃO VERÁS PAÍS NENHUM’

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