O Brasil revisitado por um americano

Autor de obra sobre Clarice Lispector, o crítico americano Benjamin Moser reforça laços com o País

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Com a publicação de Clarice (Cosac Naify, 2009), a biografia da escritora Clarice Lispector, o nome do crítico norte-americano Benjamin Moser foi automaticamente elevado ao posto de embaixador das letras brasileiras, cargo um tanto desconfortável para alguém como ele, um globetrotter que, além de tudo, detesta qualquer tipo de associação nacionalista. Nascido em Houston, Texas, há 33 anos, é, de fato, o grande divulgador da cultura brasileira no exterior, mas isso só porque gosta dela e tem bons amigos por aqui, um deles o escritor Bernardo Carvalho, de quem está traduzindo o livro mais popular, Nove Noites. Moser está fascinado pela obra, a história de um antropólogo que se mata após uma traumática experiência entre os índios brasileiros.

Vivendo há tempos em Utrecht, Holanda, como colaborador de conceituadas publicações como a Harper"s e New York Review of Books, Moser traduz Carvalho e escreve simultaneamente seu primeiro romance, sobre o qual guarda silêncio. Deixa apenas escapar que tem personagens de muitas etnias e categorias sociais. Diz ainda que ser judeu e homossexual lhe ensinou o valor de preservar a individualidade para escapar à categorização reducionista. Foi isso, aliás, que o atraiu para a literatura de Clarice, outra que resistiu ao estereótipo. Como judia, abjurou a tradição religiosa, frequentando cartomantes e congressos de bruxaria. Como brasileira que viveu a ditadura dos anos 1960, condenou tanto os excessos do regime militar como os radicais que lutavam pela implantação de um regime comunista no País.

Radicais. "Ela trazia da Ucrânia uma experiência traumática, o que explica sua rejeição a radicais", justifica Moser. Em sua biografia da escritora, ele conta que a mãe de Clarice, Mania Lispector, foi estuprada por soldados russos logo após a revolução bolchevique, contraindo sífilis. A escritora nasceu um ano depois, em 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia, recebendo o nome Chaya (vida, em hebraico) como resposta à agressão bestial desses militares. Naquela época, por não existir a penicilina, se acreditava que engravidar poderia purificar o corpo de uma mulher sifilítica, crença que ainda hoje persiste em lugares remotos da Ucrânia.

Moser passou cinco anos pesquisando as origens de Clarice Lispector, que voltaria a se instalar em território europeu ao se casar com um diplomata. Ele a descobriu por acaso, ao frequentar o curso de português da Universidade de Brown, onde tentou inutilmente aprender mandarim. "Como o chinês era difícil, resolvi mudar e acabei descobrindo a literatura de Clarice", diz, modestamente, o poliglota, que fala oito línguas fluentemente. "Acho que é um pouco pela minha formação, pois as empregadas mexicanas falavam espanhol em casa, onde também ouvia meu avô em alemão."

Essa formação garantiu, de certa forma, o futuro do cosmopolita Moser. Do convívio com os pais ricos e serviçais pobres, que cruzaram a fronteira mexicana, cresceu um crítico severo, tanto dos valores morais burgueses como políticos.

De família influente, sempre ligada ao mercado livreiro, ele poderia ter feito uma respeitável carreira como editor, chegando mesmo a trabalhar para a Alfred Knopf, mas preferiu o caminho como autônomo. Tanto que se mudou para Utrecht, Holanda, deixando no Texas a enorme livraria da mãe e o escritório de advocacia. A irmã mais nova, Laura, de 32 anos, foi mais cautelosa. Escolheu viver no centro do poder, Washington, onde seu marido trabalha na Casa Branca. "Ela vive uma vida de socialite", resume Moser, criticando o novo presidente. "Ele é uma decepção", resume, argumentando que Obama se elegeu como um político de esquerda, o homem que iria acabar com as guerras e garantir os direitos civis, sem cumprir nenhuma das metas de seu programa eleitoral.

Recesso. "A distância entre classes sociais aumenta vergonhosamente nos EUA e os crimes corporativos passam batidos, sem punição." Os americanos, segundo Moser, estão deprimidos e isso talvez explique essa espécie de recesso criativo entre cineastas, literatos e dramaturgos. "No entanto, não há nada que se compare ao cosmopolitismo intelectual dos EUA", observa, agora como crítico literário, o jovem escritor.

Vivendo há oito anos em Utrecht com o companheiro escritor, o holandês Arthur Japin, Moser visita o Brasil quase todos os anos desde 2005, quando saiu da Flip com a firme intenção de escrever uma biografia de Clarice Lispector, publicada antes nos EUA como Why This World (Por que Este Mundo). Esta era uma pergunta frequente feita pela escritora, um pouco à maneira do filósofo Wittgenstein, que dizia: "A questão mística não é como o mundo é, mas o que ele é."

Clarice, afirma seu biógrafo, buscava conhecer a razão da existência desse mundo governado por um deus sem nome, onde todos parecem um pouco exilados. Ele, um pouco menos. Moser diz que não se sente deslocado, assume que saiu dos EUA para conhecer o mundo, e não como expatriado. "Recebi uma educação maravilhosa em meu país, também estudei na França e sempre tive liberdade." Para pensar e agir.

Freyre. Essa independência, também ideológica, tem provocado reações raivosas às observações feitas por Moser sobre grandes personalidades brasileiras, entre elas a do homenageado pela 8.ª Flip, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Embora reconheça sua importância, dizendo que aprendeu muito ao ler seus livros, Moser critica os vínculos políticos de Freyre com as ditaduras, especialmente a de Salazar, e aproveita para atacar seus detratores de esquerda, que o condenaram por dar apoio aos militares brasileiros, mas que, paradoxalmente, concedem suporte a Fidel Castro. "Fiquei escandalizado com a omissão de Lula sobre os prisioneiros políticos durante sua visita a Cuba", diz, criticando ainda sua pouca atenção aos direitos civis dos brasileiros.

"É uma vergonha para o Brasil que a Argentina tenha reconhecido antes a união de pessoas do mesmo sexo", conclui o "embaixador" da literatura brasileira lá fora. Ele prefere a palavra "missionário". Sente que foi escolhido, primeiro para divulgar a obra literária de Clarice. E, agora, a de seus amigos premiados, como Bernardo Carvalho.

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