O Brasil francês

Olhando outras experiências de colonização francesa, estudiosos afirmam que seria pior para nós

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2018 | 02h00

Nós, escritores, comemoramos a invasão francesa no Brasil, de Lévi-Strauss, dos fundadores da USP, dos existencialistas (Sartre, Simone de Beauvoir e Camus estiveram por aqui) à Nouvelle Vague. Nós, escritores, lamentamos que os franceses, nas duas vezes que nos invadiram, tenham sido repelidos por luso-brasileiros que já escravizavam índios por essa terra varonil. 

Teriam mais visibilidade nossa ciência, artes plásticas, teatro, cinema e literatura se escrevêssemos ou falássemos em francês, com um sotaque tupinambá charmoso. Mas, se não fossem repelidos, o Brésil certamente não seria o Brasil. Olhando de relance outras experiências de colonização francesa no Caribe, na África e Indonésia, historiadores afirmam que seria pior.

Na verdade, os franceses vieram sem muita convicção em duas grandes levas. Em 1555, protestantes em fuga, sob o comando de Villegaignon, entraram em “Rivière de Genève” e fundaram a França Antártica. 

Aliaram-se a tupinambás, tupiniquins e goitacases, à Confederação dos Tamoios, construíram fortes, namoraram e passearam pelas praias paradisíacas do litoral carioca. A farra durou seis anos. Foram expulsos sem piedade em 1567. 

O rei da França, Francisco I, revoltara-se contra o Tratado de Tordesilhas, que dividia a América em duas partes: “Com os diabos! O rei da Espanha e de Portugal dividiram entre si toda a América. Eu quero conhecer a cláusula do testamento de Adão que me exclui da repartição do mundo”. 

Em 1600, viviam por aqui perto de três milhões de índios na costa, 30 mil estavam já escravizados por 20 mil portugueses espalhados em umas 20 vilas, que produziam o lucrativo açúcar em 230 engenhos. 

Apesar de expulsos, navios continuaram a fazer viagens exploratórias e negócios ente o nosso litoral e a França. Até se depararem com o abandonado e perfumado Maranhão. Em 1612, o ocuparam oficialmente, numa invasão patrocinada pelo rei Henrique V e Catarina de Médici. Chamaram de França Equinocial. O projeto era colonizar todo o norte do País.

Aliaram-se de novo aos tupinambás. Fundaram a cidade de São Luís, em homenagem ao herdeiro do trono, Luís XIII. Construíram casas e um forte espetacular, com a ajuda dos índios. Exploraram o pau-brasil e outras tinturas, açúcar, algodão e tabaco (petum). 

A jornada de três a quatro meses pelo mar valia a pena. Só com o comércio do pau-brasil, lucravam 500%.

Novamente foram expulsos. A experiência do Maranhão durou três anos. Reclamaram da falta de apoio da Corte, cujo rei a essa altura preferia não criar problemas com os ibéricos que viraram aliados; o insaciável Luís XIV casou-se inclusive com a herdeira do trono espanhol, a infanta Maria Tereza.

Holandeses, ingleses e portugueses eram mais efetivos nas suas colônias e se impunham a ferro e fogo. Os mesmos luso-pernambucanos que expulsaram os franceses do Maranhão viram seu Estado ser ocupado por holandeses e Recife em 1630.

Em 1711, piratas franceses tomaram o Rio. Mas aí não era política de Estado, e sim uma pilhagem lucrativa: cruzados, sacos de açúcar e bois.

A colonização do Maranhão foi bem documentada, já que os capitães La Touche e Razilly trouxeram, além de mineralogistas, botânicos, artesãos e militares, dois franciscanos, homens letrados, que escreveram cartas e editaram livros em Paris (relatados por Maurice Pianzola em Os Papagaios Amarelos). 

Vieram em princípio 500 franceses amontoados e em três navios. Nenhuma mulher entre eles. A viagem era demorada, com escala em Fernando de Noronha. Numa linha reta, chegavam a Mucuripe (Fortaleza). 

Então, aguardavam o vento certo para navegarem ao Maranhão, que, às vezes, demorava 15 dias para soprar até o Cabo da Tartaruga (Jericoacoara), cruzando dunas de areia, manguezais entrelaçados, evitando bancos de areia, rochas à beira d’água, que desencorajavam os portugueses.

Para eles, alianças eram mais eficazes do que a guerra. Aprenderam rapidamente a língua nativa. Mandaram seis índios para dançarem no Louvre vestidos à francesa. Foi um acontecimento. Todos foram ver aqueles homens... peculiares. Três morreram e três foram batizados e se casaram com francesas. Um voltou.

Caravela à vista, tupinambás os esperavam nas praias com frutas, bolinhos de mandioca, peixes secos, carnes de caça, cerâmicas e papagaios. Os europeus traziam linho, velas, arcabuzes, mosquetes e espelhos. 

Chegavam e logo tiravam as roupas de lã para vestirem sarja cinzenta. Os índios carregavam suas bagagens, faziam um banquete com toda espécie de carne da caça e geleias. Ofereciam suas mulheres: filhas, primas. 

Preferiam os franceses, a quem chamavam de Mairs, aos portugueses, os Peros, que com caçadas humanas, fugas, perseguições e castigos os escravizavam para plantar, colher e moer a cana. Tupinambás não tinham escravos no sentido europeu da palavra, mas prisioneiros de guerra.

Os franceses não os escravizavam. Trocavam a madeira colhida por tesouras, facas, pentes, contas de vidro, machados, foices, alfinetes, roupas usadas, chapéus, espadas, brincos, apitos, anéis de cobre, anzóis e sinos. Os próprios índios embarcavam as toras nos navios. Alguns franceses partiam carregados de “arabotan”, o pau-brasil. Outros se casavam com as índias, batizavam-nas, tinham filhos. 

E se viessem de vez? Não teríamos a vinda de uma família real, que mudaria o curso da nossa História. Respingariam as ideias da Revolução, “Liberté, Égalité, Fraternité”? A independência seria um fiasco, como a do Haiti, bem-sucedida, como a do Canadá, tardia, como a das colônias africanas, ou com guerra civil, como a da Argélia? A escravidão teria sido a norma econômica?

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