O BRASIL EM REVISTA

Rev. Nacional, novo projeto do fotógrafo J.R. Duran, vai retratar o País em uma década

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h06

Josep Rouaix Duran, o J.R. Duran, costuma dizer que é especialista em fotografar o bom das pessoas. Que "o segredo para agradar é só não fotografar o lado ruim, mas sim enxergar e ressaltar o que é bom em cada retratado". "Se você conseguir fazer isso, editar, jogar fora o que não serve, não é bom, isso já é genial." Diante de Rev. Nacional, publicação idealizada por Duran que já está em sua segunda edição, como 'fotografar' o lado ruim? Como não ser boa uma revista feita com capricho, com vagar de uma boa leitura, que, em tempos de imediatismos de twitter, não falar como é bom ter tempo de ler um texto feito com o tempo necessário para acompanhar retratos que Duran realizou com apuro e, claro, tempo. Assim é Rev. Nacional (fala-se Revista Nacional), uma revista anual que versa sobre as mais diversas variações de um grande tema: o Brasil.

Por temas entenda-se desde os homens do lendário Bope, passado por José Luiz Datena, os bastidores do poder em Brasília (extratos do diário que o jornalista do Estado, Ivan Marsiglia, escreveu quando ainda trabalhava na assessoria de imprensa da Presidência da República), e chegando à atriz Leandra Leal.

Claro que, considerando o histórico de J.R. Duran, há lindas mulheres, ora nuas, ora em peças mínimas, em poses que são verdadeiro 'oásis' para olhos que já passaram atentos pelas páginas que revelam a tensão e a aventura da vida dos paraquedistas da Amazônia, pelo perfil dos humoristas Marcius Melhem e Leandro Hassum, pelas lembranças de encontros fortuitos com celebridades de Ricardo Setti.

E por que manter as fotos de beldades nuas, mesmo quando elas não são entrevistadas? Como, por exemplo, a belíssima Dyane Mello, que ilustra um capítulo do próximo livro de Ronaldo Bressane? "Porque talvez seja um refresco para o olhar. Por que adoro fotografar mulheres lindas. Porque, num quê de Jânio Quadros, fi-lo porque qui-lo", brinca o fotógrafo, que admite que será sempre um retratista.

Seja qual for o ponto de vista, a lente escolhida, o recorte, a edição, o que importa é que Rev. Nacional é alento para mentes inquietas e em movimento contínuo. Aliás, este é o mote de Duran, o dono da mente inquieta e do corpo em movimento, que decidiu criar a revista, ou seu "playground", para fazer ver nessas páginas o que nem sempre pode mostrar em seus trabalhos usuais. "Foi por isso que decidi criar a revista. Porque trabalho muito. Ainda faço todo tipo de fotos. Das mais glamourosas às dos conflitos na África, de personalidades, de mulheres maravilhosas. Em Rev. Nacional, quero unir minhas fotos, as que em geral eu não publicaria porque não encontraria veículos tradicionais para isso, a textos de autores que, além de talento, têm total liberdade para criar."

Liberdade. Duran, aliás, só propõe o tema a seus colaboradores e estes escrevem "o que querem, como querem, sem sofrer edição no texto final. E sem ver as fotos que serão publicadas juntamente com esses textos", explica Duran. Assim, o fotógrafo, editor e criador do projeto (que é viabilizado pela equipe da impecável editora Gráficos Burti) cria uma comunicação nem sempre óbvia e didática, mas muito particular entre pauta e ilustrações.

Vale lembrar que a Rev. Nacional, já em sua segunda edição, passa agora a ser vendida na Livraria do Bispo (Rua Dr. Mello Alves, 278) e deve virar um especial sobre a década brasileira. "Tudo surge desse meu interesse em documentar, retratar, enfim, um país que eu testemunho, percorro, fotografo, mas que nem sempre tenho chance de publicar. Gostaria de fazer um livro sobre isso. Então, como começar?" Com uma revista apurada, caprichada, luxuosa em seu cuidado com texto, elaboração e abordagem das pautas e fotos, e, principalmente, anual.

"Cada revista será como um grande fascículo. Será um retrato de cada ano. Não necessariamente cronológico, temático, no sentido prender-se aos assuntos do dia. Nada disso. É uma leitura muito particular de quem está fazendo o País nesta década, do que está sendo o Brasil. Ao fim de dez anos, vai, então, virar um livro e poderemos ter este balanço." Diante do projeto, impossível não se lembrar que Duran, apesar de não se considerar fotojornalista, gosta de ver a vida de perto. E quando se vê Rev. Nacional 'de perto', percebe-se que é a mais pura verdade.

Mente inquieta. E é isso que, surpreendentemente, não só as fotos mas principalmente os textos da publicação revelam. Inquietação, liberdade. É preciso ter veia de repórter para fotografar as mais belas mulheres brasileiras e também os policiais do Bope e a "África dos caçadores". E a história da pauta do caçador, então? Essa foi uma coincidência de assuntos. "Eu tinha sido pago por um trabalho com horas de voo de helicóptero. E me perguntava: 'O que vou fazer com isso? Quando descobrimos que podíamos ir à fazenda de um dos lendários caçadores que percorreram o continente africano e que moravam no interior do Brasil, 'peguei' minhas horas de voo, minha equipe e voamos para lá. Passamos um sábado incrível, fizemos as fotos, a entrevista. E o resultado está nas páginas."

Por falar em páginas, elas são também tão livres quanto os autores que as assinam. Não há título didático, nem linha fina (que explica o título melhor), nem legendas óbvias das fotos, muito menos texto que são grandes legendas. Não há mais que elementos básicos para que, uma vez propostas as fotos (sempre em preto e branco) e os títulos muito econômicos, o artigo literalmente termine de ser escrito na cabeça do leitor. "Mais do que isso, se o leitor não checar o índice no começo da revista, é capaz de não entender do que se trata. Mas confesso que adoro isso."

De fato, só a manchete Luiz Toledo & Aeromoças (a arte de sonhar sem compromisso), que abre a revista número 2, já faz com que seu um quilo e quatrocentos gramas valham cada página a ser saboreada.

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