O Brasil em recortes

Em 64 imagens, livro celebra os 40 anos de carreira de Pedro Martinelli

Simonetta Persichetti, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Basta um átimo, uma fração de segundo para que a foto tão esperada seja conseguida ou não. Longos minutos à espreita de uma imagem já visualizada e enfim: a satisfação. É essa a sensação que o fotógrafo paulistano Pedro Martinelli, nascido em 1950, nos passa quando olhamos seu trabalho. Fotos flagrantes, mas que, muitas vezes, mereceram a calma da espera. Ele é, antes de mais nada, fotojornalista, um narrador do mundo.

Há 40 anos está na estrada, sempre procurando temas para suas fabulações, que tanto podem ser os índios, como bastidores da moda, um incêndio, a pesca do pirarucu, as festas populares do Brasil. Parte de seu trabalho, 64 imagens, foi reunida em Martinelli, Pedro (Editora Terra Virgem, 96 págs., R$ 45), que será lançado no sábado com uma exposição de fotos vintage e imagens do livro que serão vendidas na ocasião. Mas não é só. Para setembro, a Terra Virgem e Martinelli organizaram o lançamento de uma edição de luxo do livro, durante a SP-Arte Foto, no Shopping Iguatemi/SP. Uma edição limitada de 100 exemplares numerados: 20 virão acompanhados de cópia fotográfica 55 x 44, também numerada e assinada e 80 livros assinados pelo autor. Isso visando ao crescente mercado de colecionadores de fotografia.

Pequenos recortes, quem sabe, melhor dizendo, um aperitivo de seu vasto acervo imagético. Como o seu famoso registro feito durante um jogo no Parque Antártica, no início dos anos 1970, quando ele começava sua carreira, que nos lembra o quadro Operários, de Tarsila do Amaral: "Eu vi a foto, como todos os fotógrafos que estavam naquela tarde no Parque Antártica viram", escreve Martinelli, nas primeiras páginas do livro. E continua: "Dali para frente, não fiz outra coisa senão planejar a fotografia". Esperou o momento exato, o início da partida, aquele momento em tudo parece ficar em suspenso esperando o apito do árbitro. Foi aí que ele disparou: "A foto era só minha".

Ou o instante da tragédia no incêndio do Edifício Joelma em São Paulo, em 1974, ou ainda o olhar cúmplice dos índios que se rendem e se deixam retratar, como em Marabá em 2000. Mas não ficam de fora suas fotos-denúncia, como as do desmatamento da Amazônia - região que lhe é muito cara e que acompanha desde a década de 1970. Aliás foi na Amazônia, acompanhando uma expedição dos irmãos Villas-Boas, em 1973, que conseguiu a primeira imagem dos índios kranhacãrore, de quem ainda pouco se sabia. Foram três anos de espera e apenas duas fotos: a primeira tremida, a segunda perfeita: "De volta ao acampamento, antes de atracar no barranco, os índios (que dirigiam a canoa) estavam em total euforia, começaram a saltar da canoa, que começou a balançar, virou comigo, as câmaras e os filmes. Desastre. Pensei que tinha perdido tudo". Não perdeu. Os índios resgataram os filmes e a foto foi primeira página do jornal O Globo, onde Martinelli trabalhou de 1970 a 75. Na sequência, Martinelli atuou, entre 1977 e 1983, como fotógrafo e editor da área da Veja. Depois, de 1983 a 1994, foi diretor de serviços fotográficos no conjunto de revistas da Editora Abril. De seu currículo também fazem parte importantes exposições coletivas, entre elas a 1.ª Trienal de Fotografia (MAM, 1980); 100 Anos de Avenida Paulista, (Masp, 1991); 1.ª e 2.ª Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba (1996 e 1998).

Lugares e desejos. O livro pertence à coleção Fotógrafos Viajantes, criada pelo editor Roberto Linskier, que foi lançada em 2009 com um livro sobre Pierre Verger e em 2010 com um sobre Cássio Vasconcellos: "A coleção traz grandes fotógrafos, suas imagens e viagens, editadas de forma a contar um pouco sobre a visão peculiar de cada um deles. O que me interessa é a diversidade de olhares, lugares e desejos", diz Linskier.

De pequeno formato, lembrando diários de viagem, Martinelli, Pedro acompanha a trajetória desse fotógrafo, que soube colocar e manter o fotojornalismo brasileiro em destaque, mas que, acima de tudo, é um ótimo contador de histórias, como as que estão nos seus livros Casas Paulistanas (1998), Panará a Volta dos Índios Gigantes (com exposição no Sesc Pompeia/SP-1998), Amazônia o Povo das Águas (com mostra no MIS/SP-2000), Mulheres da Amazônia (com exposição no Museu da Casa Brasileira/SP-2004) e Gente X Mato (2008).

MARTINELLI, PEDRO

estudiobola. Rua Presidente Antônio Candido, 228, Alto da Lapa. Sáb., 11 h (exposição a partir de sábado até 28/10).

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