''O Brasil deve ser verde escuro com cores de Azaleia''

Entrevista com Apichatpong Weerasethakul, cineasta e artista tailandês

Entrevista com

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

O que está planejando exibir na 29ª Bienal de São Paulo? Um novo trabalho ou algo já exibido e por quê?

Vou exibir uma obra chamada Fantasmas de Nabua (Phantoms of Nabua). É um trabalho de 2009, focado na ideia de dor e prazer, criação e destruição. Foi filmado em um lugar que tem uma história política violenta no Nordeste da Tailândia.

Poderia dizer algumas poucas palavras sobre esta obra? Considerou realizar um trabalho especial usando algo diretamente relacionado ao Brasil aproveitando o convite para a Bienal?

Fantasmas de Nabua é parte de um projeto multidisciplinar chamado Primitivo, que é um tributo aos espíritos do Nordeste da Tailândia. Ao mesmo tempo há um projeto de se apresentar uma retrospectiva de minhas obras em São Paulo, mas ainda não sei se isso ocorrerá. O Brasil é um país especial que eu adoraria explorar. Sinto que há uma conexão entre o que eu admiro e o que o país pode oferecer - uma energia bruta.

Quais são suas referências para este projeto?

Diferentes tipos de iluminação e como elas representam ou provocam certas memórias. Morte e vida após a morte. Um jogo.

O que acha do tema desta edição da Bienal de São Paulo que quer discutir a relação entre arte e política?

Eu estou curioso para ver como o tema será politizado e usado na mídia.

Como vê seu trabalho relacionado à discussão sobre arte e política?

Foco nas políticas pessoais que refletem como eu vivo e me lembro das coisas. Ultimamente, na Tailândia, os assuntos políticos se moveram na minha esfera pessoal (como fizeram com todo mundo aqui) a ponto de meu trabalho ter tido uma raiz mais social. Mas eu não posso dizer que o que eu faço é um "political statement".

O sr. separa seu trabalho como diretor e seu trabalho como artista? Como lida com essas duas formas de expressão de suas ideias e poéticas? Se considera mais experimental como artista ou como diretor?

As duas linhas de atividade correm juntas e se entrelaçam em algum ponto. Estou ciente de outras diferenças em relação à apresentação e condições de público. Mas isso não me influencia quando eu crio alguma coisa.

Li que seu filme Uncle Boonmee, Who Can Recall His Past Lives, pelo qual o sr. foi premiado este ano no Festival de Cannes, é mágico, mas, ao mesmo tempo, bizarro. Poderia me dizer como definiria sua poética?

Eu tento não analisar meu trabalho. É verdade que há uma espécie de personalidade em meus trabalhos. Entretanto, cada uma das obras tem as suas próprias características. É magia negra. É algo que não posso controlar.

Poderia comentar sobre seu novo projeto cinematográfico intitulado Utopia? Está acabado?

Utopia é como um trabalho em processo. É minha ideia sobre a cor branca e o que o branco representa. O filme está focado em um ciclo de violências naturais e não-naturais. É um de meus sonhos mais caros.

O sr. tem alguma relação com o Brasil ou com a cultura brasileira? Tem algum interesse particular pelo País? Está planejando vir a São Paulo?

Tenho um conhecimento limitado sobre o Brasil. Então fico imaginando algo verde escuro que se transforma em várias cores de azaleias em poucos segundos, antes de voltar a um estado mudo. Há lindas atividades violentas acontecendo em meus sonhos sobre o Brasil.

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