O Brasil de 60 na obra de Ziraldo, <i>Jeremias, o Bom</i>

Jeremias, O Bom, personagem de Ziraldo, é o símbolo de uma brasilidade esquecida. Publicado originalmente ao final da década de 60 na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil, Jeremias ganha agora uma versão encadernada (Jeremias, O Bom, 143 páginas, Melhoramentos, R$ 31,20 na Fnac e na Livraria Cultura). O livro inclui histórias censuradas pela ditadura militar. Para quem leu na época é chance de se divertir novamente. Para os novos leitores, uma grata surpresa. Para qualquer um, uma lição de solidariedade. Jeremias é aquela figura que todo mundo já conheceu um dia, mas cujo exemplo é bem difícil seguir. É o sujeito que dá a vez no elevador lotado. Quando não tem dinheiro empresta cheque para o amigo durango. Dá carona para o mais infeliz palpiteiro, leva a molecada ao cinema e cobre todos sob seu guarda-chuva. Para quem acha que herói é aquele mais rápido que uma bala, Jeremias mostra que qualquer boa ação vale todo sacrifício. Numa época em que a população, de uma maneira ou outra, sentia os efeitos da ditadura militar no Brasil, Jeremias representava um retrato bastante singular da época em que foi criado. O personagem não é um convulsivo estudante, membro de algum centro acadêmico, papagaio de "palavras de ordem". Tampouco um senil radical em suas fidelidades ideológicas, nostálgico de um ou outro tempo melhor. Jeremias é um homem de classe média, "espremido entre os bacanas e a ralé", como diz Antonio Callado no prefácio da edição. Não, o personagem é bem mais discreto. Sensível a tudo à sua volta. O herói de Ziraldo sabe que não se pode salvar o mundo. Mas pode amenizar sua dor. É claro, o meio para isso é a total irreverência, natural ao cartunista. Autor de ilustríssimos personagens como Pererê e o Menino Maluquinho, Ziraldo traduziu em Jeremias aquelas virtudes brasileiras que normalmente são menos lembradas do que a malandragem, a sexualidade exacerbada ou o gingado musical-futebolístico. Não que Jeremias passe ao largo desses pontos. Pelo contrário, o personagem é flamenguista devoto, chegado numa pelada (em seus vários sentidos), além de apreciar uma boa noitada. Mas Jeremias prefere sair da sala e soltar seu grito de "gooool!!" para não magoar o torcedor alheio. Bate pênalti no peito do goleiro sabendo que é dia do aniversário do defensor. Leva sua mãe para a boate e secretamente paga uma bela profissional para alegrar seu pai. Mas, quando o assunto é com Jeremias, as mulheres só têm uma coisa a dizer: "Jeremias, você é bom mesmo...". "Os filatelistas não conhecem até hoje um selo com a efígie de um bom. Os bons jamais deram filme. Os bons não fazem a história", narra Ziraldo ao fazer uma reflexão importante. Para o autor, não se sabe quando Jeremias nasceu. "[...] Há contudo os que afirmam que - como os discos voadores - Jeremias sempre existiu." A afirmação tem menos a ver com o personagem em si do que com aquilo que ele representa. Jeremias é uma expressão de seu tempo. Entre 1969 e 1974, o Brasil, sob a presidência de Emílio Garrastazu Médici, viveu seus piores dias de regime militar. Prisões, torturas e grupos de extermínios eram quase regra do cotidiano. Expressões de oposição ao governo eram perseguidas ou mesmo eliminadas. A imprensa brasileira foi obrigada a encontrar vários tipos de subterfúgios para manter sua função de servir e informar a população. Um desses tipos foi justamente o humor, difícil de ser detectado pelos órgãos de censura. "Millôr gosta de dizer que nenhum humorista atira para matar. Os milicos da ditadura, incrédulos e paranóicos, não foram nessa e vigiaram com crescente rigor as gracinhas do jornal", relembrou Sérgio Augusto sobre os anos em que ele, Millôr, Paulo Francis, Tarso de Castro, Jaguar, o próprio Ziraldo e outros publicaram o já mitológico O Pasquim. O jornal, independente, por anos foi um dos maiores canais de crítica ao governo militar. Ingenuidade solidáriaJeremias, em sua ingenuidade solidária, falava em nome de um tipo de sentimento que a ditadura de alguma forma tendia a reprimir. O que "sempre existiu" era aquele humanitarismo que em tempos de violência parece ser colocado à prova. O que não significa que Jeremias seja alguém simplesmente dócil. Em uma das passagens, ele vocifera contra a um povo apático, que prefere não enxergar quando alguém "um pouquinho a favor" desaparece de cena. O resultado do protesto é um surdo tiro em sua cabeça. Como quadrinho ou cartum, Jeremias, O Bom faz lembrar outra célebre obra em quadrinhos, Maus, do nova-iorquino Art Spielgman. Nela, o autor narra a trajetória de seu pai, Vladek Spielgman, judeu polonês, às voltas com a barbárie do nazismo e do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Grande sacada do autor, os judeus em Maus são mostrados como ratos, e os alemães nazistas, como monstruosos felinos. Se Maus fala da total indiferença do ser humano diante da sobrevivência, o Jeremias de Ziraldo é como um reflexo invertido no espelho: bondade é, acima de tudo, a empatia com o resto da humanidade. Obviamente é um absurdo tentar comparar o tamanho da dor de uma tragédia, seja ao tratar do Holocausto ou das vítimas da ditadura brasileira, mas a leitura de Jeremias traz uma questão central: a bondade do personagem, heróica, talvez por isso mesmo, simbólica, é algo permanente do brasileiro ou seria circunscrita a tempos em que ela é obrigada a se manifestar? Que o humor, em sua irreverência sincera, traga a resposta.

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