Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O Brasil conservador e a arte

Fiquei triste por todos os artistas chamados de vagabundos, vivendo num país burro

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 03h00

Meus filhos estudaram no Instituto Acaia, escola experimental em período integral que rola em torno de um enorme ateliê de arte, marcenaria, pintura. Integra educação com “oficinas de fazeres”; projeto da artista plástica Elisa Bracher.

Desde então, ficaram obcecados por arte, esculturas, intervenções. Passam horas pintando paredes, portas, brinquedos, montando legos, misturando materiais com colas e fitas. Gasto uma baita grana com prazer comprando material. 

Qualquer exposição, eu os levo, de SP-Arte à Bienal. Depois de uma do Basquiat, no CCBB, passaram a desenhar coroas em toda parte, marca do artista, que faz uma colagem de muitos materiais com arte de rua. 

Arte é investigação: simbolismo, materiais, psicanálise, matemática, cores, filosofia. A ocupação Tunga, Conjunções Magnéticas, é a tradução dessa mescla. É imperdível. No Itaú Cultural, ocupa três andares. São 300 obras expostas também no Tomie Ohtake. Curadoria de Paulo Venancio Filho.

Muitos desenhos insinuantes. Esculturas misturam pedras vulcânicas com cristais, ferro, líquidos. Lembram um portal. Sua arte vem das entranhas da Terra e do corpo humano. Pentes penteiam fios de cobre. Ímãs se juntam a vidro, feltro à borracha. Ossos imaginários embrulham o vazio. 

Num dos andares, tomei um susto. Uma funcionária informou que aquele andar contém obras obscenas. Como eu estava com duas crianças, uma de 7 e outra de 5, viu-se obrigada a alertar. Não foram impedidos de entrar, porque estavam com o pai.

Imediatamente, eles perguntaram o que é “obscenas”, e por todo andar perguntavam se tal obra era obscena. Tinha um desenho de uma vulva que emanava luz. E outros de corpos se pegando. No mais, a qualquer lado que se olhasse poderia haver uma interpretação fálica, sexual. Aliás, até a escultura de bronze de Amilcar de Castro à frente do museu, na calçada da Avenida Paulista, seria obscena?

Pensei na arte greco-romana vandalizada por fanáticos cristãos, em estátuas e sítios arqueológicos dinamitados pelo Taleban e Estado Islâmico. Será que visitantes de Louvre ou D’Orsay são alertados?

Evidente que o instituto queria evitar o que aconteceu no Santander Cultural, na exposição Queermuseu, cancelada depois de protestos liderados pelo MBL (livre?). 

Tunga tem obra no Louvre, Guggenheim, Veneza, é da escola de Cildo Meireles, Sergio Camargo, Lygia Clark. Em 2007 fez uma exposição individual no MoMA. Fiquei triste por ele. E por todos os artistas brasileiros chamados de vagabundos, que vivem num país atualmente intolerante, conservador, burro.  

*ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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