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O bom romance em crise

Julián Fuks questiona a existência de histórias

VINICIUS JATOBÁ,

14 de janeiro de 2012 | 03h00

Em um mundo cada vez mais taxonômico não deixa de ser irônico que seja justamente o romance vanguardista a maior força conservadora tanto em estética quanto em política. Procura do Romance, nova narrativa de Julián Fuks, segue à risca todas as regras não escritas desse gênero oculto, a literatura séria. Antinarrativa, antirromance, antipersonagem, é paradigmático da atitude desconfiada diante da vida. Quando há personagens, são construções intelectuais; quando há um espaço dramático, é esvaziado de suas peculiaridades; quando há um enredo, ele é desconstruído.

Fuks trabalha em pleno território onettiano: um homem retorna ao apartamento de sua infância e deseja retrabalhar esse tempo em que esteve distanciado de seu país natal, Argentina, da única maneira que reconhece como possível: escrevendo. Só que escrever é impossível, claro. As palavras não bastam, a memória não é confiável. Fuks demonstrou imenso talento narrativo em seu livro anterior, Histórias de Literatura e Cegueira. Contudo, existe um porém. Como a matéria narrada nesse primeiro livro foi a cegueira de Borges, Joyce e João Cabral, todos grande literatura, há uma culpa menor no manejo do instrumental usado pelo folhetim. Já em Procura do Romance admira-se tanto o projeto quanto sua realização; no entanto, não é uma casa habitável. O narrador do romance se pergunta se há histórias, mas se não há personagens sequer essa pergunta possui carga emocional. A apreciação da literatura séria se tornou mais o que se fala sobre livros do que realmente vivenciar o que estão descritos neles, porque falta humor e vitalidade no gênero.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

PROCURA DO ROMANCE

Autor: Julián Fuks

Editora: Record

(144 págs., R$ 32,90)

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