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O Bom Gigante

Foi Manuel Bandeira, na crônica O Bar, quem chamou Geraldo Barrozo do Amaral de “Bom Gigante”. Apelido suplementar, diga-se, pois a criatura era e até o fim da vida seria o Dodô. “Gigante” por motivos óbvios: 1 metro e 94. “Bom”? Talvez houvesse nas imediações um Mau Gigante, e, como no caso dos dois ladrões que ladearam o Cristo crucificado, convinha não confundir. O que a crônica registra é um baixinho (“batia-lhe pelo ombro”) de nome Ubirajara, com quem o grandalhão troca sopapos no fuzuê do Bar Nacional, no centro do Rio de Janeiro, no instante em que apitos e berreiro saúdam a entrada no ano de 1928. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2015 | 02h00

Eram amigos, o Bom Gigante e o tal Ubirajara, que Bandeira descreverá em carta a Ribeiro Couto como “um moreninho valente”. Naquele réveillon, porém, engalfinharam-se numa testosterônica disputa pela “mais linda mulata da cidade” - em cuja companhia Dodô sorrateiramente escafedeu-se em meio ao sururu. E então, já sem pretexto de mulata, Bom Gigante e Ubirajara, o pugilato se alastrou pelo Nacional, onde às tantas teve que baixar polícia. Segundo Bandeira, a única vítima foi o “Irônico”, que vinha a ser seu guarda-chuva e que, amainada a refrega, jazia a um canto, “completamente esfrangalhado”. 

O poeta deu de ombros, sentindo-se no lucro: afinal, contou a Ribeiro Couto, tinha presenciado “a mais turbulenta e lírica cena” de sua vida. “Atento a tudo, calmo”, ficou “encantado com a mocidade daqueles sujeitos que sentiam uma necessidade absoluta de brigar e de apanhar pra fazer alguma coisa mais que beber apenas”. De resto, Bandeira adorava o Nacional, na Galeria Cruzeiro, onde hoje existe o Edifício Avenida Central. Contido desde sempre por sua condição de “tuberculoso profissional”, ali ele viveu, de tabela, a decantada “vida que poderia ter sido e que não foi”. Aos 40 anos, pôde desfrutar o sabor das “loucas aventuras” que não teve na adolescência, “através da experiência de um rapaz de 20”. O “Bom Gigante”, claro. 

Havia “uma espécie de mesa cativa onde imperava Geraldo Barrozo do Amaral, cunhado de Guilherme de Almeida, o famoso Dodô”, irá rememorar Aloysio de Paula, pneumologista chegado às letras. Bandeira não faltava, acrescenta o doutor: “Simples, sem-cerimônia, simpático e risonho”, o poeta “tomava conta do grupo, ia contando suas histórias e era aquela delícia”. Altos papos intelectuais? Nada disso, conta o poeta Dante Milano: “A nossa roda não tinha nada de literário, e era bem interessante ver-se a figura recatada” de Bandeira “em meio às risadas e impropérios daquela reunião de bebedores, libertinos, estudantes, jornalistas, músicos, artistas, e um ou outro boxeur estapafúrdio que de repente virava as mesas do bar”.

Ribeiro Couto, outro habitué, descreve Dodô como um “vasto gigante norte-americano, tipo do policeman à paisana, emborrachado de ideologias confusas e de cocktails”. Pena não ser possível fazê-lo “menos obsceno” e tirar-lhe o vício da bebida. O rapaz custou a livrar-se do álcool, responsável pela má impressão que causou a Mário de Andrade ao se conhecerem. Logo Mário descobriu a “extraordinária delicadeza de sentimento” que havia naquele moço estabanado. Achou-o merecedor de figurar em Macunaíma, entre uns “macumbeiros” - Jayme Ovalle, Manuel Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento - que, ao cabo de “muitas pândegas liberdosas”, saem pela madrugada carioca com o “herói sem nenhum caráter”.

Livre do álcool antes dos 40 anos, Dodô chegou aos 78. “Achei que fosse durar um pouco mais”, disse nas últimas ao filho Antônio Geraldo, “mas com todas as farras que eu fazia...”. Entre as alegrias que adoçaram seu final de vida havia a neta Isabel - a “Isabel do vôlei”, expoente desse esporte até deixar as quadras, em 1990. Tinha o carinho, também, do sobrinho Zózimo Barrozo do Amaral, o refinado colunista do Jornal do Brasil, depois de O Globo, que o jornalismo perderia ainda jovem, aos 56. Zózimo me falou do “homem brilhante, de grande cultura” que foi o tio Dodô, do engenheiro aplicado da Central do Brasil e do mitológico farrista cujos feitos lhe chegaram em mil divertidos depoimentos. 

Lembro-me de uma história em que Dodô, ainda à toda, está num bar da Avenida Rio Branco, quem sabe o Nacional, quando é abordado por uma legionária do Exército da Salvação, sequiosa por atraí-lo para o aprisco do Senhor. Mas quem leva a melhor é o pecador, capaz, com sua lábia, de convencer a moça a dar um tempo em sua árida virtude e acompanhá-lo ao mais próximo altar dos prazeres da carne.

 

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