O bom companheiro

Em entrevista exclusiva, Al Pacino fala do desejo de continuar na ativa aos 73 anos, do prazer de ser pai e de seu novo filme, 'Amigos Inseparáveis'

FLAVIA GUERRA / LOS ANGELES, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h09

"Toda vez que sinto a urgência de atuar, deito e espero até que passe." Foi assim que Alfredo James Pacino respondeu ao Estado quando questionado se, aos 73 anos, está mais inclinado a continuar na ativa ou a se aposentar, feito Val, o personagem de seu novo filme, o ex-assassino de aluguel de Amigos Inseparáveis, que estreia em 15 de março no Brasil. "Oscar Wilde disse isso. Hoje sou mais seletivo e pondero mais antes de decidir por um papel. Mas o fato é que não considero a opção de parar. Aposentadoria? Nem sei o que significa", continuou o ator que ganhou fama mundial ao viver Michael Corleone na saga O Poderoso Chefão (1972, 1974 e 1990) e recebeu o Oscar de melhor ator por Perfume de Mulher (1992).

Hoje, como raras vezes, estrela um longa que trata de um tema que lhe é atual e familiar. "Val está ficando velho. Sei o que sente. Não tem mais a mesma força física, o mundo mudou. Mas ainda tem energia, sabedoria e uma nova forma de olhar tudo", comentou o ator sobre seu personagem. Na trama dirigida pelo também ator Fisher Stevens, Pacino vive este ex-criminoso que, após passar décadas na cadeia, é finalmente libertado. Para ajudá-lo a voltar ao mundo, conta com o amigo Doc (Christopher Walken). Decidem ter um último dia de velhos tempos e, para completar a trupe, resgatam Hirsch (Alan Arkin) em um asilo.

O que o fez entrar para 'Amigos Inseparáveis'?

Adorei o roteiro. Gosto dos personagens. Eles são ao mesmo tempo incomuns e exóticos, mas também muito humanos. É um filme pequeno, em que dá prazer de trabalhar. É leve, mas fala de um tema difícil. Conheço o Fisher, somos bons amigos e confio muito nele. Além de ser um ator incrível, dirige muito bem. Para completar, o longa seria rodado em um região próxima de minha casa, em Los Angeles, o que me permitiria trabalhar e continuar vendo meus filhos. Em geral os roteiros me motivavam a fazer um filme. Hoje levo em conta outros fatores. Conseguir cuidar dos meus filhos, que têm 12 anos, é importante.

Poder filmar e continuar em cartaz com uma peça (como até há pouco, em que estava com Glengarry Glen Ross em Nova York) também é importante?

Sim. Comecei no teatro. Me sinto mais livre no palco. Me dá mais prazer e poder de expressão. Sempre senti isso. Por outro lado, é mais exaustivo. Quando estamos em cartaz com uma peça, dependendo do personagem, muita energia é consumida. Se o teatro é toda sua vida, pode se tornar muito difícil. É mais fácil quando se tem outros projetos. Há mais equilíbrio quando a gente faz filmes, temos roteiros para ler, cuidamos da família e dos filhos. É importante. Se fazemos só teatro, nos vemos sempre ajustando a vida em torno disso.

Ainda que incomum, Amigos Inseparáveis é uma comédia. Você não é associado a papéis cômicos. Como foi encontrar humor nesta história?

É preciso encontrar humor nos personagens. Ajuda a enfrentar passagens trágicas. Sempre me vi como alguém que permite que a graça exista. Até Scarface tem humor. Isso torna o drama mais palatável. A vida também. O humor nos torna humanos.

No início da carreira, você fez stand up comedies. Por que disse que era um trabalho melancólico?

Fiz comédia quando jovem para me ajudar a pagar contas e encarar minha própria vida, repleta de tristezas. O humor me ajudou. Ao mesmo tempo, era melancólica esta sensação.

O que ainda o seduz em um personagem hoje?

Varia muito. Roteiro é importante. Não penso muito nisso. Às vezes, se faz algo porque 'se está lá'. E é assim que tem de ser.

Em 'Amigos Inseparáveis', há muitas piadas sobre como os personagens estão envelhecendo. Pensa em se aposentar?

Não. Em vez de parar, tudo é questão de entender do que a gente ainda é capaz de fazer. E rir das limitações. Às vezes, ficamos cansados, mas descobrimos energias novas. Se um papel me interessa, anima ou desafia, não vejo por que não o fazer. Meus personagens sempre foram extensões de minha vida e de mim. Não há regras. Sigo o fluxo.

Dirigir também é extensão? Sente-se realizado dirigindo?

De forma alguma. Sinto que estou fazendo tudo errado. Às vezes, quando faço um filme, vou às sessões testes, para ver como o público reage. Penso: 'Espero que algum bom editor o remonte e faça um filme bom'.

Falando sério, me divirto sim. Mas não é como diretor que vejo o mundo. É como ator que enxergo e me expresso.

Sendo ator, é mais fácil dirigir?

 

Quando era mais jovem, dirigir era muito mais difícil. Hoje, depois de ter dirigido alguns filmes, entendo melhor os diretores e o que eles passam com os atores. E o cinema também. Fiz meus filmes com meu dinheiro. Foi melhor assim. Era o que devia fazer. Foi uma forma de me livrar do moedor de carne que é ter de fazer tudo sob a pressão, de fazer tudo de acordo com a ditadura do 'prazo'. Muito de nosso trabalho é ditado pelo relógio. Você, como jornalista, sabe do que falo. Temos de entregar o trabalho de acordo com o tempo da produção. E a pressão afeta como criamos. Fiz Édipo, em NY, há dez anos. Levamos sete meses e meio. Apresentamos para pequenas plateias. Seria diferente se tivéssemos tido apenas dois meses. Pudemos trabalhar melhor e explorar mais o texto.

É disso que trata o Actors Studio.

 

Sim. Este aprendizado no Actors Studio foi importante quando dirigi meus filmes. Não havia alguém batendo no meu ombro dizendo quando tinha que acabar. Spielberg uma vez me disse: 'Nunca ponha seu dinheiro em um filme'. Tinha razão. Mas estou feliz de ter feito.

Faria novamente?

Sim! Quero dirigir, ou produzir, a história de Modigliani, baseada na peça de Dennis McEntire. Gostaria de atuar, mas estou velho para o papel.

Você tem fama de difícil. A maturidade o tornou mais fácil? Ajuda a aceitar críticas?

Depende da crítica. Uma vez que o trabalho está feito, está feito. Quando estou no meio de um processo, ouço bem. Depois de pronto, não há mais nada a fazer. Hoje, mantenho uma distância política das críticas.

Já teve um amigo inseparável?

 

Sim. Principalmente quando estava crescendo. Sou do Bronx, NY, e tive amigos que me protegiam, com quem podia contar. Gostaria que meus filhos tivessem isso. Foi nas ruas que tive minha educação social. Sem amigos, não seria o que sou.

Você fala muito de seus filhos. Se considera um bom pai?

Tento ser. Anton e Olivia são gêmeos e estão com 12 anos. Quero fazer parte da vida deles, como não pude fazer da vida de minha filha mais velha, Julie Marie, de 22 anos. Ser pai é natural. O que não é muito natural é ser pai solteiro. É mais difícil. Se eu vivesse com a mãe deles, muitas coisas seriam diferentes. Quando não estou filmando, faço questão de levá-los e buscá-los na escola.

Como é ser pai aos 70? Não se sentia maduro antes?

Não. Ser pai é muito mais sobre como os filhos vêm ao mundo, com quem os temos e onde estamos no momento. Aprendi que não é sobre você. É algo que nos faz distanciar do ego. É gratificante, pois nos faz parar de nos preocuparmos tanto com nós mesmos e doar mais. Não pude estar muito próximo da minha filha mais velha. Quando Julie nasceu, assumi a responsabilidade, mas não estava pronto. Os gêmeos foram planejados. E, ainda que esteja separado da mãe deles (a atriz Beverly D'Angelo), posso curti-los mais.

O que lhe dá prazer hoje?

Fazer filmes como este, pois não é sempre que se pode trabalhar com amigos, cuidar dos meus filhos e dar palestras. Compartilho, relembro e revisito fatos da vida e os vejo de uma nova perspectiva.

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