Jotabê Medeiros/AE
Jotabê Medeiros/AE

O biscoito fino das ruas

A música que se faz nas esquinas do mundo vem a São Paulo

Jotabê Medeiros / NEW ORLEANS, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

Seria world music se fossem sons percebidos do ponto de vista do estrangeiro. Mas como eles são do mundo todo, é uma música do mundo - com a informação de milhares de culturas e uma experiência de vida que conhece a rua intimamente.

 

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Essa é a Playing for Change Band, que reúne o holandês Clarence Bekker (nascido no Suriname), o americano Grandpa Elliott, os congoleses Jason Tamba e Mermans Kankosenski, o ganês Mohamed Alidu, a sul-africana Titu Tsira, entre outros (recentemente, aderiu ao grupo o senegalês Ilon Ba, que tocava com o megastar Baaba Maal). São diversas histórias de vida, muitas delas resgatadas de uma vivência inteira nas ruas, como é o caso do veterano cantor e gaitista Grandpa Elliott Smalls, cego que toca desde criança na mesma esquina de New Orleans.

 

O grupo, que tocou anteontem no JazzFest de New Orleans e segue para o Marrocos, acertou dois shows no Brasil: toca no dia 15 de junho no Bourbon Street, em São Paulo, e no dia 18 de junho em Paraty, no Bourbon Jazz Festival. Também vão ao Rio e Belo Horizonte. No Jazz Festival de New Orleans, no começo da tarde de domingo, eles tocaram de tudo: Fannie Mae, Chance Gonna Come, Margarita, Back to Your Roots, Fire Down, Three Little Birds (de Bob Marley) e finalizaram com seu maior sucesso, Stand by Me (de Ben E. King).

Há 5 anos, cantada por Clarence, Roger Ridley e Grandpa Elliott, Stand by Me chegou a ter 31 milhões de acessos na internet e ajudou a disseminar o projeto pelo mundo afora. Uma antiga utopia, usar a arte para mudar a vida de pessoas que já são artistas mas não o sabem. Essa é a essência do Playing for Change, um fenômeno musical que começou na internet e se alastrou universalmente. O projeto começou em 2004, quando os produtores Mark Johnson e Enzo Buono começaram a viajar pelo mundo com um equipamento de gravação portátil, registrando músicos das cenas locais, especialmente instrumentistas de rua, da Ásia à América Latina, da Patagônia a Cingapura. Muitos ajudaram na causa, como Manu Chao, Bono, Keb" Mo" e outros.

Dificilmente alguém deixará de se emocionar com os duetos entre Grandpa Elliott e Clarence Bekker. Duas forças brutas da natureza, tocam lado a lado e Grandpa embala com sua gaita o balé de Clarence, o protótipo do sujeito sem raízes que elegeu a estrada como sua força motriz. "Somos uma família, não tem melhor definição", diz Bekker. De Grandpa Elliott, o Estado publicou um perfil no ano passado, quando ele estreou no JazzFest. História mais que triste. Quando tinha 6 anos, o padrasto matou a mãe em Nova York a pancadas. Foi criado pela avó, que o trouxe de volta a New Orleans para reconciliá-lo com suas raízes. "Toda mulher deve saber: quando um homem ergue o braço para ela uma vez, está na hora de deixá-lo. Porque ele vai pedir desculpas, e então vai se tornar cada vez pior"", aconselha Elliott.

Todo mundo o conhece em New Orleans: mesmo cego, anda de bicicleta colorida e usa roupas excêntricas. Aos 66 anos, vive seu momento de redescoberta. Até pouco tempo, ainda cantava numa esquina do turístico French Quarter, mas, desde 2008, sua agenda de shows o profissionalizou no circuito musical dos Estados Unidos.

Grandpa só tem um disco solo, também gravado pelo projeto Playing for Change. Seu nome de batismo é Elliot Small, e nasceu em 1945. Antes de ser assassinada, a mãe de Grandpa Elliott Small almejou para ele uma carreira como dançarino na Broadway. Ele ainda dança no palco, mas seu negócio é cantar e tocar sua gaita Hohner. Como os velhos sambistas cariocas, compôs canções que viraram sucesso dos outros - muitas de suas músicas foram "garfadas" por colegas espertos. Seu maior sucesso é a canção I"m a Devil, produzida por uma lenda de New Orleans, Wardell Quezergue.

Ele chegou a fazer trabalhos com Fats Domino e outras figuras lendárias, mas nunca tinha passado daquela esquina. Agora uma neocelebridade, já esteve no Tonight Show. O produtor e engenheiro Mark Johnson, que idealizou o Playing for Change há 10 anos, estava quase às lágrimas após a apresentação do grupo em New Orleans. "Acho que é o dia mais feliz da minha vida", disse ao Estado.

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