O bicheiro Giovanni Improtta está de volta

O bicheiro Giovanni Improtta persegue o escritor Aguinaldo Silva há 30 anos. Antes de ganhar físico e popularidade com o ator José Wilker, na novela Senhora do Destino, o contraventor protagonizou o romance O Homem Que Comprou o Rio, lançado nos anos 70 e reescrito nos 80. Agora, volta em Prendam Giovanni Improtta (Geração Editorial, R$ 29), com autógrafos hoje, às 19h30, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio. O livro nos deixa em suspenso até o ponto final e dá a impressão de que conhecemos aquelas pessoas e situações. Personagem e autor cresceram juntos. "Conheço-o tanto que posso usá-lo de novo no cinema, teatro, etc", diz Silva. Ele recebeu o Estado para falar do livro, seus planos e métodos de trabalho. Silva finaliza um novo romance, 98 Tiros de Audiência, para a Bienal do Livro de São Paulo do ano que vem, e elabora sua próxima novela, para 2007, que discutirá a importância da educação na vida das pessoas e do País. Ele admite que é uma resposta ao fato de o presidente Lula vangloriar sua própria falta de instrução. "Isso me incomoda muito", confessou. "Prendam Giovanni Improta" é de 1978, mas o crime que deslancha é história é igual ao caso Misaque/Jatobá, de 1981. Como se deu isso? A primeira versão é de 1978 e foi escrita na redação do jornal O Globo, onde fui redator e editor de Polícia entre 1969 e 1979. Já tinha o roubo em Arraial do Cabo, como agora. Em 1981, quando aconteceu o caso Misaque/Jatobá (assassinato de dois rapazes, um deles filho de um famoso locutor, em que a testemunha foi ameaçada de morte e o banqueiro de bicho Anis Abraão Davi, presidente da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, foi acusado de ser o mandante), achei que o crime se encaixava na minha história e a aproximava das pessoas. Mas era uma adaptação. Nesta terceira versão, as modificações foram profundas e criei a história do documento que amarra tudo. E, novamente, o senhor se inspirou nos donos do jogo do bicho? Em vários. Queria escrever um romance sobre como o Rio foi loteado e destruído na ditadura militar, que transformou bairros inteiros em terrenos baldios. Mas era um projeto ambicioso demais para quem escrevia no jornal, entre uma matéria e outra. Então fiz uma história policial abordando essas coisas e tendo um bicheiro como personagem. Naquela época, os bicheiros transitavam em todos os meios, tinham princípios éticos definidos e, espantosamente, apoio da cidade. As pessoas gostavam deles. Esse à vontade do Rio com certos setores marginais resultou no que a gente vê por aí. Realmente, hoje não há ética nenhuma. Como o Giovanni Improtta foi parar na novela? Ele me persegue. Como Senhora do Destino se passava na Baixada Fluminense decidi usá-lo. O Giovanni do livro é muito sinistro para uma novela e os bicheiros mudaram, têm até curso universitário. Então, eu criei um ex-bicheiro em busca da redenção, que foi marginal e cuja fortuna vem daí, mas hoje é cidadão estabelecido, cumpre as leis, paga imposto e quer ser amado. No romance, há também um repórter experiente, talentoso, honesto e alcoólatra, o Renato B. É alguém que o senhor conheceu? Fiz pouca reportagem policial, mas conheci os repórteres da época. Eram românticos, não teriam condições de trabalhar em jornal hoje em dia, mas queria homenageá-los e cito alguns deles no livro. Além desse repórter, criei um policial íntegro porque existe uma cultura no Brasil de que polícia não presta e tudo que acontece é por sua culpa. Veja esse ônibus incendiado. Dizem que a causa foi uma extorsão de dois policiais. Ora, se os traficantes estavam com raiva da polícia não podiam queimar um ônibus, não é mesmo? O sistema não é maravilhoso, mas há pessoas nele que acreditam na lei, têm uma noção ética muito forte, mesmo que às vezes se dêem mal por causa disso. Paulinho Reitz é assim e eu pretendia usá-lo em outros romances. São quase 30 anos do primeiro Giovanni Improtta até hoje. O que mudou no País, na polícia e na cobertura policial desde então? As coisas eram mais definidas. Antes, bicheiro tinha prestígio, mas era contraventor, até era preso. Hoje estão meio estabelecidos, como o Giovanni. Mas há o lado negro do tráfico, que tomou conta da cidade. Tudo era mais romântico. Havia um bandido, Lúcio Flávio, que escrevia cartas para o jornal explicando-se para a sociedade. Hoje é mais barra pesada, como aquela menina de 13 anos que conta com a maior naturalidade que pôs fogo no ônibus. Tenho vontade de escrever sobre isso, mas é muito difícil. A realidade ultrapassou qualquer ficção que se possa imaginar. Ficou inverossímil. Já a cobertura policial ocupa bastante espaço hoje, porque é um assunto primordial no Rio em outras grandes cidades. Mas há um ranço que vem da minha época. As pessoas acham que a polícia ainda representa a ditadura. O noticiário trata o policial como bandido e o bandido, por pior que seja, como mocinho ou vítima de uma situação social. Ora, estive recentemente no Paraguai, um dos países mais pobres do mundo, e lá as casas não têm muro porque não há assalto. Temos de refletir sobre isso. O sistema policial é complicado, mas sem polícia será um Deus nos acuda. Como a novela contribui para essa reflexão? O objetivo básico é divertir, fazer o telespectador rir e se emocionar, mas todo trabalho intelectual tem um autor e uma ideologia que precisa ser passada na ação. Do contrário, o público muda de canal. E novela não pode tratar nenhum tema de forma radical, por ter um público de 40 milhões, 50 milhões de pessoas. Por mais de esquerda que eu queira ser, minhas idéias podem causar espanto em milhares de telespectadores. Procuro adaptar meu pensamento ao das outras pessoas, ser sempre médio. Mas você sempre tem uma mensagem em suas novelas? São sempre temáticas. Senhora do Destino era sobre os valores familiares, os únicos com os quais a gente conta quando a barra pesa. Agora quero falar sobre educação, cultura e a necessidade que as pessoas têm de aprender, de estudar. Do contrário, a vida não tem sentido. O presidente da República dizer que chegou lá sem estudo foi um fato que o motivou? Sim, isso me incomodou muito, assim como o fato de o Lula nunca ter aparecido em público com um livro ou uma revista. Não quero comparar seu governo com o anterior, mas o Fernando Henrique Cardoso sempre aparecia com um livro. Mesmo que não leia, o Lula deveria fazer isso, mostrar às pessoas que é importante aprender, se informar. E não se vangloriar de não saber. O senhor já definiu o enredo? Quero que minha história comece no Catumbi dos anos 70. É uma região do centro do Rio, onde tem aqueles elevados e o sambódromo, mas era um bairro fantástico de classe média, todo de sobrados. Tudo virou um deserto que possibilitou o surgimento das favelas e tornou aquele lugar infernal. O personagem da Susana Vieira, minha diva e estrela para sempre, será uma mulher simples, que fica viúva e entra em depressão porque os netos já estão adolescentes e os filhos não ligam muito para ela. No meio dessa crise, uma neta tem dificuldades no vestibular e ela, aos 60 anos, volta a estudar. O senhor sempre fez romance policial, embora o gênero seja considerado o primo pobre da literatura. É possível um grande livro com esse tema? Eu respondo essa pergunta com uma frase curta e grossa. O maior romance de todos os tempo, Crime e Castigo, é uma história policial. E quando virá o Crime e Castigo do senhor? Não mereço tanto. Dostoiévski é bem melhor. Sou meio radical: todos os livros já foram escritos e a gente continua tentando de teimoso que a gente é - e também pelo prazer de escrever.

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