O bem que a brisa faz

Johnny Alf genial em uma caixa que só faz aumentar a saudade do ''professor''

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2010 | 00h00

Mais cultuado entre seus pares do que pelo grande público, Johnny Alf morreu em março, aos 80 anos, deixando de herança para os amigos uma obra não muito extensa, mas de uma beleza inconteste. Nas próximas semanas a Lua Music lança uma caixa de três CDs, que traz registros de Johnny com convidados, um só de Alaíde Costa, a voz que ele mais gostava de ouvir cantando suas músicas, e outro com leituras desses seus amigos para seus clássicos e lados B.

Como se trata de um compositor mais reconhecido por fãs de jazz e bossa nova, os clássicos se resumem a sete ou oito: O que é Amar (com Leny Andrade), Ilusão à Toa (Wanderléa), Céu e Mar (Zé Renato), Eu e a Brisa (Leila Pinheiro), Rapaz de Bem (Toquinho), talvez Olhos Negros (Claudia Telles), Desculpe, Seu Chopin (Filó Machado/Cibele Codonho), Nós (Emílio Santiago).

Não que o legado seja insuficiente para uma caixa como Johnny Alf - Entre Amigos. É justamente o contrário: esta é uma oportunidade de se conhecer mais este compositor que era tão bom pianista quanto cantor, tão discreto quanto importante. Um dos mestres de Tom Jobim, carregou o título de precursor da bossa nova até morrer.

Um artista que teve seus discos bastante tempo fora de catálogo (o que mudou com bem-vindos lançamentos da EMI e da Sony), e cujas únicas imagens em DVD restaram em um programa Ensaio, da TV Cultura, de 1991. Ele tinha vontade de deixar documentadas apresentações mais recentes, tanto que pedia ao empresário, Nelson Valencia, que as gravasse, como conta o produtor da caixa, Thiago Marques Luiz.

O primeiro CD, além das faixas conhecidas, tem a sacudida Fim de Semana em Eldorado, de 1961, uma graça na voz de Joyce, e a romântica Disa (parceria com o gaitista Maurício Einhorn de 64), interpretada por Celso Lago, cantor da noite de Santos (SP).

As gravações, realizadas entre agosto e setembro no estúdio da Lua Music, foram em clima de "ação entre amigos", já que a gravadora é pequena e não havia patrocínio. Os músicos de Johnny trabalharam por um cachê modesto; o piano ficou com Giba Estebez, que toca com Alaíde Costa e ficou responsável pelos arranjos. Os intérpretes ganharão apenas com a participação nas vendas.

"Cada um tinha sua história particular com Johnny, que era criterioso, não tocava com qualquer um. Todos gravaram com a maior alegria do mundo, por amor a ele", diz o produtor.

O segundo CD, o de Alaíde, tem músicas às quais praticamente só ela, íntima de Johnny, além de poucos mais próximos, haviam sido apresentadas. Começa com a belíssima Escuta, continua com a inebriante Foi o Tempo de Verão, passa por Em Tom de Canção, esta uma raridade nunca gravada, que a cantora recuperou graças a imagens de 1969 da TV Cultura. Alaíde, que tantos palcos dividiu com Johnny, já tinha o projeto antes de sua morte, mas não houve tempo de levá-lo adiante com o amigo vivo.

Por fim, Johnny Alf Ao Vivo à Vontade Com os Amigos reúne registros de shows de sua última década, nos quais ele vez ou outra fazia leituras de standards de outros, como Palpite Infeliz (Noel Rosa), Se Queres Saber (Peter Pan), Over The Rainbow (Harold Arlen/E. Y. Harbug), Castigo (Dolores Duran) e Corcovado (Tom Jobim).

Com Cida Moreira, dividiu A Noite do Meu Bem (Dolores Duran). Uma participação de Ed Motta rendeu uma gostosa versão de Fly Me To The Moon (B. Howard). Cauby Peixoto empresta sua personalidade a Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom/Vinicius de Moraes). Em 2011, os CDs deverão ser lançados em separado. Também estão sendo pensados shows com o repertório de Johnny.

JOHNNY ALF

CAIXA JOHNNY ALF ENTRE AMIGOS

Lua Music. Preço: R$ 60

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