O belo na luta do bem contra o mal

O Pavilhão Dourado, romance central da obra de Yukio Mishima, cuja maior parte do enredo se passa durante a 2ª Guerra Mundial, volta às livrarias do País em nova[br]tradução, que recupera a expressividade do ficcionista

Neide Hissae Nagae, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2010 | 00h00

Comecemos pelo autor. Yukio Mishima é o pseudônimo internacionalmente consagrado de Kimitake Hiraoka (1925- 1970), que o adotou aos 16 anos, quando veio a público o seu primeiro romance, Mata Florida, editado na revista Bungei Bunka. Formado em Direito pela Universidade de Tóquio - aliás, sua cidade natal -, tornou-se funcionário do Ministério da Fazenda, mas aos 23 anos optou pela carreira literária. Em 1949, publicou seu primeiro livro, Confissões de Uma Máscara. Foi poeta, escritor, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, além de ator e cineasta.

Várias de suas obras receberam versões cinematográficas. Premiado diversas vezes, Mishima chegou a ser indicado para o Nobel de Literatura. Casou-se em 1958 e teve uma filha e um filho. Nacionalista inconformado com a situação de seu país após a 2.ª Guerra, tinha uma visão muito particular de como defender a cultura nipônica. No dia 25 de janeiro de 1970, após entregar ao seu editor o último volume da quadrilogia Mar da Fertilidade, Mishima invadiu as instalações da Defesa Nacional Japonesa com quatro integrantes da associação Tatenokai, organizada por ele; fez prisioneiro o comandante-geral e feriu oito soldados com golpes de katana (um tipo de espada). Em seguida, se matou, rasgando o próprio ventre, numa atitude que chocou os próprios japoneses, que àquela altura viviam com tranquilidade o pós-guerra. O escritor, vale lembrar, esteve no Brasil em 1952, quando ainda era desconhecido por aqui.

Não é mais - e esta nova edição de O Pavilhão Dourado, tema do presente artigo, chega em boa hora às livrarias do País para consolidar seu público entre os brasileiros. O romance é inspirado no incêndio criminoso de 1950 daquela famosa edificação japonesa que lhe dá título e é datada de 1397. Publicada inicialmente em estilo folhetinesco na revista Shinch, entre janeiro e outubro de 1956, a sua publicação em livro pela editora da mesma revista conquistou no ano seguinte o prestigioso Prêmio Literário do Jornal Yomiuri. Reconstruído em 1955, o Pavilhão, templo da religião zen-budista Rinzai, tornou-se Patrimônio da Humanidade em 1994 e é passagem turística obrigatória na cidade de Kioto. Sobre o templo, limito-me a essas informações, pois Mishima o descreve com riqueza ímpar ao longo do romance.

Na trama deste, ele veste uma meia máscara de um psicanalista que ouve a história do piromaníaco - mas o leitor só se dará conta disso quase ao final do livro, pois o protagonista começa a narração na sua infância. São dez capítulos muito elaborados até o desfecho do incêndio. Filho do monge que cuidava de um templo numa pequena cidade distante de Kioto, Mizoguchi - um jovem tímido pela gagueira e pela má aparência - perde o pai e acaba ficando aos cuidados do responsável pelo Pavilhão Dourado, devendo seguir a carreira paterna.

O Pavilhão Dourado é o seu objeto de idealização desde quando ouvira o pai dizer que aquela era a maior maravilha do mundo. Num confronto entre o imaginário e o real, sua relação com o templo vai da admiração idealizada e o sentimento de estorvo até o ódio extremo, em ordem inversa à sua aproximação física com o lugar. No decorrer do enredo, esse anti-herói moderno se perde na confusa luta entre o bem e o mal à medida em que passa por sucessivas desilusões - até descobrir o prazer da perversidade. A aversão que ele tem pelas pessoas e pelo mal que nelas se abriga culmina com a descrença em si mesmo.

Budismo. Situado quase todo durante a 2.ª Guerra, o romance não é um manifesto de oposição declarada à atitude do governo japonês, mas nele subjaz uma paisagem de protesto pela situação inaceitável que gerou pessoas inconformadas dos mais diversos tipos. Assim, mais do que um incendiário insano, Mishima enxerga Mizoguchi como alguém moldado pelo destino cruel de enfrentar a morte trágica de um primeiro amor; de ser obrigado a desprezar a mãe adúltera; de perder o pai e o amigo, a confiança de seu tutor e a crença em suas próprias possibilidades, num contexto em que o budismo como instituição e os homens organizados em sociedade são colocados em xeque.

Nesta tradução de Shintaro Hayashi, as metáforas tão comuns no texto de Mishima se sobressaem por meio de recursos linguísticos que criam imagens inebriantes e reproduzem sons inaudíveis; as imagens e sons intercalam-se, misturam-se numa expressividade de riqueza sem igual, encantando os olhos, ouvidos e coração do leitor, numa tensão crescente. Além de trazer um glossário para o público não familiarizado com a cultura e o contexto histórico-social do Japão da época da trama, há nesta edição uma sensível melhora em relação à que saiu em 1988. É de se esperar, portanto, que ela surpreenda os leitores ávidos por saborear o texto, cientes, é claro, de ainda estarem diante de um instrumento mediador.

Da mesmo forma, essa apresentação não é mais do que uma ponte, pois, como disse Italo Calvino (1923-1985), nada supera a leitura da obra.

NEIDE HISSAE NAGAE É PÓS-DOUTORADA EM LITERATURA JAPONESA PELA KANAGAWA UNIVERSITY (JAPÃO) E PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS - ÁREA DE JAPONÊS - DA UNESP (ASSIS-SP)

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