"O Beijo da Mulher Aranha" ganha versão brasileira

Ao subir o último degrau de acesso ao terceiro andar do Teatro Ópera em São Paulo, dá para sentir nos ombros o peso da tensão. Na sala de ensaios, nos últimos três dias, 480 atores e bailarinos estiveram em concentração, passando por esforços físicos e rigorosos testes. Com as provas de interpretação, dança e canto, o diretor Wolf Maia cumpriu a árdua tarefa, segundo ele, de escolher apenas 15 pessoas dos 480 que se apresentaram. O rigor tem motivo, os dez bailarinos e cinco atores selecionados vão subir ao palco com Claudia Raia, Miguel Falabella e Tuca Andrada. É a montagem brasileira do Musical da Broadway O Beijo da Mulher Aranha, com estréia prevista para a primeira semana de outubro, no teatro Jardel Filho. A experiência do diretor em musicais não diminui a tensão. Dirigir um espetáculo de 1 milhão de dólares é algo inédito até para o diretor dos musicais Blue Jeans, Splish splash e A Loja de Horrores. "Este é um dos musicais mais operosos já feitos pela Broadway e a gente vai reproduzir na íntegra o formato e toda a estrutura cenográfica da versão americana" conta Wolf Maia. Só para lembrar, a versão americana foi vencedora de sete prêmios Tomy, uma espécie de Oscar do teatro americano. Nos ensaios todos são como novatos. É difícil esconder a insegurança diante de um texto como este de Manuel Puig. O autor argentino o escreveu em 1976, enquanto os governos ditatoriais dominavam quase toda América Latina e alguns cantos da Europa. Nesta situação política, o revolucionário Valentim, interpretado por Tuca Andrada, é preso na mesma cela de Molina (Miguel Falabella), um homossexual acusado de assédio de crianças. Dos sonhos de Molina surge a personagem de Cláudia Raia. Ela interpreta Aurora, a estrela de cinema favorita de Molina que em um de seus filmes, encarna a Mulher Aranha. "Estes três personagens, o revolucionário marxista, a bicha apaixonada por cinema e a estrela de Hollywood, são arquétipos que todos nos já vimos, eu acho que é por isso que toca tanto as pessoas", analisa Tuca Andrada. Obrigados a conviver juntos, Molina e Valentim têm a dificílima missão de aprender a respeitar suas diferenças e repensar suas posições ideológicas. Este conflito está no cotidiano de qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, mas para os brasileiros a história de O Beijo da Mulher Aranha tem gosto especial. Em 1985, o argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco, dirigiu sua versão para o cinema. O filme foi rodado no Brasil com o ator americano Willian Hurt, o "latino" Raul Julia e projetou Sônia Braga, no papel de Aurora, ao patamar de "estrela de Hollywood". O grande sucesso do filme rendeu também um Oscar a Willian Hurt. A estrela de cinema volta agora pelo corpo e voz de Cláudia, que não teme comparações. "A estrutura do musical é muito diferente do filme, eu preferi não rever o filme para não me atrapalhar na composição do personagem", diz a atriz. Segundo Cláudia Raia, a maior dificuldade do musical está na mostruosa produção que o espetáculo da Broadway exige. Miguel Falabella e Tuca Andrada também concordam que a composição dos personagens é bem mais fácil se comparada a todos os aparatos técnicos que envolvem o espetáculo. "A peça é um grande entretenimento, tem um corpo imenso de bailarinos, um cenário que muda inteiro por computador, tudo aquilo que a nossa classe média vai ver nos Estados Unidos e volta deslumbrada, achando o máximo", diz Miguel Falabella, com seu humor de "Caco Antibes". No Brasil o único teatro com capacidade de receber O Beijo da Mulher Aranha é o Jardel Filho, que está sendo totalmente reformado para a estréia, em outubro. Este é o maior motivo para a peça não ser apresentada em outras cidades brasileiras. "Muitos outros teatros foram visitados para receber a peça, mas os americanos não aprovaram nenhum deles", confirma Cláudia Raia. O argentino Victor Haim faz a direção técnica da montagem e coordena as reformas no Jardel Filho. São quase 100 operários trabalhando para aumentar o espaço de manobra do cenários em seis metros de altura. As estruturas terão que ser reforçadas. Uma tonelada de equipamentos será instalada sob o palco para fazer as mudanças computadorizadass do cenário. Para reproduzir a iluminação, criada por Howel Binkley, serão importados 300 spots e 700 mudanças de luz. Nas coxias, 19 técnicos devem auxiliar o elenco nas trocas dos 120 figurinos.Mesmo diante de tantos números, não vai faltar espaço para criatividade. As roupas estão sendo desenhadas pelo designer Patrício Bisso, seu talendo multimídia já pode ser visto no filme de Hector Babenco quando ele compôs o figurino. Por trás da fortuna de 1 milhão de dólares está a empresa mexicana CIE. No Brasil há pouco mais de um ano, ela já produziu os shows de Jamiroquai, Alanis Morrissete, concerto dos 3 tenores além dos musicais Rent, Crazy Horse e Aí vem o Dilúvio.

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