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O bebê anárquico

'De quem é essa fraldinha?' e a menina disse 'da Dadá'. E assim ela deixou de ser Maria Luísa

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 02h00

Maria, ao longo da vida, imaginou muitos nomes para seus filhos. Aos 15, gostava de Sara e Marco Antônio. Aos 21, mudou para Iolanda e Eduardo. Aos 25, passou um período sem dar muita bola para o tema. Aos 27, adorava Joana e Santiago. Luís Filipe, aos 34, indagado acerca do tema pensou um pouco e disse gostar de Diana. Nada mais.

Conheceram-se, sorriram e perceberam ser o presente e futuro um do outro. Cumpriram todos os protocolos, incluindo vestido, seguro residencial e jogo americano. Alguns anos depois, foi anunciado o esperado bebê. 

Pensaram muito acerca do nome, inclusive enquanto não sabiam se se tratava de uma menina ou de um menino. Sara, Marco Antônio, Iolanda, Eduardo, Joana, Santiago e Diana já haviam sido descartados. Coisas de momento. Cometeram aqueles tradicionais equívocos inofensivos como consultar livros com anjos na capa e significados de nomes. Também cometeram os tradicionais equívocos (nada) inofensivos como perguntar a valiosa opinião dos familiares.

Passaram por diversas fases. Cogitaram Adamastor, Albertina, Juvenal e Genoveva em noites de algum vinho. Aventaram Ana, João, Francisca e José em dias claros de passeio no parque. Penderam, em outras ocasiões, para os compostos Maria Fernanda, Paulo Henrique, Ana Teresa e João Gabriel.

No quarto mês, descobriram que era uma menina, o que reduziu consideravelmente a gama de hipóteses. Ele falou Margarida. Ela falou Beatriz. Ele falou Helena. Ela falou Isabel. Ele falou Mariana. Ela falou Lorena. Ele falou “minha avó chamava Esmeralda”. Ela respondeu “minha avó chamava Eunice”. Acharam melhor ir dormir.

Parecia que nunca chegariam a um acordo. Até que, enfim, surgiu a genial ideia óbvia. Maria Luísa. Ele era Luís, ela era Maria. Como não haviam pensado nisso antes? Houve uma polêmica rápida entre Luisa, Luísa e Luiza, mas a mãe percebeu logo que era um pleito sem sentido.

A tia-avó dela bordou um quadrinho para a porta da maternidade. Maria Luísa estava escrito em amarelo e ao lado do nome apareciam galinhas coloridas e algumas flores iluminadas pelo sol. A moldura fina era de madeira clara.

O bebê nasceu no início da primavera e foi registrado com prazer e uma penca de sobrenomes. Tinha cara de joelho para todos, exceto para os pais e para os avós, que já enxergavam devaneios como olhos expressivos, nariz arrebitado e um sorriso enigmático.

Cresceu, ganhou dentes, uma barriguinha protuberante e um ar muito simpático. Com um ano já balbuciava meia dúzia de palavras, com um ano e meio já se manifestava de forma mais clara e satisfatória do que cerca de 32% da população adulta mundial. Mulheres são sempre mulheres. 

Um belo dia, a mãe brincava com a menina e perguntou “de quem é essa fraldinha?” e a menina respondeu “da Dadá”. A mãe riu e perguntou quem era Dadá. A menina apontou para o próprio peito. A mãe não ligou muito, “coisas de bebê”, pensou. Outro dia, o pai perguntou “quem quer tomar leite?!” e a menina levantou os bracinhos sorrindo e disse “a Dadá!!!”. E assim as coisas seguiram. Tudo era “da Dadá” ou “para a Dadá”. Era a Dadá quem queria banana e carne moída. A Maria Luísa definitivamente não tinha vez.

Não demorou para que os avós e os tios passassem a chamar a menina exclusivamente de Dadá. Os pais resistiram um pouco mais, mas quando diziam “Maria Luísa, abra o bocão” na hora de dar a sopa, nada acontecia. Trocavam para “Dadá, abra o bocão” e, subitamente, via-se até a goela da criança. Era a Dadá, vencedora mais uma vez.

Os anos se passaram e, nos documentos, o nome da moça segue sendo Maria Luísa Viana Mendes Barcelos Duarte. Mas apenas e tão somente nos documentos. Tornou-se uma arquiteta famosa, Dadá Barcelos. Os pais se deram por vencidos. Ela nasceu para ser Dadá, apenas eles não sabiam.

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