O bandido e a bailarina, duplo genial

RIO

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Você se lembra de Rock Hudson, galã que formou dupla com Doris Day numa série de comédias por volta de 1960. Hudson estrelou o ciclo de melodramas de Douglas Sirk, foi mocinho de faroestes e encarnou a firmeza ética em Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens. Há um documentário aqui no Festival do Rio - Rock Hudson, Belo e Enigmático, de Andrew Davies e Andre Schafer, da Alemanha -, que tenta decifrar o enigma, mostrando a ginástica que o astro e os executivos dos estúdios faziam para esconder sua homossexualidade.

O bom de um festival com mais de 300 títulos é que você consegue sempre garimpar novidades. Mas o foco, na maioria das vezes, está naqueles filmes que já geraram uma expectativa prévia. Desde sexta passada, Luz nas Trevas vinha tendo sessões lotadas. O longa que Helena Ignez fez - em parceria com Ícaro Martins -, a partir do roteiro que seu companheiro, na arte e na vida, Rogerio Sganzerla, não teve tempo de filmar, é deslumbrante. O próprio Sganzerla não teria feito melhor. Helena acumula com a direção o crédito de roteiro "adaptado".

Havia gente pelo ladrão para assistir à última das quatro sessões de Luz nas Trevas no domingo à noite, no Shopping da Gávea. Era um público de cinéfilos (e tietes). Foi contemplado com um duplo formado por filmes nada convencionais. Antes de Luz nas Trevas, passou o curta A Verdadeira História da Bailarina Vermelha, de Alessandra Colasanti e Samir Abujamra. É maravilhoso. Documentário ficcional - falso documentário? -, conta a história de bailarina que fugiu de quadro de Edgar Degas e virou ícone pop, além de farol cultural, na internet (no YouTube).

O filme busca decifrar o mistério do desaparecimento da personagem. É um curta conceitual - e ousado, do ponto de vista da linguagem -, como os grandes clássicos que marcaram o formato no cinema brasileiro, entre eles, Di, de Glauber, e Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Entre os títulos recentes, dialoga com Satori Uso, de Rodrigo Grota. Woody Allen, de Zelig, foi uma referência, com certeza. Devidamente preparado pela Bailarina, o público adentrou no universo do lendário Bandido de Sganzerla. O filme de Helena Ignez e Ícaro Martins dialoga com o cult udigrudi de 1968. Várias imagens do filme antigo são integradas à montagem.

O "Bandido", Luz, interpretado por Ney Matogrosso, começa o filme na cadeia. Ele vai se converter e, ao ser solto, virará crente, proclamando a palavra do Senhor nas ruas. Seu filho segue a trilha do pai e é rejeitado por ele. O garoto barbariza e vai preso, também. Num levante na cadeia, readquire a liberdade com outros foragidos. Você se lembra da frase-chave do filme de Sganzerla - "Quem tem sapato, não vai sobrar." O Luz rebela-se agora contra o uso de sua imagem - "Lendário, uma ova." Ney Matogrosso tem carisma - e canta no final Sangue Latino, numa participação antológica, recebida com aplausos pela plateia. Mas a alma do filme é o garoto André Guerreiro, que faz seu filho, Jorge Bronze. Ele é talentoso e tem cenas ótimas com a sexy e igualmente talentosa Djin Sganzerla, filha de Helena e Sganzerla. / L.C.M.

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