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O Bananão de Lima Barreto

A imaginária República das Bruzundangas é abertamente inspirada em Pindorama

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2017 | 02h00

Um país de terceira ordem. Habitado e governado por gente medíocre e incapaz, além de vocacionalmente corrupta. E que assim é não por deficiências autóctones ou herança genética, mas, acima de tudo, por sua secular convivência com o tormento de cavar dinheiro, por meio de empregos e favores governamentais. Um país onde não faltam riquezas naturais, mas que vive na miséria, com latifúndios abandonados e indivisivos e a população rural oprimida por chefões políticos, inúteis e incapazes, pois sua economia é toda artificial e falsa nas suas bases, beneficiando apenas uma oligarquia de vivaldinos, todos com pelo menos 30 parentes ocupando cargos de Estado.

Tem mais: o ensino é uma desgraça. As pessoas saem dos cursos mais ignorantes e presunçosas do que quando lá entraram. 

Se você pensou no Brasil errou por pouco. Ou muito pouco. Ou só de nome, corrigiria o autor das observações acima, feitas a propósito de outra república: a tropical República das Bruzundangas, país imaginário, como a Cocanha, Lilliput, Shangri-lá, Freedonia e Oceania, mas abertamente inspirado em Pindorama. 

Mais deprime que espanta constatar como o Brasil não ficou menos parecido com a terra das Bruzundangas nos cem anos que nos separam de sua invenção por Lima Barreto, o merecido homenageado da próxima Flip.

Variação do espanhol “burundanga”, bruzundanga tanto significa algaravia, palavreado confuso, como mistura de coisas imprestáveis, ninharia. Muitos preferem o Bananão inventado por Ivan Lessa, mas em qualquer das acepções de bruzundanga a terra do mulato inzoneiro encaixa-se à perfeição. 

Em três romances (Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá e Triste Fim de Policarpo Quaresma) Barreto retratou nossa Primeira República com ar grave e rancor; mas até porque preconizava “a troça e simplesmente troça, para que tudo caia no ridículo”, faltava em sua obra a sátira ou a paródia da história oficial, das louvações ufanistas de nossas grandezas e das ilusões de modernidade trazidas pela proclamação da República e a abolição da escravatura. Os Bruzundangas é uma variante irreverente de Policarpo Quaresma, as Cartas Persas de Lima Barreto, o Montesquieu de Todos os Santos.

 

Ressentido com a elite intelectual do seu tempo, que por duas vezes bloqueou sua entrada na Academia Brasileira de Letras (antes da terceira tentativa, o postulante desistiu), mas não só por isso, evidentemente, sintetizou-lhe a apatia mental, a falta de originalidade, a sede de glória, o complexo europeizante, o culto às aparências e a vocação para o compadrio na figura dos “samoiedas”, caricaturas dos beletristas e poetastros parnasianos que, no início do século passado, faziam ponto na Livraria Garnier e pensavam que o mundo terminava na rua do Ouvidor. 

Eram os sucedâneos letrados dos falsos fidalgos da aristocracia rural da Província do Kaphet, cheios de grana e prosápia. Acreditavam-se “descendentes poéticos” de um príncipe samoiedo, nascido e criado nos confins da Sibéria, e em sua homenagem vestiam peles de urso, renas, martas e raposas árticas no calorão tropical de Pindorama. Todos eles, diga-se, “incapazes de comparação, de crítica e impróprios para a menor reflexão mais detida”, e, com sua mentalidade de “parvenus aperuados”, sempre dispostos a bajular os titulares ou “os apatacados burgueses”, pois se persuadiram que “são feitos de outra substância diferente daquela que forma as cozinheiras e os pequeno-burgueses”. 

Não é difícil reconhecer quem é quem nessa alegoria: de Coelho Neto a Rui Barbosa, passando por Venceslau Brás, Lauro Muller e Barão do Rio Branco, e outros tantos fascinados por condecorações, comendas, sobrenomes pomposos e títulos de nobreza comprados a peso de ouro. Quem se aventura a atualizar esse elenco?

Há exato um século, Barreto negociava ou acabara de negociar a venda dos originais de Os Bruzundangas com o editor Jacinto Ribeiro dos Santos. Passara os primeiros cinco meses de 1917 desovando-a em capítulos no semanário ABC, só interrompendo seu curso para desancar, no mesmo espaço, o “cínico, ignorante, autoritário e babosão” usineiro pernambucano José Bezerra, alçado a ministro da Agricultura pelo presidente Venceslau Brás.

A implacável troça só ganhou a forma de livro, com 191 páginas, pouco depois da morte de Barreto, no final de 1922. Reeditada 34 anos mais tarde, pela Brasiliense, ganhou em outra, com o selo da Artium, já na virada para este século, um episódio até então inédito, envolvendo um “falso D. Henrique V”. Existe ainda uma edição de bolso da L&PM. Agora é a Carambaia que a relança.

Compará-lo a Jonathan Swift seria, como diria um samoieda, “de trop”. Faltaram a Barreto fôlego, tempo de vida e saúde para conferir a seu relato a mesma amplitude e densidade das Viagens de Gulliver, às quais, por sinal, o visitante e descritor dos costumes e mazelas de Bruzundanga se refere no oitavo capítulo. 

Faltou-lhe ainda disposição ou disponibilidade para reescrever alguns trechos, com humor mais aguçado, jogar fora outros, por redundantes e mal resolvidos, e queimar mais as pestanas à cata de nomes de melhor impacto cômico do que Felixhimino Bem Karpatoso (um deputado), Idlé Bhrás de Grafofone e Cinema (o presidente bruzundanga) e Tuque-Tuque Fit-Fu (o tal príncipe siberiano).

De todo modo, é bem swiftiana a “modesta proposição” que o alter go de Barreto faz para melhorar a qualidade do ensino na imaginária republiqueta: abolir a exigência de diploma (e não apenas para jornalistas), extinguir as faculdades e colégios existentes e limitar o currículo às matérias atinentes à profissão escolhida por cada um, evitando-se as disciplinas que julgasse inúteis. 

Que clarividente ministro da Educação bruzundanguenses e brasileiros perderam. 

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