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O Bakunin do traço

Henfil, que na próxima terça-feira faria 75 anos, não conheceu a internet. Pena. Teria feito do YouTube o seu Pasquim eletrônico

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2019 | 02h00

Na próxima terça-feira, Henfil faria 75 anos. Não é data redonda, mas são muitos anos para um sujeito que morreu mal passado dos 40, com menos idade até do que outra precoce perda para o humor brasileiro, o também insubstituível Sérgio Porto. Já me perguntei mais de uma vez o que Henfil e Sérgio (e seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta) estariam fazendo se ainda estivessem entre nós e na ativa. Hoje repito a pergunta, pensando apenas no Henrique de Souza Filho, que nos deixou em janeiro de 1988. 

Que tratamento seus quadrinhos, cartuns e charges teriam dado a fatos ocorridos após sua morte? Como teria se comportado na primeira eleição direta para presidente, ele que foi o autor do slogan “Diretas Já!”? Quantas vezes e de que forma teria escrachado Collor, Berlusconi, os governos do Bush Pai e do Bush Filho, as patetices do ministério Bolsonaro? Que reação lhe teriam provocado a queda do Muro de Berlim, a histeria em torno do “bug do milênio”, o atentado às torres gêmeas, a invasão do Iraque, as ascensões de Obama e Lula, o 7 x 1 e o “padrão Fifa”, as tragédias de Mariana e Brumadinho? 

Só em 1988, ele perdeu a promulgação da “Constituição Cidadã”, o assassinato de Chico Mendes e a tragédia do Bateau Mouche. E o pior ou o mais propício a gozações (Trump, Mensalão, as duplas breganejas, a montante evangélica, a rapinagem cabralina, Temer, os bolsominions, etc.) ainda estava por vir – pratos feitos para o seu humor matreiro, anarquista (era o Bakunin do traço), grotesco e, ocasionalmente, escatológico. Além de politicamente incorreto, como, aliás, era o de todos os humoristas das gerações passadas.

Henfil, diga-se, foi o primeiro a usar a palavra “bicha” no Pasquim, numa tira dos Fradinhos, atrevida sacada logo incorporada ao léxico do jornal. Foi libertário, não preconceituoso. “Putisgrila!”, “Tutameia” (que em Guimarães Rosa tem outro significado) e a interjeição gestual “Tóp! Tóp! Tóp!” também foram invenções surgidas e consagradas nas rusgas dos Fradinhos, sempre proferidas ou gesticuladas pelo abusado Baixinho, inegável alter ego do autor. 

Por não me sentir capaz de imaginar que personagens novos ele teria inventado nos últimos 30 anos, retrinjo-me a especular sobre o destino dos que lhe deram mais fama. 

Os Fradinhos ele chegou a matar e ressuscitar, como Conan Doyle fez com Sherlock Holmes, mas desconfio que já lhes teria dado o merecido descanso. Ao Cabôco Mamadô nunca faltaram mortos-vivos para enterrar, metaforicamente, em seu cemitério de vilões vip, por certo à míngua de covas disponíveis nos dias correntes. A Graúna? Não o deixariam tirá-la de cena. Ubaldo poderia ser perfeitamente atualizado às paranoias atuais. Já O Preto que Ri ou mudaria seu nome para O Pobre de Direita ou, ajustado ao politicamente correto, para O Afrodescendente que Ri. 

A Turma da Caatinga – para muitos, sua mais inspirada criação – jamais perdeu a atualidade. Seus quadrinhos poderiam ser republicados hoje sem danos ao sentido e à substância, o que diz tanto da acuidade de Henfil quanto da perenidade de nossas mazelas. 

Num árido cenário de Glauber Rocha – solo crestado pelo sol inclemente, vez por outra adornado por um cacto solitário e uma pequena ossada – Henfil montou um cordel gráfico astuciosamente subversivo sobre o Brasil e suas misérias: a indústria da seca, a desigualdade social, o mandonismo latifundiário, o falso milagre econômico patrocinado pela ditadura militar, a censura, a opressão masculina, o crescimento parasitário do “Sul Maravilha” (a maneira desdenhosa como ele se referia aos Estados do Sul e Sudeste), e o que mais se prestasse à sátira, à paródia e à alegoria.

Apenas quatro personagens tinha a turma da caatinga: o cangaceiro bonachão, pinguço e machista Zeferino Ribamar das Mercês; um bode metido a intelectual com nome de aventureiro espanhol, Francisco de Orelana; um pássaro, a Graúna; e uma onça anarquista chamada Glorinha. 

Abre-alas da série, inicialmente publicada no Caderno B do Jornal do Brasil, Zeferino foi inventado para ser o mascote da cobertura da Copa do Mundo de 1970 pela revista Placar. Henfil inspirou-se na figura coronelesca do pai, Henrique de Souza, que chegou a prefeito nomeado de Bocaiuva, no Norte de Minas, durante o Estado Novo. 

Com um chapéu-coco entre os chifres, Bode Orelana, fisicamente modelado no cantador baiano Elomar, era uma caricatura do intelectual de gabinete, categoria que Henfil volta e meia ironizava em seus desenhos. 

A Graúna, prodígio de design minimalista, pouco mais do que um ponto de exclamação, tomou conta do pedaço. Zeferino a oprimia, abusava de seu masoquismo, para desgosto de Orelana, que em vão tentava despertar a consciência da companheira. Oscilando entre a submissão e a rebeldia, a passividade e o ativismo, nenhum outro personagem de Henfil superou-a em esperteza, empatia e popularidade. Embora analfabeta, a Graúna conhecia coisas que o presunçoso bode acreditava só ele saber. O que significa e como usar com propriedade a palavra “metáfora”, por exemplo. 

Henfil não conheceu a internet. Pena. Teria se revelado um azougue no Twitter e no Facebook. As mídias sociais seriam o seu território de combate preferido e do YouTube teria feito o seu canal privado, o seu Pasquim eletrônico.

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