O bailado que une teatro e arquitetura

O bailado que une teatro e arquitetura

Encenação da peça de 1933 de Flávio de Carvalho em sua Fazenda Capuava vai se transformar em obra viva

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2010 | 00h00

Foram meses de negociações e pesquisas até que, anteontem, fosse batido o martelo na Bienal de São Paulo para que a encenação da peça Bailado do Deus Morto, de Flávio de Carvalho, integrasse o evento. E de uma maneira que o próprio diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa tinha vontade, há tempos: "experienciar" o espetáculo em um dos emblemas da arquitetura de Carvalho, sua Fazenda Capuava, em Valinhos, região de Campinas, construída em 1938. "É uma peça fundamental, contemporânea e desse modo mistura arquitetura e dramaturgia. Não vai ser documentação, vai ser obra", diz Agnaldo Farias, curador-geral da 29ª Bienal de São Paulo, ao lado de Moacir dos Anjos.

Foi em 2003 que o artista plástico e produtor Fábio Delduque, realizador, há nove anos, do Festival de Arte Serrinha, em Bragança Paulista (SP), teve contato, por intermédio de Zé Celso, com textos de Flávio de Carvalho ? o artista deixou vasta obra teórica também. "Tenho um interesse multidisciplinar pela arte e com Flávio foi uma identificação", diz Delduque, que, aos 40 anos, além de pintor, já fez projetos de arquitetura cenográfica para shows, decoração e filmes (seu último projeto nesse ramo é a direção de arte de Luz nas Trevas, continuação de Helena Ignez e Ícaro Martins do clássico O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla).

Em 2003 mesmo, o artista foi a Valinhos visitar a Fazenda Capuava. Em 2004, ao convidar Zé Celso a ministrar uma oficina de teatro no Festival Serrinha, o diretor optou por fazer uma encenação, na fazenda de Delduque, em Bragança, de Bailado do Deus Morto. Já naquela ocasião, Zé Celso falou do desejo de fazer um dia o espetáculo na Capuava, tombada, em 1982, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Labirinto. Como anunciou o Estado em janeiro, este seria um ano de olhos voltados para Flávio de Carvalho. Além de figura central e homenageado da 29ª Bienal de São Paulo ? a ser realizada entre 21 de setembro e 12 de dezembro ?, o artista tem logo mais, a partir de 15 de abril, retrospectiva dedicada a ele no Museu de Arte Moderna de São Paulo, sem contar o lançamento de um livro (previsão para o segundo semestre), pela Cosac Naify, de coletânea de seus escritos sobre moda. Com este novo projeto em torno do artista para a Bienal, abre-se mais uma janela para sua obra.

A sugestão de Delduque ao evento de arte, a encenação do Bailado, foi acoplada à mostra. "Musical meio agressivo", como define o artista, será montado nos espaços interior e exterior da casa-sede da Fazenda Capuava e na piscina. O espetáculo, com direção de Zé Celso, vai ser filmado por 8 a 10 câmeras para ser projetado com diversos pontos de vista, desde planos gerais a detalhes, em uma instalação labiríntica, com corredor de 2 metros de largura e intitulada Origem Animal de Deus, na Bienal, no Ibirapuera. A direção cinematográfica da peça será de Delduque e Fernando Frahia; os figurinos, de Sônia Ushiyama; e coreografia de Lu Brites. Na Bienal, ainda, a peça será apresentada em performances.

A ideia é realizar a encenação entre julho e agosto, com 40 atores do Teatro Oficina e convidados, na Capuava. Pensa-se, ainda, abrir a possibilidade de o espetáculo ser assistido ao vivo, em Valinhos, pelo público. "Mas está ainda em discussão", como diz Delduque. A recriação do Bailado do Deus Morto tem orçamento em torno de R$ 400 mil. "Tenho equipe de produtores e tentaremos ir atrás dos recursos por meio de Lei de Incentivo e a Bienal vai nos ajudar nesse processo", afirma o artista.

Terapia. Desde 1973, com a morte de Flávio de Carvalho, a Fazenda Capuava foi herdada pela família do artista, que mora nela. A prima de Flávio, Heloisa de Carvalho Crissiuma, que morreu em 2006, instaurou no local a Acesa Capuava (Associação Cultural Educacional Social e Assistencial Capuava). "É uma entidade que atende pessoas com necessidades especiais com realização de atendimentos clínicos, equoterapia (com cavalos), fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, musicoterapia, hidroterapia e terapia ocupacional. Temos também uma escola para jovens e adultos", diz Mariana Soares Senatore, mulher de Ricardo de Carvalho Crissiuma, filho de Heloisa. "Achamos muito interessante o projeto porque o Fábio Delduque se mostrou interessado em nos apoiar na recuperação da casa e na continuação do trabalho já desenvolvido na fazenda", continua Mariana. "A fazenda está em boas condições mesmo porque moramos nela e a casa do Flávio está sendo mantida dentro das possibilidades da Acesa. Temos desde 2003 a autorização para recuperação, mas infelizmente não temos recursos para eventuais reformas."

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