O BAIÃO DA RETOMADA

Tiago Araripe, ídolo cult, volta 30 anos após seu primeiro lançamento

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h12

O conhecido mais underground de Zeca Baleiro é o diabo. Este, no entanto, não ganha de Tiago Araripe, músico cearense que em 1982 lançou Cabelos de Sansão, uma pérola da vanguarda pós tropicalista. Parceiro de Tom Zé, integrante do seminal coletivo Lira Paulistana, ídolo de Baleiro, Araripe, 61, sumiu do mapa nos anos 80 em busca de meios estáveis para sustentar a sua família. Volta agora, 30 anos depois, com Baião de Nós, disco lançado pela Candeeiro Records e coproduzido por Baleiro.

"Há um tempo, ele entrou em contato comigo através de amigos. Ele é ligado nas letras, na poética de Cabelos de Sansão. Gosta da minha voz, do jeito de cantar, do apuro nos arranjos", conta Araripe, que em 2008 relançou seu primeiro disco com a ajuda de Baleiro. O encontro rendeu algumas canções feitas em parceria, e todo o apreço pela obra fez com que Araripe, confinado a uma vida de produtor de jingles, retomasse a carreira. Baião de Nós é um esforço modesto. Os arranjos de Baleiro são enxutos, e pouco há da ambição estética de Cabelos de Sansão, uma "epopeia", nas palavras do músico. "Certamente não tínhamos como recriar algo tão grandioso. 33 músico participaram daquele disco. Cada faixa tem uma formação diferente - quarteto de cordas com tablas e viola, quarteto de flautas, rock eletrônico. Foram mais de 300 horas de estúdio", lembra.

Para gravar seu disco, Araripe conseguiu uma lei de incentivo do governo pernambucano. Juntou também um patrocínio da agência de publicidade da qual é diretor criativo, e chamou músicos como Juliano Holanda, da Orquestra Contemporânea de Olinda, e outros integrantes da banda de Zeca Baleiro. "Hoje em dia, a coisa é limitada. Mesmo com patrocínio, temos que racionar para conseguir lançar", conta. É um digno "comeback", como eles dizem, para Araripe, que tem shows marcados em Recife, em Cariri (interior do Ceará), e planeja trazê-lo para São Paulo nos próximos meses.

Se engrenar, será um respeitável reviravolta na carreira de um músico que foi de ás do underground paulistano a ídolo esquecido. Tiago veio para São Paulo em 1974, almejando estudar em uma escola de música fundada por Tom Zé. Quando chegou, a escola já havia fechado, mas Tom Zé o chamou para conversar em sua casa. "Ficamos a tarde toda tocando violão. Nos demos muito bem", lembra.

Firmou parceria com Tom Zé, tornou-se parte de seu grupo e lançou um compacto com Conto de Fraldas e Seu Coração Bate, o Meu Apanha, um tango composto em parceria com Décio Pignatari. Formou um grupo próprio, Papa Poluição, um dos percussores da fusão de rock com ritmos nordestinos. Fez trilha para Sargento Getúlio, filme estrelado por Lima Duarte, e teve o marco mais alto de sua carreira com Cabelos de Sansão, gravado no início dos anos 80, quando Itamar Assumpção apresentou o Tiago a Wilson Souto Jr., o Gordo, fundador do teatro.

A coragem vanguardista por trás da produção do disco é tão trágica quanto admirável: "O Lira era também um selo. O pessoal tinha uma coisa idealista, mas ao mesmo tempo batalhava ferozmente para manter aquilo", conta. Para dar continuidade ao selo, o Gordo foi trabalhar como diretor artístico da Continental, e levou o catálogo do Lira para a gravadora. "Todos achávamos que, em fim, estávamos salvos. Mas a Continental não compreendia a causa. O Lira era algo extremamente novo para a cabeça do pessoal". Tiago tinha duas filhas para criar e foi trabalhar com jingles. Mas, ouvindo uma de suas composições comerciais disponíveis no Soundcloud (soundcloud/tiago-araripe), percebe-se uma compreensão profunda de coco e baião, da canção nordestina. Revela-se então a alma de artista confinada ao trabalho publicitário.

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