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O avô da MPB

Em seus esforços para a sistematização dos estudos musicológicos no Brasil, pesquisadores de todas as filiações teóricas parecem negligenciar um forte elemento identitário, um fator que perpassa todas as manifestações melódicas nacionais sem distinção: o avô. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 03h00

Muniz Sodré citou o negro, José Ramos Tinhorão falou em transculturação, Sérgio Cabral mencionou Isaurinha Garcia, mas o avô, coitado, continua esquecido. É hora de reparar essa injustiça. Nesta crônica, falaremos sobre o pai do pai no cancioneiro nacional, conforme seus grandes intérpretes.

Qualquer canção permite a substituição de “amor” por “avô”. Vejam: “Cantarei sozinho imerso em minha dor/ A valsa de quem não tem avô” (João Gilberto) Ou: “Ah! se ela soubesse que quando ela passa/ O mundo sorrindo se enche de graça / E fica mais lindo por causa do avô.” (Tom Jobim)

Na verdade, com a adoção do método-avô, as canções adquirem novos significados e se abrem para a intertextualidade. As letras, às vezes superficiais, assumem maior complexidade semântica e podem refletir sobre a efemeridade da vida:

“Avô igual ao teu eu nunca mais terei/ Avô que eu nunca vi igual/ Que eu nunca mais verei/ Avô que não se perde/ Avô que não se mede/ Que não se repete.” (Cidade Negra) Ou: “Eu quero cantar o avô/ Antes que o avô acabe.” (Chico Buarque)

Em inúmeros casos, comprova-se a jocosidade do compositor, que anteviu a interpretação avoenga e se apropriou desta. Mesmo os músicos mais consagrados podem ceder à galhofa, fazendo uma deselegante menção à falta de condicionamento físico do pobre senhor: “Chego a mudar de calçada/ Quando aparece uma flor/ Dou risada do grande avô.” (Chico Buarque)

Ou: “Só não poderá falar assim do meu avô/ Este é o maior que você pode encontrar.” (João Gilberto)

Os exemplos são infinitos e o leitor poderá tirar a prova por si mesmo, bastando apenas um rádio de pilhas e algum pendor investigativo. 

No processo, pode inclusive se deparar com evidências criminais, como nos versos: “Permita que o avô/ Invada a sua casa, coração” (Cidade Negra) e “O avô faz a gente enlouquecer/ Faz a gente dizer coisas/ Pra depois se arrepender” (Grupo Raça). E, no exemplo mais assustador de todos, pertencente ao ramo da pirotecnia: “Tá pegando fogo o nosso avô/ Me leva pra onde você for.” (Só Pra Contrariar)

E que ninguém nos acuse de preconceito de gênero, pois é também possível trocar “a voz” por “avós”. Exemplo: “Não me deixe só/ Que eu tenho medo do escuro/ Eu tenho medo do inseguro/ Dos fantasmas da minha avó.” (Vanessa da Mata)

Este exercício pode alçar as mais diversas canções a uma excelência poética jamais imaginada. Arrisco dizer que, com um pouco de esforço, será possível atingir uma sofisticação semântica quase bíblica; afinal, ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem avô eu nada seria.

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