Leo Azevedo/AE
Leo Azevedo/AE

O avesso do avesso

Não é fácil entrevistar Lázaro Ramos. Ao menos, não nas últimas semanas. A conversa, marcada para acontecer no Rio de Janeiro, acabou transferida para Salvador. O horário inicial do encontro, 15h30, logo passou para 16h30. E, daí, para 17 h, 18 h. Sabe-se que rotina de ator de novela não é lá das mais tranquilas. Mas não são apenas as gravações de Insensato Coração que andam a tomar o tempo desse baiano.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Lázaro, 32 anos, volta ao teatro. E, não bastasse, deixa o palco para assumir o lugar de diretor. Nas coxias do Teatro Castro Alves, um dos endereços dos mais tradicionais da cena soteropolitana, ele conversou com o Estado enquanto fazia os últimos ajustes em Namíbia, Não! - espetáculo que estreia este fim de semana em Salvador.

Escrita pelo conterrâneo Aldri Anunciação, a peça é uma tentativa de reposicionar o olhar para questões já exaustivamente debatidas, como a discriminação racial.

Já na primeira leitura, o argumento fisgou o ator - que praticamente se convidou para dirigir a versão e, há mais ou menos um ano, tenta colocá-la de pé. "O dinheiro do patrocínio saiu quando já estava para começar a gravar. Felizmente, essa é uma novela organizada. O autor entrega o texto antes. Deu para conciliar."

Ele só não contava com o revés na trama de Gilberto Braga. Se o par romântico formado por Paola Oliveira e Eriberto Leão não chegou a empolgar as massas, sua atuação na pele do dândi André Gurgel caiu no gosto popular. Tanto que seu controverso personagem não cessa de crescer e assume, gradativamente, contornos de protagonista.

Enquanto isso, ele segue fazendo malabarismos para dar conta de tudo. Parte da equipe de Namíbia, Não! transferiu-se para o Rio por dois meses para levar os ensaios adiante. "Eles se adaptaram aos meus horários. Trabalhava umas 16 horas por dia", calcula.

Lázaro quase se espicha na poltrona e encorpa a voz para explicar por que se dedica a fazer tanta coisa ao mesmo tempo. "Não quero nunca me sentir um funcionário público. O que me faz não me acomodar agora, não ficar só ganhando o meu salariozinho ali na Globo e vir para cá ralar é sentir que o ator tem uma outra função." Função que, no seu caso, pode resvalar em um livro para crianças, que levou quase sete anos para ser escrita. Ou em uma peça infantil. Obra baseada nas memórias da própria família, enraizadas em uma ilha, de 300 habitantes, no Recôncavo Baiano.

Tirar as discussões sobre racismo do lugar comum e transportá-las a outro patamar não é algo inédito em sua trajetória. No Canal Brasil, ele comanda o programa Espelho. Entrevista, quase sempre, negros. Mas não só. Independentemente de quem seja o interlocutor, costuma debater temas identitários sem o ranço do rancor e com a ambição de incluir outros públicos. "Estamos num canal por assinatura, que só existe nos pacotes mais caros. Quero alcançar essas pessoas também. É algo que diz respeito a todos nós brasileiros, não só a uma parcela", argumenta.

Mas será que não existe uma cobrança maior, justamente sobre artistas negros, para que encampem a causa? A polêmica em torno de seu personagem na novela deixa a pergunta no ar. "Às vezes, cobra-se uma postura única para todas as pessoas diante desse assunto. Mas cada um tem uma história que lhe dá forças e argumentos para lidar com isso de uma maneira. Respeito a individualidade. Isso faz sentido para mim porque não me parece um peso. É algo que me faz mais feliz, que já estava lá no começo, no Bando de Teatro Olodum."

Sinônimo de teatro engajado em Salvador, o grupo ainda é uma referência forte para o ator. "Até hoje ser do Bando Olodum é o que me define. Foi quando entrei lá que entendi o que queria fazer."

À época, com 15 anos, trabalhava como técnico de patologia clínica. Mas já havia se lançado na carreira de ator. "Confesso que fui ator mirim," ele diz, a rir de si mesmo. As primeiras aparições foram na afiliada local do SBT, "sempre que precisavam de alguma criança para conversar com Papai Noel."

Foi em 2000 que deixou a cidade. Instado pelo "amigo e irmão" Wagner Moura, juntou-se ao bando do diretor João Falcão. "Foi Waguinho que fez a cabeça de João. Só ficava falando: "João, chama Lazinho, chama Lazinho"." João chamou.

Antes e depois. Lázaro fez sucesso na encenação de A Máquina. Na sequência, ganhou o papel-título de Madame Satã. Tinha 24 anos. O filme de Karim Aïnouz adquiriu status de divisor de águas. Garantiu-lhe projeção, reconhecimento e lhe ensinou o valor de certa dose de perseverança. Foram cinco baterias de testes até conseguir o papel. E menos de três semanas para se encontrar na pele de João Francisco dos Santos, o lendário artista e malandro carioca. "Fui morar na Lapa, fazer aula de canto, de dança, de boxe. Eu me desesperei, chorei. Disse a Karim que não queria fazer. Ele me ensinou a me jogar no abismo, a estar preparado para o inesperado."

Seguiu emendando um trabalho no outro. Foi ficando no Rio. "Mas tinha minha mala sempre pronta. Ficava me dizendo: "Na hora que não der certo, eu retorno para minha terra." Nunca pensei em me mudar de vez."

Durante anos, morou em hotéis, dividia apartamentos aqui e ali. Só em 2006 resolveu que não voltava mais para Salvador. O que teria lhe dado, finalmente, essa certeza? Algum personagem, o sucesso? "A decisão de constituir família." Casado com a atriz Taís Araújo, à espera do primeiro filho, Lázaro se mostra, de repente, o avesso da ficção. Diferente de todos os seus personagens. Ou, quem sabe, a soma de todos eles.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.