O aventureiro verbal

Desde os anos 1950, poeta e semiólogo realizava experiências com a linguagem poética, incorporando recursos visuais e a fragmentação das palavras

O Estado de S. Paulo,

02 de dezembro de 2012 | 23h57

A preocupação com a palavra sempre moveu o poeta e semiólogo. Desde os anos 1950, realizava experiências com a linguagem poética, incorporando recursos visuais e a fragmentação das palavras. Tais aventuras verbais culminaram no Concretismo, movimento estético que fundou com Augusto e Haroldo de Campos, com quem editou as revistas Noigandres e Invenção e publicou a Teoria da Poesia Concreta (1965).

Movimento vanguardista, o concretismo surgiu em 1953 primeiro na música, depois na poesia até chegar às artes plásticas. Em sua essência, defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, a abstração lírica e aleatória. Basta observar as obras surgidas nesse período - não intimismo tampouco preocupação com o tema proposto, pois o objetivo era acabar com a distinção entre forma e conteúdo e, com isso, criar uma nova linguagem. A partir da década de 1960, outros poetas e músicos do movimento decidiram alargar os horizontes, incluindo temas sociais e criando novas tendências, como o neo-concretismo, o poema práxis.

Como teórico da comunicação, Pignatari deixou importantes obras, como a tradução dos textos de Marshall McLuhan. Entre seus escritos, destaca-se o ensaio Informação, Linguagem e Comunicação, de 1968. Sua obra poética está reunida em Poesia Pois é Poesia (1977). Pignatari publicou traduções de Dante, Goethe e Shakespeare, entre outros, reunidas em Retrato do Amor quando Jovem (1990) e 231 poemas. Publicou também o volume de contos O Rosto da Memória (1988) e o romance Panteros (1992), além da obra para o teatro Céu de Lona.

Nos últimos anos, além de se dedicar à literatura infanto-juvenil - lançou Bili com Limão Verde na Mão (Cosac Naify), em 2010, Pignatari analisava a transformação da literatura por conta da evolução tecnológica.

"O fim da literatura está encaixado em um tópico mais abrangente, que é a crise da arte", disse ele, em entrevista ao Estado em 2010. "Na verdade, o fim propriamente não vai nunca acontecer. O que existe, hoje, é a palavra falada, na forma escrita."

Ele utilizava como exemplo as transformações do verso, que entrou em crise graças ao francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), que trouxe para a poesia o radicalismo estrutural e racional de que ela precisava para se renovar. "Mas, nem por isso o verso se extinguiu - apenas sofreu modificações", comentava Pignatari. "Quando se fala em fim de uma arte, na verdade, o certo é falar sobre sua transformação acelerada, como uma metamorfose apressada pela evolução tecnológica."

É o caso da forma de se narrar uma história, que sofreu abalos profundos com a publicação de Ulysses, de James Joyce, publicada em 1922. "A visão que se tinha do romance entrou em crise", observou o poeta. "Na verdade, já desde Gustave Flaubert e sua Madame Bovary o enredo perdeu sua relevância: afinal, não se trata apenas de um adultério que resulta em um suicídio, mas de uma escrita que se sobrepôs à trama."

As mudanças são inevitáveis. Pignatari lembrava que, com o desenvolvimento dos jornais na passagem do século 19 para o 20, a literatura foi obrigada a se modificar pois a imprensa passou a narrar histórias incríveis. Também a linguagem literária passou por mutações, pois os jornais traziam um texto direto, compactado, que influenciou a narração e a narrativa literárias. "O ato de se contar uma história entrou em crise, pois a escrita se tornou mais importante."

O poeta não se confessava pessimista - apenas realista. Segundo ele, o domínio da palavra escrita sempre vai exigir um tipo de inovação, seja sofrendo influências de outras formas de arte, seja absorvidas por elas. "A pintura mudou com o advento da fotografia", afirmava.

"Afinal, foi vendo fotos em preto e branco que os pintores impressionistas fizeram sua revolução. Eles observaram que a sombra de uma árvore em um gramado tinha apenas um tom cinzento mais escuro que o do gramado. Ou seja, a sombra tinha cor. Isso influenciou uma legião de pintores."

Despedida. Pignatari deixa a mulher, Lilla, e três filhos. O enterro será realizado hoje, ao meio-dia, no Cemitério do Morumbi, na Rua Deputado Laércio Corte, 468, em São Paulo.

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