O autor à sombra do ''apanhador''

Kenneth Slawenski, cuja biografia Salinger - Uma Vida chegou recentemente às livrarias brasileiras, diz que a reclusão do ficcionista se sobrepôs à sua própria obra e permitiu que 'os outros definissem uma imagem dele'

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2011 | 00h00

Ao recuar da fama, J.D. Salinger (1919-2010) se tornou o mais famoso recluso da literatura americana. Mas, com isso, conseguiu ao menos evitar boa parte das vulgaridades que a fama traz e, mais importante, naquele momento já tinha escrito aquilo que sua vocação mais pedia, sobretudo o romance O Apanhador no Campo de Centeio (1951) e os contos de Nove Histórias (1953). Ele ainda publicaria duas duplas de novelas, Franny e Zooey (1961) e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymour: Uma Introdução (1963). Mas a essa altura já estava pronto não para parar de escrever, mas para parar de publicar. Aos 34 anos, como Rimbaud aos 20, praticamente dissera o que veio ao mundo dizer.

"No outono de 1950 Salinger concluiu O Apanhador no Campo de Centeio", diz o biógrafo Kenneth Slawenski em Salinger - Uma Vida. "O feito foi uma catarse." Depois de dez anos escrevendo o manuscrito e o carregando até nas trincheiras da Segunda Guerra, Salinger finalmente configurou o personagem Holden Caufield e sua decepcionante perambulação pelo mundo adulto. O livro fez sucesso no ano seguinte e este sucesso cresceu com o tempo até se tornar um dos livros de cabeceira da geração contracultural. Apenas dois anos depois, Salinger reuniu os contos que escrevera - também com grande repercussão - para a revista The New Yorker. "Ele sempre se considerou um contista, não um romancista", diz Slawenski na entrevista a seguir, feita por e-mail. Quantos autores conseguiram deixar tal marca em tão pouco tempo e tão poucas páginas?

Slawenski mostra que Salinger teve uma formação abastada e convencional, apesar de sua religiosidade peculiar, e que prezava muito o fato de ser publicado por revistas e editoras prestigiosas, a ponto de acompanhar as resenhas críticas de seus textos. Aos poucos, porém, foi se irritando com as demandas da mídia, com as picuinhas dos intelectuais, com sua conversão em algo que não era nem queria ser - chegando ao extremo de Holden ser tido como modelo pelo assassino de John Lennon em 1980. Acima de tudo, Salinger sentiu o abismo entre a mensagem dramática de sua literatura, "povoada por fantasmas", na frase de Slawenski, e a recepção dela como hino romântico ou rebelde. "A maioria dos contos e dos livros de Salinger lida com morte e sofrimento."

O afastamento foi motivado pela reação de um homem com noções tradicionais de "honra e respeito" que de repente se viu diante de um mundo fútil, personalista, marcado pela autopromoção e pelas imposturas; "phony", por sinal, é o adjetivo preferido de Holden em face das hipocrisias dos mais velhos, conformados a vidas vazias. Cada vez mais isolado em sua casa em Cornish, no Estado de New Hampshire, Salinger continuou escrevendo, vendo filmes, encontrando os poucos íntimos, mas sem mais entrevistas ou poses. Considerando a expansão do tema "celebridades" na era virtual, ele fez o que tinha a fazer e, segundo Slawenski, viveu até os 90 "com notável saúde de corpo e mente".

O sr. diz no livro que O Apanhador no Campo de Centeio foi uma espécie de "catarse" para Salinger. As páginas eram tão preciosas que ele as carregava com ele durante a Segunda Guerra. Não acha que depois do livro ele teve a sensação de que já tinha feito o que mais queria?

Salinger precisou de dez anos para escrever Apanhador. Depois de publicá-lo, levou sua literatura para uma direção completamente diferente e, até onde sabemos, jamais escreveu sobre Holden Caufield de novo. Esse foi um movimento de um autor que acredita que possa fazer outro livro da mesma qualidade, mas que reconhece que ele não deve se parecer em nada com o livro que o fez famoso. Quando ele foi publicado, não era o livro mais popular de Salinger, que chegou ao quarto lugar da lista dos mais vendidos do New York Times em 1951. Seu maior sucesso imediato veio anos depois, em 1961, quando Franny & Zoey ficou em primeiro lugar na lista e vendeu mais exemplares em dois meses do que o Apanhador vende normalmente em um ano. Não acho que ele estivesse preocupado em superar Apanhador; estava mais preocupado em sair da sombra dele.

Se o afastamento dele do mundo literário pode ser associado à sensação de que tinha realizado seu talento, qual é o peso real dos outros fatores? O sr. conta que ele pertencia a uma era que tinha "mais respeito e honra". Tornar-se famoso pareceu infame para ele?

"Realizado seu talento" é uma expressão perspicaz. Em meu livro, cito uma frase de Salinger que revela como ele via sua vida e sua obra. Explica muita coisa: "Permaneça em paz unido a Deus e ande cegamente no caminho claro de suas obrigações. Se Deus quiser mais de você, Sua inspiração o fará saber disso". Salinger considerava que sua obrigação era escrever, pois a criatividade era uma inspiração divina. Mas não tinha obrigação de publicar. Ele acreditava que estava criando grande arte com seus textos. Via isso como sua vocação, como algo sagrado. Achava que seu dever era proteger a pureza de sua obra. Publicidade e autopromoção poluíam essa arte. Eram imposturas.

Ter sido convertido numa espécie de "guru da contracultura" foi algo que o aborreceu? Em certo sentido ele tinha um passado e um estilo de vida mais convencionais do que seus admiradores famosos, não?

No começo dos anos 60, as pessoas começaram de fato a ver Salinger como um "guru da contracultura". Ele nunca procurou por essa reputação e acho que ele se irritava ao ser visto de um modo que não era verdadeiro, ou que era apenas parcialmente verdadeiro. Salinger tinha uma religiosidade e crenças alimentares não convencionais e sua opção pela solidão rural em vez da fama certamente era anticonvencional, mas ele teve uma formação muito sólida. Boas maneiras, estilo e posição eram inerentes à sua personalidade. Ele adorava balé e teatro, sempre insistia em usar boas roupas, como paletós, tinha diversos empregados e, embora Holden Caufield odiasse ir para a escola, Salinger foi excelente aluno na academia militar e mandou seu próprio filho para uma das escolas privadas mais prestigiosas da nação.

O sr. também escreve que ele ficou muito chateado quando soube que o assassino de John Lennon tinha um exemplar do livro e se considerava um Holden Caufield. O sr. acha que ele considerava o livro mal interpretado, ainda que não de forma tão radical?

Muitos dos textos de Salinger são deliberadamente ambíguos. Ele acreditava firmemente que O Apanhador no Campo de Centeio, como todos seus textos, deveria ser interpretado por leitores individuais. Não existe interpretação correta ou incorreta. No entanto, Mark David Chapman agiu a partir da leitura do livro de Salinger de uma maneira inconcebível. Usou essa leitura como gatilho para cometer um crime terrível. Chapman era louco. Não importa o que alegasse, seu crime foi resultado dessa loucura, não um efeito da ficção de Salinger.

Muitos críticos consideram Nove Histórias um livro melhor do que Apanhador. Qual é sua opinião? O sr. pode dizer quais as influências sobre seus contos? E o que ele achava de John Cheever?

Adoro Nove Histórias, mas acho injusto comparar uma coletânea de contos com um romance. Se um leitor se encantar por apenas um ou dois dos nove contos, vai esquecer o resto e se lembrar do livro com prazer. Se ele gostar de apenas dois nonos de Apanhador, vai considerar o romance ruim. Salinger sempre se considerou um contista, não um romancista. Na verdade, construiu até mesmo o Apanhador enfileirando uma série de contos. Ring Lardner foi uma grande influência sobre seus contos, assim como Scott Fitzgerald e Sherwood Anderson. Claro, a influência de Ernest Hemingway também é óbvia. Hemingway influenciou praticamente todos os contistas da geração de Salinger, do mesmo modo que Salinger influenciou os contistas desde então. Cheever era um contemporâneo e, em muitos sentidos, um concorrente. Salinger nunca fez comentários sobre ele, que eu saiba, mas sei bem que Cheever se ressentia de Salinger terrivelmente. Salinger tinha uma posição proeminente na revista The New Yorker, uma posição que Cheever ambicionava. Em 1953, Cheever publicou uma coletânea de contos que foi amplamente ignorada quando Salinger lançou Nove Histórias no mesmo ano. Cheever ficou furioso. Ele se sentia desprezado pelo público e ofuscado por Salinger.

Contos como Um Dia Perfeito para Peixe Banana têm um caráter trágico que às vezes surpreende os leitores de Apanhador ou as pessoas que pensam em Salinger como um rebelde romântico. O sr. concorda?

Concordo plenamente. A maioria dos contos e dos livros de Salinger lida com morte e sofrimento. Não há nada romântico ou rebelde em suicídio ou na morte de crianças, ou no trágico efeito da morte sobre os que continuam vivos. De certo modo, muitas histórias de Salinger são povoadas por fantasmas. Ao longo de todo o Apanhador, Holden luta para lidar com a morte de seu irmão, Allie, e Allie é um grande personagem do livro, mesmo sob a terra. Salinger escreveu uma série de histórias sobre a família Glass detalhando o efeito do suicídio de Seymour sobre seus irmãos. Esses são temas muito adultos. Depois da guerra, acho que era compreensível que Salinger escrevesse de forma sombria. Ele mesmo estava lutando para lidar com a morte.

Sair da arena literária e jornalística criou uma "lenda Salinger" e o fez ainda mais famoso. Os aspectos pessoais e literários foram ainda mais confundidos depois disso. Era inevitável?

Sim. Salinger silenciou. O silêncio permitiu que outros definissem uma imagem dele. Podiam dizer qualquer coisa sem prova - e frequentemente o fizeram - sem quase nenhum medo de serem rebatidos ou corrigidos pelo autor. Acho também que é da natureza humana a curiosidade por qualquer pessoa que tenta permanecer invisível. Ficamos nos perguntando se ela está querendo esconder alguma coisa, o que ela está evitando. Quando essa pessoa é famosa, como Salinger, é comum que a curiosidade se torne especulação feroz. Foi o que aconteceu com ele. Ficou mais famoso por ser recluso do que como autor.

O sr. acha que ele teve uma vida pessoal feliz nos últimos anos? Que ele continuou escrevendo, e boas coisas?

Acho que ele estava satisfeito nos últimos anos; não era realmente de sua natureza estar "feliz". Infelizmente, o último ano de sua vida foi estragado por um julgamento doloroso de um caso que Salinger iniciou para defender seus direitos autorais de O Apanhador. Ele também sofreu uma fratura no quadril em 2009, com 90 anos, que o incapacitou durante meses. Mesmo assim, desfrutava o luxo de ficar em casa e da independência na velhice, cercado de pessoas que amava. A maioria de seus últimos anos foi vivida com notável saúde de corpo e mente. No balanço, foi uma vida afortunada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.