'O ator é um CONSTRUTOR'

O diretor italiano Eugenio Barba, fundador do mítico grupo Odin Teatret, esteve em uma passagem relâmpago pela cidade na última quinta (6). A seguir, trechos da entrevista que concedeu com exclusividade ao Estado, após breve e emocionado encontro com alunos da São Paulo Escola de Teatro.

Entrevista com

Guilherme Conte, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Você esteve no Brasil pela primeira vez há quase 25 anos. Quais são suas impressões sobre o teatro brasileiro ao longo de suas visitas?

A sensação é de que há uma grande variedade. Eu diria que há uma riqueza ecológica do ecossistema teatral, constituído por diferentes culturas: teatros comerciais, financiados, coletivos, projetos. E cada nicho tem raízes profundas, sobretudo os grupos.

São Paulo vive um momento em que os grupos lutam por políticas públicas, buscando uma relação mais estreita com a cidade. Qual é o papel do teatro de grupo hoje? Mudou muito desde quando você começou?

As justificativas dos grupos são muito parecidas. A geração dos pioneiros, nos anos 60, corresponde ao velho ideal de Stanislavski, que falava de um conjunto, um ensemble. Pessoas que se escolhem entre si à causa de uma afinidade artística, para quem o teatro é um ambiente que deixe algo na memória e nos sentidos do espectador. Uma espécie de motivação que parece ir além da justificação pessoal. O grupo é a possibilidade de fazer uma política que não é partidária, mas através da cultura, o que é completamente diferente. Muito antes de os partidos políticos existirem, o teatro representou uma maneira de romper preconceitos. O teatro sempre foi uma afronta.

Você já declarou que começou a viajar e a fazer teatro, aos 16 anos, movido por um "espírito de aventura". Mais recentemente, afirmou que "cada espetáculo é um Himalaia". Esse sentimento que o move hoje como criador é parecido com aquele?

É sobretudo uma defesa do focar. O teatro como artesanato é rotina. É como um médico. Depois de alguns anos você sabe que apesar de que cada doente ser diferente, você tem que comportar-se de uma certa maneira. Isso faz com que, com o passar do tempo, essas relações ou laços entre as pessoas de um grupo tendam a deteriorar-se. Como é possível encontrar uma revitalização, uma surpresa, ter a sensação daqueles primeiros dias, a fome de aprender? No olhar dos jovens dessa escola, reconheci a mim quando comecei, o sentimento de que era possível aprender. E com o tempo nos damos conta de que o conhecimento fecha. É um paradoxo (abre um largo sorriso). Passamos muitos anos em esforços, disciplina, sacrifícios e obstinação para aprender, e depois de algum tempo temos que fazer a mesma coisa para desaprender...

Nos anos 70 você questionou "o que é um ator quando não há espetáculo"? Qual é a sua resposta para essa pergunta hoje?

O ator pode fazer parte de uma microssociedade em que o objetivo não é só espetáculo, mas sim um trabalho cultural. A técnica atoral é no fundo construir relações: com o passado, o texto, consigo mesmo, os espectadores, o espaço. Todo esse conhecimento pode ser endereçado ao espetáculo, mas também a outras relações culturais. O ator pode incorporar essa capacidade de saber se liberar de estereótipos mentais e físicos, por intermédio de um novo descobrimento. Isso é o ator hoje quando não está sobre o palco, esse construir de múltiplas relações. A questão não é o como fazer, mas por que fazer.

E por que ser diretor?

Ser diretor é para mim sobretudo criar meu próprio ambiente, uma defesa contra o mundo que me cerca. Defendê-lo segundo minhas ideias e princípios, promover o que desejo para todos, como dignidade e justiça, nessa pequena sociedade que chamo grupo. E isso não significa separar-se. Ao contrário, é viver no centro, no nosso tempo. Este é o primeiro objetivo de um grupo de teatro: ser como corpos estranhos na sociedade, funcionar como modelos de outras agregações.

Você fala com muito carinho da figura do diretor Augusto Boal, que perdemos recentemente. Qual é a falta que ele faz?

Cada um de nós admira pessoas coerentes. Ele foi extremamente coerente, em toda sua vida. E era tão carinhoso, um ser humano iluminado. A mim sempre emocionou encontrá-lo (a voz fica embargada). É um dos grandes, algo como a K8, uma das grandes montanhas do século 20. "Ali está a montanha Boal, aqui a Brecht, lá a Stanislavski..." Isso permite aos jovens construir um caminho que pode passar por todas elas, mas que, afinal, é o seu caminho. E, sobretudo, Boal pôde nos afirmar que existe a possibilidade de romper os esquemas que o mundo tenta a todo momento impor em nossas cabeças.

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