''O ator é a base de minha obra''

Daniel Veronese fala sobre seu método de direção e diz que rejeita tudo aquilo que não é essencial

Entrevista com

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2010 | 00h00

El Desarrollo de la Civilización Venidera. Leitura de Daniel Veronese para casa de Bonecas (1897), de Henrik Ibsen, texto realista do teatro do século 18          O argentino Daniel Veronese começou a sua trajetória profissional como mímico e títere de bonecos e é um dos fundadores do grupo El Periférico de Objetos. Em carreira solo, destacou-se também como dramaturgo e construiu uma sólida reputação como diretor. Em suas encenações, Veronese diz considerar questões como cenário, iluminação e até mesmo o texto como secundárias. "Valorizo, sobretudo, o trabalho do ator."

Espia a Una Mujer Que se Mata é uma nova versão de Tio Vânia (1897), de Chekhov. Como você fez essa adaptação? O que restou do texto original?

Em cada versão vou trabalhando tentando aproximá-la de mim, da minha maneira de entender o teatro e o jogo cênico que se realiza com os meus atores. Não existem fórmulas que eu possa explicar.

Você já fez outras adaptações da obra de Chekhov. Por que o dramaturgo russo?

Chekhov é um autor que continua tão atual que parece que seus personagens nos falam dos dias de hoje. Ele sempre trata de questões primárias de necessidade e orfandade, da busca pela verdade, de algo que nos explique o sentido da vida e de seus sofrimentos.

Um teatro contemporâneo não demanda um drama contemporâneo? É possível fazê-lo a partir de marcos do realismo?

O que é teatro contemporâneo? E quem disse que o realismo não pode ser contemporâneo?

Em Espía a Una Mujer Que se Mata você parece ter buscado um mínimo de recursos e elementos cênicos, centrando-se no desempenho dos atores e no texto. Como isso se dá?

O ator e seu trabalho são a base fundamental de cada uma das minhas obras. Como funciona? Eu tento trazer vida para o cenário, para cada segundo da obra, porque tudo acontece nesse espaço, entre esses atores. Faço sempre com que os atores digam pouco e ajam muito.

Você tem uma trajetória muito profícua, marcada por muitas produções. O que lhe parece essencial na hora de escolher um texto para ser montado?

Nem sempre o texto é o mais importante. Arrisco-me mais com bons atores e com um texto não necessariamente bom do que o contrário. Na hora de que tenho de tomar uma decisão, um ator em que eu possa me apoiar me dá mais segurança do que um texto.

Há autores contemporâneos que lhe interessam? Quais são os principais em sua lista?

(Harold) Pinter, (Arthur) Miller, Lars Noren? e muitos mais que não me ocorrem.

Como você dirige os seus atores? Existe uma metodologia comum que permeia todas as suas direções? Ou é cada espetáculo com suas peculiaridades que vai determinar o que você exigirá dos atores?

Eu acredito que são os atores que vão definir qual será o resultado final de cada espetáculo. Uma mesma obra com atores diferentes terá necessariamente um resultado diferente. O que peço a eles é a réplica justa, a reação precisa. O mínimo resultado em algumas ocasiões e, em outras, o máximo.

O que se transformou em sua obra após a sua saída do grupo El Periférico de Objetos?

Não foi uma saída completa, mas apenas uma mudança de rumo no caminho. O que mudou é que troquei objetos por atores de carne e osso.

O trabalho do El Periférico de Objetos sempre teve uma relação com outras formas de arte, como as artes plásticas. Como se pode ver, no trabalho que você faz agora, esse tipo de relação do teatro com outras artes?

Tento ser específico no trabalho com o ator. O que não é essencial não entra em minha obra. Luzes, música, cenário, figurinos. Tudo aquilo que não é extremamente necessário é demais para mim.

Qual a grande contribuição que o El Periférico de Objetos trouxe à cena de seu país?

Como grupo, nós tínhamos um olhar despido de preconceitos sobre a cena, sobre aquilo que era e que não era teatro. Tivemos a virtude de não nos deixarmos acomodar nas formas que descobríamos. O que buscávamos sempre era dar um passo além daquele que já tínhamos conseguido. O que não é pouco.

A Argentina parece viver um momento particularmente fértil no teatro. Como você vê esse quadro? Neste momento, há espetáculos que lhe interessam?

Eu vejo diversidade e muita produção. Muitas vezes, os espetáculos me interessam, sim. Mas não busco nada em particular. Quando vejo obras, elas não têm que ser parecidas com o que eu faço para que eu goste delas. Quero, sim, é que me surpreendam.

PROGRAMAÇÃO MIRADA

Hoje

20 h, Sesc Santos

De Monstruos y Prodígios: La Historia de los Castrati (México). Espetáculo do grupo Teatro de Ciertos Habitantes faz uma viagem do barroco do século 17 aos dias de hoje.

Amanhã

19h30, Sesc Santos

Urtain (Espanha). A companhia de Teatro Animalario e Centro Dramático Espanhol traz montagem sobre um boxeador que se suicida às vésperas dos jogos olímpicos de Barcelona, em 1992.

Sábado

19 h, Casa da Frontaria

Azulejada

Passport (Venezuela). O dramaturgo Gustavo Ott parte do romance de Kafka O Processo para contar a história de arbitrariedades sofridas por uma mulher.

21h30, Sesc Santos

Savana Glacial (Brasil). O carioca grupo de Teatro Físico apresenta montagem da obra do dramaturgo Jô Bilac. A peça trata de um escritor que enreda os personagens em uma trama de realidade e ficção.

Domingo

17 h e 19h30, Sesc Santos

El Desarrollo de la Civilización Venidera (Argentina). Versão do diretor Daniel Veronese para o clássico de Henrik Ibsen, Casa de Bonecas.

Dia 6

17 h e 19h30, Sesc Santos

Todos los Grandes Gobiernos Han Evitado el Teatro Intimo (Argentina). Daniel Veronese relê outra obra de Ibsen, Hedda Gabler, na qual a protagonista confronta a sociedade patriarcal.

17 h e 19h30, Galpão Estação Valongo

O Idiota - Uma Novela Teatral - Parte 1. (Brasil) A diretora Cibele Forjaz apresenta adaptação para o romance de Dostoievski.

Dia 7

17 h e 19h30, Sesc Santos

Espía a Una Mujer Que se Mata (Argentina). Daniel Veronese mostra sua releitura de Tio Vânia, de Anton Chekhov.

21h30, Teatro Coliseu

La Omisión de la Família Coleman (Argentina). O espetáculo do diretor e dramaturgo Claudio Tolcachir trata do desmanche de uma família.

Dia 8

19h30, Sesc Santos

Mi Muñequita (Uruguai). Peça do festejado Gabriel Calderón fala da perversidade adulta pela perspectiva infantil.

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