O atentado, um ensaio sobre a política

Jorge Fons recria os bastidores da tentativa de assassinar o presidente Porfírio Diaz, no século 19

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

O Atentado é um título demasiado cru para uma história cheia de intrigas e reviravoltas, passada na época de Porfirio Díaz, no México. Aliás, a estrutura em espiral é uma marca registrada do diretor Jorge Fons, conhecido no Brasil pelo seu O Beco dos Milagres, versão mexicana de um romance do egípcio Naguib Mahfuz. O núcleo da trama, que, em Beco, dizia respeito às relações interpessoais, nesse novo filme migra para as relações políticas. E quem fala em política fala em procedimentos nem sempre transparentes na tarefa de assumir e manter o poder. O filme é baseado no romance El Expediente del Atentado, do também mexicano Alvaro Uribe.

O núcleo da história é absurdamente simples e baseado em fato verídico - dia 16 de setembro de 1897, um rapaz bêbado tenta agredir o presidente Porfirio Díaz durante o desfile comemorativo da independência mexicana. O filme toma essa conotação histórica, pois em 2010 festeja-se o bicentenário da independência do México e o centenário da revolução mexicana. O atentado a Díaz, praticado por um certo Arnulfo Arroyo (José Maria Yazpik), foi tão tosco e ineficaz que chamou a atenção de quem o testemunhou. Porfirio Díaz ordenou, na frente de todos, que o rapaz fosse preso e sua integridade física, garantida. No entanto, no dia seguinte, Arroyos apareceu morto, com dezenas de facadas no corpo.

A história, construída por Uribe e reconstituída no cinema por Fons, é uma especulação política sobre os bastidores desse atentado em aparência desastrado. Arroyos era um jovem estudante de Direito que passara a noite bebendo antes de tentar agredir Porfirio Díaz. Por que apareceu morto depois de detido? Para responder, ou sugerir uma resposta, o filme retorna ao passado em flashbacks e depois volta ao tempo presente da narração. Sugere que o assassinato não passou de uma queima de arquivo, pois, detido e interrogado, Arroyos poderia dar com a língua nos dentes e comprometer figurões muito bem situados na república, incluído aí o advogado interpretado por Daniel Gimenez Cacho, uma das figuras centrais da narrativa.

Bem produzido (é o filme mais caro da história do cinema mexicano), O Atentado seduz pela retórica labiríntica, própria da política latino-americana. Faz elo entre passado e presente.

O ATENTADO

Unibanco Arteplex 6 - Hoje, 18h50

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