O artista quando pai

Best-seller de Cristovão Tezza, O Filho Eterno merece delicada adaptação para o teatro da Cia. Atores de Laura

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h10

Quantas sensações cabem em um dia? O dia mais feliz de uma vida. O dia mais brutal. No escaninho da memória, é quase sempre em lugares diferentes que costumamos guardar cada uma dessas datas. Existe, porém, a remota chance de que elas coincidam e sejam uma só. Toda a felicidade possível, todo o vislumbre do horror - separados por apenas alguns minutos. Talvez por um segundo. Único, irreversível.

O Filho Eterno, que entra em cartaz amanhã no Sesc Consolação, é uma adaptação do festejado romance de Cristovão Tezza. Ambiciona levar para o palco o assombro do escritor no dia do nascimento de seu primeiro filho. Lançado em 2007, o livro de Tezza descreve suas reações à descoberta de que era pai de uma criança diferente daquela com a qual sonhara, um menino com síndrome de Down.

Concebido pela Cia. Atores de Laura, o espetáculo capta a crueza e a pungência com a qual o autor catarinense recriou a experiência. Sozinho em cena, o ator Charles Fricks também não se vale de meias palavras. A montagem bebeu da literatura de Tezza os pensamentos terríveis, os temores mesquinhos, o descompasso entre vida e desejo.

Responsável por espetáculos como Adultério e O Enxoval, é a primeira vez que o grupo carioca se arrisca a encenar um monólogo, em quase duas décadas de trajetória. "Era algo que já estávamos pensando em fazer há algum tempo, um projeto para menos atores", comenta o diretor Daniel Herz. Bem-sucedida, a experiência cumpriu uma aplaudida temporada no Rio e rendeu à companhia uma série de prêmios, entre eles o Shell de melhor ator para Charles Fricks.

Para quem conhece o livro, talvez soe estranha a ideia de transpor para o teatro a prosa tão íntima e cheia de divagações. O diretor explica, contudo, que a destacada evolução dramática da obra autobiográfica serve perfeitamente à encenação. "Existe uma virada muito clara do personagem", observa Herz. "Do horror do primeiro momento ao seu aprendizado do amor."

A adaptação, assinada por Bruno Lara Resende, centra-se nesse percurso de redenção e também mantém outra das características do livro: a narração em terceira pessoa. Uma opção que ajuda a manter o tom de estranhamento: alguém que fala constantemente de si, mas como se estivesse a falar de um outro.

Ao longo do romance, que instalou Tezza no panteão da nova literatura brasileira, estão descritos pouco mais de 26 anos de vida. O nascimento de Felipe é o ponto inaugural da narrativa, mas ela passeia por uma série de outros momentos: os embates do artista com sua literatura, suas dificuldades com a vida prática, o emprego como professor universitário que lhe garante certa estabilidade, os anos de juventude na Alemanha, onde viveu como imigrante ilegal.

Na versão cênica, quase tudo isso fica de fora. Para alcançar os 80 minutos de duração do espetáculo, a opção foi centrar-se na relação entre pai e filho. Ou, mais precisamente, nos enfrentamentos desse pai com o filho que ele vai construindo, com o vulto que esse filho ganha, paulatinamente, em sua ideia. "Isso deu o norte da adaptação", avalia o encenador. Apesar dos cortes e das escolhas da versão, Herz diz que não houve acréscimos ao texto original. Assim, quase tudo o que é dito em cena surge tal e qual foi escrito. Apenas rearranjado de outra maneira.

A solidão parece ser a ambição máxima desse personagem. Seu relato assemelha-se ao de alguém apartado do mundo. É o discurso de um inadaptado. Como se uma névoa, espessa, o separasse de sua própria vida.

Os médicos entram no quarto para lhe dar a notícia de que aquele recém-nascido, seu filho, tem todas as características da trissomia do cromossomo 21. Mas esse homem não grita, não se revolta, não olha sequer para o bebê e para aqueles homens enfatiotados da ciência. Toda a sua dor é para dentro. Nele, tudo escorre nos subterrâneos. À superfície, não ousa trazer seu medo, a vergonha que sente, as elucubrações cruéis sobre quanto tempo aquele pesadelo poderia durar. É em silêncio que idealiza a morte iminente daquele bebê como a realização da liberdade.

A adaptação da Cia. Atores de Laura ressalta essa solidão não apenas ao optar pelo formato de monólogo, mas ao colocar o intérprete a relacionar-se unicamente com uma cadeira. É esse o único objeto disponível em cena. E será apenas nele que a interpretação de Charles Fricks poderá buscar apoio.

"O vazio cênico concretiza esse desejo de estar só do personagem", considera o diretor. A depender do momento, a tal cadeira poderá fazer as vezes de carro, de sofá ou de algum dos incontáveis aparelhos para exercícios motores com os quais ele terá que aprender a lidar para cuidar do filho. Caberá ao espectador completar o quadro.

É apenas ao final do espetáculo que esse palco quase nu parece modificar-se. Ao lado do menino, um eterno Peter-Pan, o pai terá crescido. Descoberto algum afeto sem medida, sem explicação, sem fim.

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