O artista múltiplo

Ocupação Sganzerla procura mostrar um criador multimídia, polêmico e onívoro, muito além de um simples diretor de filmes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

Talvez uma simples retrospectiva de filmes não fizesse mesmo justiça a Rogério Sganzerla. Menino prodígio como escritor, crítico do Estadão aos 17 anos (por indicação de Décio de Almeida Prado), aos 21 botou na praça um filme-bólido que virou de cabeça para baixo o cinema brasileiro daquele tempo ? O Bandido da Luz Vermelha. Era 1968, e ele expressava o desespero político da época. Detalhe: foi feito antes do AI-5, sendo portanto premonitório. Desde então, Sganzerla viveu uma vida provocativa, antenado com as vanguardas e tendo como profissão de fé o cinema de invenção. Brigou com o Cinema Novo e fechou com Orson Welles, uma de suas referências maiores. Tanto assim que dirigiu nada menos do que uma tetralogia em torno do mestre norte-americano de Cidadão Kane. Rogério começou muito cedo e também morreu antes da hora, indo-se aos 57 anos, em 2004. Sim, Rogério Sganzerla, ser múltiplo, merecia mais do que uma retrospectiva. Merecia uma Ocupação, que é o nome que se dá ao evento multimídia que começa hoje para convidados no Itaúcultural e abre amanhã para o público.

Em que consiste essa Ocupação, que tem como curador o cineasta Joel Pizzini? "Numa aproximação multimídia ao universo do artista, a começar pela noite de abertura que terá a música de Lanny Gordin e presença do coletivo de Vjs Embolex", explica Pizzini. Gordin, guitarrista famoso na São Paulo dos anos 1960, aparece num dos filmes de Rogério. Os dois têm tudo a ver. Além disso, une-se, metonimicamente, a outra das referências permanentes do cineasta ? o guitarrista norte-americano Jimmi Hendrix, a quem Rogério também dedicou um filme e sua admiração de toda a vida.

Compulsão. As aproximações prosseguem pela exibição de uma memoriabilia sganzerliana, composta de manuscritos, roteiros (filmado e inéditos), objetos de uso pessoal como sua máquina de escrever. Material obtido com a família: a viúva Helena Ignez e as filhas do casal, as atrizes Sinai e Djin. Rogério, nesse particular, era como Glauber Rocha, outro escritor compulsivo. Ao morrer, ambos deixaram acervo incrível de material impresso. Parte dessa herança estará exposta. Mas a preocupação da curadoria é de que a mostra não tivesse caráter museológico, pois nada menos aparentado à personalidade de Rogério do que um museu. Assim, haverá um espaço com projeção de imagens para expor os eixos principais da visão de mundo de Sganzerla: além de Welles e Hendrix, Oswald de Andrade e Noel Rosa. Também estará disponível ao público uma "guitarra interativa", que edita imagens dos filmes de Sganzerla (inclusive o raro Mudança de Hendrix) à medida em que o participante toca as notas. É ver para crer.

Em meio a tanto auê, sim: há os filmes. E, como diria um cinéfilo inveterado, aqui chegamos ao que de fato interessa, ao "x" da questão. Porque Rogério poderia ser tudo o que foi, rapaz precoce e boa pinta, cabeça brilhante e jeitão de hippie dos anos 1970, casado com mulher bonita e dando entrevistas radicais ao Pasquim; poderia ser tudo isso e não ser nada, não fossem seus filmes ou, pelo menos, alguns deles em particular.

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