'O Artista' fatura entre independentes

Academia se preocupa com perda de audiência e negocia novo patrocínio

LUIZ CARLOS MERTEN, UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL, LOS ANGELES, LUIZ CARLOS MERTEN, UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL, LOS ANGELES, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2012 | 03h08

Todos os olhos estavam voltados para o Oscar, mas, no sábado à noite, a temporada de prêmios nos EUA teve outro momento importante com a entrega dos Independent Spirit Awards, ou simplesmente Spirits. É o Oscar dos independentes, que este ano consagrou o grande favorito do prêmio da Academia. O Artista ganhou nas categorias de filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin) e fotografia (Guillaume Schiffman). A cerimônia, realizada num clube de Santa Mônica, teve Seth Rogen como host. Hazanavicius, em seu discurso de agradecimento, admitiu que estava muito nervoso "e com a minha pressão subindo continuamente".

O Spirit também premiou vários outros indicados para os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas - Michelle Williams foi a melhor atriz, por Sete Dias com Marilyn (e ela estava linda, com seu penteado à garçonne e o combinado blazer/shorts); Christopher Plummer, o melhor coadjuvante, por Toda Forma de Amor; A Separação, do iraniano Asghar Farhadi, venceu como melhor filme estrangeiro; e Alexander Payne ganhou o Spirit de roteiro adaptado, por Os Descendentes. O filme baseia-se no romance da haviana Kaui Hart Hemmings. A melhor atriz coadjuvante foi Shailene Woodley, também de Os Descendentes, mas ela não concorre ao Oscar.

O Prêmio Piaget dos produtores, que contempla um filme particularmente inovador, foi para o admirável Take Shelter, de Jeff Nichols, que ainda não tem distribuidor para o Brasil. É um belíssimo filme, que o cinéfilo brasileiro merece assistir, e por isso mesmo, vale torcer para que um dos distribuidores independentes do País se apresente para trazer a obra-prima de Jeff Nichols, com Michael Shannon. O ator estava indicado para o Spirit da categoria, mas perdeu para o francês Dujardin, que se transformou numa unanimidade pelo Artista. O Prêmio Robert Altman, para o filme que tem o melhor elenco, foi para Margin Call - O Dia Antes do Fim, de J.C. Chandor, que também venceu na categoria diretor estreante.

Criado em 1984, o Spirit foi chamado inicialmente de Findie, que significava Friend of Independents - amigo dos independentes. A mudança de nome para Independent Spirit Award ocorreu dois anos mais tarde. A ideia da premiação surgiu como homenagem ao que de melhor havia sido produzido no ano em termos de produção independente nos EUA, numa época em que a audiência e a infraestrutura dessa categoria eram ainda precárias. Com o prêmio, os filmes poderiam ganhar mais exposição na mídia e, quem sabe, público. Para se candidatar, um filme tem de ter custado menos de US$ 20 milhões e também ter passado num dos festivais que abrigam a produção independente norte-americana - Los Angeles, Sundance e Telluride.

A consagração de O Artista, precedendo o Oscar - ao qual o filme concorria com dez indicações, contemplou não apenas uma produção estrangeira (francesa), mas uma obra que olha com nostalgia para os primórdios do cinema, num momento em que as novas tecnologias (o digital) prometem mudar o próprio suporte. O Artista, em preto e branco e sem diálogos, trata de outro momento de mudança - a passagem do cinema silencioso para o sonoro.

Também no sábado, foi divulgada a lista dos filmes e artistas que vão concorrer à Framboesa de Ouro, o anti-Oscar, que destaca os piores do ano segundo o site Rotten Tomatoes. A Framboesa deste ano contempla, entre outros, Transformers 3 e Crepúsculo - Amanhecer (candidatos a pior filme), Michael Bay (diretor), Adam Sandler (ator) e Robert Pattinson/Kristen Stewart e Adam Sandler e qualquer atriz que tenha contracenado com ele (pior dupla). O prêmio será entregue em 1º de abril e, como já é de praxe, alguns indicados, os que tem mais senso de humor, comparecem. Sandra Bullock, antes de receber seu Oscar, foi em pessoa receber sua Framboesa de Ouro. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Os produtores da cerimônia do Oscar estavam mais preocupados, ontem, não apenas com a premiação dos artistas, mas principalmente com a audiência conquistada na TV com a transmissão da festa. O motivo é a sombra projetada pelo Grammy - a festa da música atraiu a atenção de 39,9 milhões de pessoas no início do mês e ameaça derrubar o Oscar como o segundo evento mais visto na TV americana (o primeiro é o Super Bowl). O número será oficialmente divulgado hoje.

Foi a maior audiência do Grammy desde 1984, embora a morte de Whitney Houston no dia anterior tenha sido decisiva para o incremento dos números. A preocupação dos organizadores do Oscar é que, nos últimos anos, em apenas duas oportunidades a cerimônia foi vista por mais de 40 milhões - justamente quando dois blockbusters disputavam a estatueta de melhor filme: O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (2003) e Avatar (2009).

O que prejudica a perspectiva para este ano, pois a maioria dos indicados deste Oscar não conseguiu atrair bilheterias milionárias. O Artista, por exemplo, somou mais US$ 3 milhões neste fim de semana e chegou a US$ 31,9 milhões. Já Os Descendentes, favorecido pela atenção que rodeia o Oscar, engrossou em mais US$ 2,2 milhões sua bilheteria chegando a um total de US$ 78,5 milhões. Cifras ainda muito distantes das marcas milionárias da saga dos Anéis e Avatar.

A esperança dos organizadores da cerimônia é que a curva ascendente de audiência (no ano passado, a transmissão atraiu mais pessoas que em 2010 e 2009) continue.

A luta até ganhou fortes auxiliares. O prefeito de Los Angeles, por exemplo, Antonio Villaraigosa, foi à TV neste domingo e, em uma entrevista à ABC, emissora responsável pela transmissão da festa, disse que Oscar é vital para a cidade. "Só nesta semana da cerimônia, são criados mais de 2 mil empregos flutuantes e o município arrecada aproximadamente US$ 500 milhões", afirmou ele, dizendo que pretende reforçar ainda a utilização da cidade como set de filmagens. "Temos de ser agressivos na conquista dessa preferência, assim como faz o governo de Nova York."

O caso Kodak. Curiosamente, Villaraigosa cedeu a cadeira para o presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Tom Sherak, que disse à mesma emissora que já iniciou negociações com patrocinadores que vão substituir a Kodak no nome do teatro de 3.300 lugares onde acontece anualmente a cerimônia. "Já conversamos com alguns possíveis candidatos e esperamos fechar logo algum acordo."

Sherak decidiu, ao longo da semana passada, que todas as transmissões da festa fossem anunciadas como "direto de Hollywood & Highlander Center", que é o centro comercial onde está localizado o teatro, e não mais "direto do Kodak Theatre." "Acredito que esse nome (Hollywood & Highlander Center) é o ideal, pois identifica o local."

A Kodak, que acumulava uma dívida avaliada em US$ 6,7 bilhões em janeiro, decidiu interromper um contrato que iria até 2020 por não conseguir mais pagar US$ 3,6 milhões por ano pelo direito de dar sua marca ao teatro. Curiosamente, sete dos nove filmes que disputaram ontem o principal Oscar foram rodados com negativos da Kodak.

"Mesmo assim, filmes em 35 mm estão com os dias contados", disse, à agência de notícias AP, David Hancock, diretor do departamento de cinema da empresa de pesquisas IHS Screen Digest. "Em quatro anos, nenhum estúdio utilizará mais o negativo para fazer algum filme."

A medida significará economia na produção e agilização do trabalho. Mark Graziano, da DreamWorks, disse que, para que os executivos do estúdio pudessem assistir às provas de Cavalo de Guerra, de Spielberg, foram necessárias duas semanas de preparação. "Agora, é quase instantâneo."

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