O artista e o seu espaço possível de liberdade

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2011 | 03h06

Há uma sequência comovente de Isto Não É Um Filme, quando Jafar Panahi, confinado em seu apartamento em Teerã, delimita no piso, com fita crepe, as marcações do filme que tem na cabeça e não pode realizar. Panahi, quando esse "não-filme" foi realizado, estava em prisão domiciliar, aguardando o resultado do apelo à justiça.

Isto Não É Um Filme, correalizado com Mojtaba Mirtahmasb, tem esse tanto de astúcia e de protesto silencioso. "Não posso filmar", diz Panahi, "mas ninguém me proibiu de ser ator". Ele é ator de si mesmo. Um diretor, atingido pelo arbítrio que não lhe permite filmar, interpretando um cineasta que dirige um filme imaginário.

Há mais nessa estratégia. Já que não pode sair, Panahi filma da janela. Como não pode se encontrar com quem quer, entretém-se conversando com o rapaz que vem buscar o lixo do edifício. E não importa saber se a cena foi obra do acaso ou mais uma esperteza do diretor. Nesse discurso ficcional, mas endereçado à realidade iraniana, valem as invenções e as malícias para escapar à ordem autoritária. Oprimido, em seu canto, Panahi salva-se por meio da sua arte. É o que lhe resta e isso não lhe podem tirar.

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