O artista como sedutor

Como em O Carteiro e o Poeta, Michael Radford tenta decifrar o sublime no documentário Michael Petrucciani

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h08

Sua frase preferida era - "I hate wasting time." Michael Petrucciani detestava perder tempo. Ele passou pela vida com o sentimento de urgência. Muitos filósofos sustentam que o homem moderno vive alienado justamente por correr contra o tempo, numa batalha perdida de antemão. Mas Petrucciani tinha um motivo para isso - ele sofria de uma doença rara, osteogênese imperfeita. Adulto, atingiu a estrutura de uma criança. Era anão, sem nenhuma ofensa pela palavra, que os norte-americanos, tão politicamente corretos, preferem substituir por 'verticalmente prejudicado'. Pior que isso - Petrucciani tinha ossos muito frágeis, que se quebravam com facilidade, como os do protagonista de Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan.

O fato de ser duplamente prejudicado - ou deficiente - não impediu que Petrucciani se convertesse num grande artista. Um pequeno grande artista, vá lá que seja. Como pianista de jazz, ele virou objeto de um culto. Tocava divinamente. Como dar conta do mistério de sua criação? Como dar conta da totalidade desse homem que tocou o sublime com sua arte? Como explicar que tenha sido um grande amante? Michael Radford tenta dar conta dessa complexidade em seu documentário que tem o nome do artista. Michael Petrucciani é uma das atrações - 'a' atração - do In-Edit, Festival de Documentários Musicais, neste fim de semana.

Michael Radford reata com suas origens documentárias - e musicais. No começo de sua carreira, ele fez um clipe que ficou famoso - Van Morrison in Ireland. Vieram depois as ficções - 1984 de George Orwell, Incontrolável Paixão, As Garotas do Blue Iguana. E - claro - O Carteiro e o Poeta, seu maior sucesso de público e crítica, em que já havia abordado o sublime, com base no original de Antonio Skarmeta sobre o exílio italiano de Pablo Neruda, quando o poeta chileno dotou um simples carteiro (Massimo Troisi, numa atuação antológica) de uma familiaridade com as palavras que o tornaram sedutor para a mulher que ele desejava, mas lhe parecia inalcançável.

O sublime da poesia - e da música. Ambas ferramentas do homem para tocar o coração das mulheres. O fascínio da mulher, o desejo dela e por ela, está sempre no centro do cinema de Michael Radford. Ele o admitiu em Cannes, no ano passado, quando Michael Petrucciani integrou a seleção do maior festival do mundo. "O que me interessa é o sublime da criação humana", confessou. Com base em depoimentos e material de arquivo, a tela é ocupada pela paixão de Petrucciani por vinho, drogas, comida - e mulheres. Sua paixão por música. Ele morreu aos 36 anos. No ano-novo de 1999, em Nova York, seus frágeis pulmões não resistiram ao frio e ele pegou uma pneumonia. Mesmo imperfeito, o filme de Radford é belo, resgatando um personagem que foi verdadeiramente extraordinário.

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