O artificial e o real por JUERGEN Teller

Mostra do alemão no PhotoEspaña une suas obras de moda e particulares

Camila Molina / MADRI, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Não existe separação entre arte e moda para o fotógrafo alemão Juergen Teller. Conhecido, principalmente, por se dedicar anos seguidos às campanhas dos estilistas Marc Jacobs e Vivienne Westwood, Teller também é um habitué dos centros culturais e galerias, realizando volta e outra exposições em espaços como a Fundação Cartier de Paris, o Munchner Fotomuseum de Munique, a Tate Modern, em Londres, e até na 52.ª Bienal de Veneza, em 2007, quando exibiu obras no pavilhão da Ucrânia.

Agora, o fotógrafo é um dos destaques do 13.º PhotoEspaña, o grande festival de fotografia e artes visuais que ocorre em Madri, Cuenca e Lisboa, em Portugal. Na sala Alcalá 31, na capital espanhola, está em cartaz até 22 de agosto a mostra Juergen Teller - Calves & Thighs (algo como panturrilhas e fêmures, na tradução), que reúne cerca de 130 imagens feitas pelo fotógrafo em diferentes momentos e ainda uma seleção de revistas (em que figuram suas obras de moda) e livros do artista. A exposição viajou à Espanha depois de apresentada no Kunstahalle de Nuremberg, na Alemanha.

Retratos da vida familiar e afetiva do alemão se unem naturalmente a portraits de personalidades como o pintor britânico David Hockney fumando, o músico americano Kurt Cobain em Berlim, em 1991, ou o famoso ensaio de 2009 em que a atriz britânica Charlotte Rampling e a modelo gaúcha Raquel Zimmermann (entre suas preferidas) posam nuas ao lado de obras do museu do Louvre de Paris, fazendo contrastar suas peles e o mármore de esculturas como a Vênus de Milo. Mais ainda, a exposição, com curadoria do inglês Paul Wombell, tem um forte recorte da raiz autobiográfica espontânea incutida nos trabalhos de Teller, apresentando séries em que ele mesmo aparece nas imagens - e até em um vídeo de 2002, quase performático, no qual o fotógrafo, grande torcedor de futebol, aparece assistindo a partida entre Brasil e Alemanha na Copa do Mundo.

Artificialidade. Num autorretrato de 1995 (reproduzido no alto da página), Juergen Teller está deitado numa cama de hotel em Lecce, na Itália, e olha para a câmera. Seu ar é jovem, diferente das obras de 2004 em que ele mesmo se fotografou com Charlotte Rampling (espécie de fetiche do artista) simulando dias de prazeres - entre frutas, caviar e casacos de peles - na suíte Louis XV do Hotel Crillon de Paris. "Colocar lado a lado as imagens da vida privada de famosos e ainda as que Teller mesmo aparece revela uma realidade provocadora, mas, às vezes, ingênua também. Só que sempre há uma artificialidade em suas obras", diz Wombell.

Por mais que se queira fugir da artificialidade, ela é uma característica inerente ao mundo dos fotógrafos de moda e prevalece na maioria das imagens da exposição. O segmento está representado com as imagens de celebridades do meio, como o retrato dos estilistas Yves Saint Laurent (1936-2008) e Vivienne Westwood (esta, numa série em que, de idade avançada, está nua) e da modelo Kate Moss descontraída, Mas, como defende o curador, existe uma intensidade diferente nas obras de Juergen Teller justamente pelo ensejo de o artista se colocar ele próprio nas imagens. "O fotógrafo não está além da câmera e, normalmente, a foto o oculta. Com Teller não é assim, ele ultrapassa a barreira entre fotógrafo e objeto, usa as cenas para expressar suas emoções", afirma Wombell, fazendo a relação da obra do alemão com outros criadores como o japonês Nobuyoshi Araki e a americana Nan Goldin.

Para o crítico e curador especializado em fotografia, a mensagem da mostra - para jovens fotógrafos - é essa integração inevitável que o alemão realiza entre seus trabalhos comerciais e pessoais ou autorais, o que confere, no caso de Teller, uma marca. Curioso, como nesse sentido, ele já incorporou em revistas, livros, exposições e até em campanhas publicitárias imagens em que aparece a sua família.

Sinistro. Mas a poética do fotógrafo, por assim dizer, é muito própria, mescla uma "tensão" entre vida e morte, real e imaginário, conhecido e desconhecido, familiar e estranho, "algo que poderia se definir como sinistro no sentido freudiano", destaca Wombell. Em uma obra de 1998, em preto e branco, estão a mãe de Teller e "Artur" em Bubbenreuth, o que é um retrato banal, mas, em outra, Mother and Crocodile, de 2002, ela aparece com uma boca de crocodilo. Já em uma fotografia em P&B, de 1991, o que poderia ser uma imagem despretensiosa, na verdade, é o registro de um cachorro morto e congelado em uma lata de lixo na República Checa. Existe ainda um forte teor sexual nos trabalhos de Juergen Teller.

Cuba. As imagens mais leves são as da série 10 Dias em Havana, de 2010. É um ensaio de obras coloridas, todas com enfoque no cotidiano da capital cubana. Crianças jogando - numa das fotografias está um menino boxeador -, detalhes de arquitetura, jovens rindo, tudo se reúne numa atmosfera em que a pobreza é um dado natural do lugar. Nesse conjunto, as fotografias de Teller são mais documentais.

QUEM É JUERGEN TELLER

FOTÓGRAFO ESPECIALIZADO EM MODA

Nascido em Erlangen, na Alemanha, em 1964, estudou fotografia em Munique. Mudou-se, em 1986, para Londres, onde vive. Realiza trabalhos frequentes para os estilistas Marc Jacobs e Vivienne Westwood.

O QUE ELES DIZEM DO ARTISTA

Stefano Pilati

Estilista

"Acredito que Juergen Teller seja o único fotógrafo cujo trabalho sempre se move entre "arte" e "fotografia de moda"."

Roni Horn

Artista

"O imaginário do fotógrafo é, de forma incômoda, sexual e social. Há de uma maneira apreciável falta de inibição, como se ele fosse um ator sem formação."

Vicente Todolì

Ex-diretor da Tate

"Para mim, Juergen tem duas formas diferentes de abordar sua obra. Por um lado, tenta transladar seu trabalho na moda para o mundo real e por vezes utiliza não modelos como modelos, mas com uma marca pessoal do fotógrafo, presente ou ausente. Ao mesmo tempo, em suas obras mais pessoais sua presença é patente. É como em O Médico e o Monstro. Percebo, ainda, um forte componente fílmico em sua obra. Seu trabalho para a moda é um curta-metragem, seus livros, mais longas-metragens. Ambos mostram um traço comum, uma cenografia, ainda que fortuita. Seu trabalho para moda é muito calculado, e nos livros, é quase barroco."

Sadie Coles

Galerista

"Frequentemente, ele abstrai em uma imagem o que parece menos indicado."

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