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Roberto DaMatta
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O arranjei-me como valor

A imobilidade da monarquia foi substituída pela mobilidade republicana. Numa aristocracia, vale mais a reciprocidade do que o mérito e a competição. Se você é “amigo do rei”, você – mesmo na República – se arranja e se arruma, pois o rei lhe faz a pergunta fatal: o que você quer?

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 02h00

O problema é que a República supõe uma igualdade que atrapalha escolhas pessoais. Na monarquia, o imperador faz barões, na República, as autoridades devem ter competência e mérito. O maior deles, nesses dias em que os escândalos viraram capítulos de novelas, seria o de arranjos e assaltos mais discretos, mais sensíveis para com os que pagam a conta.

Na monarquia, há súditos e na República, cidadãos. O gerenciamento igualitário é modesto, pois além de ligar governantes e governados pelo voto, ele se funda no axioma segundo o qual todos são sujeitos das mesmas leis. Nisso, o Brasil inventa os “arranjos”. Cada grupo trata de ser uma exceção a uma execrável igualdade universal. Como lidar com a igualdade se o mundo é dividido, dizem os mais recalcitrantes.

A igualdade substitui o “sangue” e a família como dimensão de pertencimento. Será, pergunta-se, que o partido político ou a ideologia populista-revolucionária substitui o “sangue” e avaliza pertencimentos, vantagens, propinas e outros elementos diferenciadores que engendram desigualdade e, no limite, escancarada corrupção? Aparelhamento é uma nova forma de hierarquia?

A coisa seria institucionalizada e capitulada em lei, não fosse existir um controle dos governantes pelos governados, numa odiosa reversão republicana que a mídia estampa, anunciando como os códigos antigos não morrem por decreto. Eles vivem na estratosfera dos valores – das coisas não ditas, mas sabidas.

No Brasil, a maior revolução foi o republicanismo, diz-me o prof. Richard Moneygrand numa longa carta. Nela, Moneygrand assevera que um modesto igualitarismo burguês na zona do uso criterioso ou republicano dos recursos públicos seria suficiente para transformar radicalmente o Brasil. Para ele, a “nossa revolução” teria o defeito de ser somente “nossa” e não de todos. Ela criaria em paralelo novos arranjos do velho “arranjei-me”, instituindo no poder um novo grupo com o direito de usar legalmente o “Você sabe com quem está falando?”, tal como ocorre hoje nos arranjos jurídicos do mensalão e do petrolão.

O conceito de “revolução” serve como um amuleto contra uma desigualdade gritante. No populismo, todos ganham; no republicanismo igualitário, alguém perde. Não adianta teorizar que estamos lutando por dentro porque as grandes transformações exigem uma enorme parcela de participação. A revolução milenarista não nos exime do que estamos testemunhando: o assalto à sociedade e a pulverização do princípio de realidade, por meio do conchavo e da mendacidade.

No Brasil, a grande transformação seria o gerenciamento igualitário e honesto do Estado pelo governo. É preciso desapropriar o Estado do grupo eleito para, em sintonia, mudar a sociedade. Não se admite ter governos que arranjam e enriquecem os “revolucionários” da caneta e das propinas com contas no exterior e ‘consultas-palestras’ milionárias no Brasil.

À ousadia dos trêfegos, que são hoje “autoridades” e protagonistas sem nenhum senso de responsabilidade histórica, tem-se plena certeza da nossa patetice. Nós, que pagamos a conta e ainda temos fé na honestidade como um axioma de qualquer sistema. Daí esse teatro de absurdos em que a mentira é legal e o legal é a mentira.

Você, leitor, vai arguir que existem vários condenados e presos. Eu apenas respondo que hoje o meu ideal é o de ser condenado a uma prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica e aposentadoria integral sem esquecer a grana que depositei num “blind trust”, como é o caso do ilustríssimo presidente da Câmara dos Deputados.

Comove-me, entretanto, descobrir que os envolvidos nas roubalheiras se preocuparam em arranjar e proteger seus familiares. A desejada vida de sócio de um Estado infalível se realiza com as bênçãos de uma secular desfaçatez. Esse patrimônio nacional de direita e de esquerda. E quem – eis a questão – recusaria o arranjei-me?

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