O arquiteto que leva a Flip para beira-mar

Mauro Munhoz fala sobre as novidades da feira literária de Paraty

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

Encontros com o Estadão

Requalificar os espaços públicos de Paraty envolvendo a população local é o próximo desafio de Mauro Munhoz. O arquiteto, que está a frente da Casa Azul, associação que organiza a Flip, é um dos responsáveis pela ampliação do turismo cultural na cidade, que recebe cerca de 20 mil visitantes durante a festa literária.

A relação de Munhoz com a cidade é quase tão antiga quanto sua paixão pela arquitetura, tema que insiste em dizer: tem que entrar "na pauta do brasileiro". Em conversa com a coluna falou sobre o projeto de mudança das tendas da festa, a importância do Museu do Futebol para SP e refletiu sobre o uso que fazemos do espaço público no Brasil.

Abaixo, trechos da conversa.

Esse ano a Flip tem algumas mudanças físicas. Uma das tendas, por exemplo, ficará à beira-mar. Por quê?

É uma ideia que já tem alguns anos. Queremos desafogar o centro histórico de Paraty, deixá-lo só para a flipinha, cuja atividade é super voltada para a população local. Então vamos revitalizar a parte nova da cidade, do outro lado da ponte, fazendo essa intervenção.

Qual é o impacto cultural e físico que há nessa mudança?

A tradicional tenda do telão vai para o Pontal, perto do mar, lugar com uma vista linda. Nosso objetivo é fazer do evento uma experiência de intervenção urbana. Paraty pode pensar o século 21 fazendo uma proposta de construção do futuro desse território e levando em consideração suas raízes culturais.

Que raízes são essas?

Paraty é uma cidade que historicamente tem uma relação importante com a água. O Lúcio Costa tem um texto super bonito que diz que Paraty é "o lugar onde os caminhos da água e os caminhos do mar se encontram, se entrosam". Durante um período, a cidade ficou isolada e só voltou a se ligar a rotas econômicas quando construíram a Rio-Santos, em 1974. Foram 119 anos de isolamento, que resultaram na preservação de recursos naturais, da cidade de pedra e cal. Aliado a isso, algo muito mais valioso e menos visível, que é o patrimônio imaterial.

O que é esse patrimônio?

Essa população que ficou isolada preservou uma cultura de cem anos, mesclada a uma intelectualidade que foi para lá nos anos 1960 e 1970. Isso dá uma singularidade interessante para essa cultura paratiense. A Flip é uma experiência cultural que se beneficia dessa raiz. O que as pessoas acham sensacional no evento é isso: as características físicas e geográficas do lugar, e o repertório cultural singular.

Por que só esse ano?

Só agora a prefeitura conseguiu resolver os problemas de alagamento que tinha nesse espaço.

Há quem diga que a Flip perdeu o patrocínio da Petrobrás por conta do convite para FHC palestrar na abertura, ano passado.

Não existe evidências a respeito disso. É mera especulação.

Uma crítica à festa literária é que ela se resumiria a um conflito de interesses de uma "panela" de editoras. O que pensa disso?

Não é verdade. O critério de escolha dos autores é puramente literário. A Flip é independente. Não sofremos pressão de governo, universidades ou mercado editorial. É claro que se uma editora tem muitos autores interessantes, terá mais convites, mas em geral é bem distribuído.

Como funciona a busca de patrocínio para a festa?

É a parte mais desafiadora. Entretanto, fazemos uso de um sistema que segundo o secretário de Cultura, (Carlos Augusto) Calil, é a visão de futuro do Minc. Dividimos em três partes: recursos próprios, renúncia fiscal e patrocínio direto. Quase todos os festivais são muito dependentes do incentivo público.

Vocês estão trabalhando na urbanização da borda d`água da cidade. Não é difícil capitanear isso? A burocracia não barra o processo?

A arquitetura está muito fora da pauta. Isso deve ter relação com os anos de ditadura, porque a maneira como a pauta do espaço público é ditada pelas empreiteiras e pelos políticos é muito antiga. A população não se envolve com essa questão. Isso é impressionante.

As pessoas não pensam a arquitetura atualmente?

Acho que tem mudança por aí, porque é um escândalo esse abandono de interesse. Só no Brasil é assim. Não precisa ir para Europa ou para os EUA para ver que a arquitetura é um tema e o espaço público é melhor. No Uruguai, Argentina e Chile também é.

Acredita que esse desinteresse tem relação com as nossos cursos e universidades?

Não. Temos ótimos arquitetos. Que, aliás, estão sendo contratados fora do Brasil para fazer projetos incríveis. É a questão do Estado e da contratação.

Como poderia melhorar?

Alberto Goldman, por exemplo, sancionou uma lei que os arquitetos batalham há 30 anos. Defende que os projetos não sejam feitos por licitação de menor preço. Projeto é a invenção de um conceito. Se o critério de escolha é o menor preço, a longo prazo a decisão é por baixa qualidade. Os EUA encontraram uma saída interessante para isso.

Qual?

Existem listas pré-qualificadas por excelência de desenho. Um arquiteto recém-formado pode pegar um contrato para desenhar um ponto de ônibus na periferia. Então, depois de construída a obra, uma comissão qualificada avalia o trabalho, dá uma nota. Essa pontuação irá qualificá-lo para realizar um projeto um pouco mais complexo. Isso é um critério que não é pelo menor preço e, sim, pelo resultado, de acordo com o interesse público. É uma avaliação cultural, e não só econômica.

Pensando no espaço público, o que achou do fechamento do Belas Artes?

Foi uma perda para a cidade. Mas me impressionou a mobilização popular. Foi um exercício de cidadania, de dar valor cultural a uma experiência afetiva.

A revista Projeto escolheu o Museu do Futebol, assinado por você, como destaque da década no que diz respeito à reciclagem e a reclassificação de edifícios antigos. Como foi o processo de criação do museu?

Usamos o futebol como manifestação cultural e aproveitamos uma circunstância muito interessante que é o Estádio do Pacaembu. Em 1910, uma paisagista de origem francesa percebeu que aquela grota no Pacaembu tinha vocação para uma obra de grande porte, encaixava-se na topografia de maneira perfeita. Eu tenho certeza que a afetividade do paulistano para com o Pacaembu tem relação direta com essa característica dele. O estádio tem 25 metros de altura e no entanto, convive harmonicamente com residências de dois andares.

MARILIA NEUSTEIN

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

João Luiz Vieira joao.vieira@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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