Tomas Bravo/Reuters
Tomas Bravo/Reuters

O argentino Juan Gelman, que morreu na terça, buscava em sua poesia o ritmo das ruas, a melodia da memória

O humor ácido era a sua arma contra o desespero e o medo

Eric Nepomuceno - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2014 | 18h51

Nos últimos muitos anos, Juan Gelman morava num bairro chamado Colônia Condessa, na Cidade do México. Um bairro que, desde a década de 50, serviu e serve de abrigo para pintores, músicos, cineastas, escritores. E poetas, como ele.

Foi no apartamento amplo e luminoso, coalhado de quadros, livros e memórias, que às quatro e meia da tarde da terça-feira, dia 14, Juan Gelman morreu. E com ele morreu o maior poeta do bairro, da cidade e um dos maiores do idioma espanhol das últimas muitas décadas.

Juan aportou na Colônia Condessa em 1989, depois de 14 anos vagando entre Roma e Paris, Madri, Manágua e Nova York, além de breves pousos em outras paisagens. Foi um exílio duplo. O primeiro, em 1975, pelas ameaças da nefasta AAA, a Aliança Anticomunista Argentina, ainda em tempos da bizarra presidência de Isabelita Perón. O segundo, já na democracia recuperada pelos argentinos em 1983. Juan voltou várias vezes às ruas da sua Buenos Aires, e em 1988 tinha se instalado para viver. Até que o dia em que encontrou na rua um dos responsáveis pela morte de seu filho Marcelo, em 1976, uma das milhares de vítimas do terrorismo de Estado implantado pela ditadura dos militares. Viu o homem andando livre e solto, e decidiu ir embora para sempre. Foi quanto se mudou para a Cidade do México, e decidiu que lá passaria o resto de seus dias.

Tinha olhos claros e eternamente tristes. A voz, gasta pelos cigarros e as madrugadas varadas à espera da luz, era grave e suave. A voz, gasta pelos cigarros e as madrugadas varadas em claro, era grave e suave. Ao longo dos 40 anos em que convivemos, foram poucas, pouquíssimas as vezes em que ouvi Juan erguer o tom de voz. Tinha um humor ágil e veloz, e que de vez em quando ficava ácido. Era impressionante: mesmo nos momentos da maior angústia, da dor mais sem-fim, restava algo desse humor. Era como se fosse uma arma contra o desespero, contra o medo.

Foi o poeta da solidão e da dor, do amor e da esperança. Foi o poeta da ira contida e da fé permanente. Ou seja, foi o poeta da vida. Escreveu um dos poemas de amor mais marcantes do idioma espanhol, aquele que começa assim: “Essa mulher se parecia à palavra nunca/ de sua nuca subia um encanto particular/ uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos/ essa mulher se instalava em meu lado esquerdo”. E de delicadezas como essa: “Teu corpo é alto como os pátios da infância/ doce como a luz dos crepúsculos/ e triste./ Teu corpo dura como o sol”.

Seus versos eram minuciosamente construídos, buscando o tom da fala coloquial, buscando o ritmo das ruas, a melodia da memória.

Começou escrevendo para encontrar o amor. Ou, mais precisamente: lá pelos 9 ou 10 anos, copiava versos de Almafuerte, um poeta argentino do século 19, para tentar conquistar o primeiro de seus grandes e definitivos amores, uma menina vizinha que talvez se chamava Ana. Digo talvez porque ele mesmo não se lembrava ao certo. A menina não deu a menor confiança e Juan decidiu escrever seus próprios versos. Em vão. “Ela seguiu seu caminho”, dizia Juan com sua voz de madrugada, “e eu fiquei com a poesia”.

Na verdade, a poesia tinha chegado antes. Filho de imigrantes judeus russos, Juan nasceu no bairro portenho de Villa Crespo. Na primeira infância, seu irmão mais velho, Boris, lia para ele, em russo, versos de Pushkin. Ele não entendia as palavras: entendia a melodia das palavras. Assim descobriu a poesia. A função da poesia, descobriu mais tarde. E dela viveu para sempre, nela viverá para sempre.

Publicou seu primeiro livro, Violín y Otras Cuestiones, em 1956. Trazia um prólogo carregado de entusiasmo, escrito por um poeta maior, um mestre rigoroso chamado Raúl González Tuñón. Juan tinha 26 anos.

Esta voz, notável e singular na poesia do idioma castelhano, teve momentos – longos momentos – de silêncio. Quando soube do desaparecimento de seu filho Marcelo e de sua nora grávida, Maria Cláudia, sua mão secou. Ele havia saído da Argentina em 1975. Lembro bem da vez em que nos despedimos, na redação da revista Crisis, que Eduardo Galeano dirigia em Buenos Aires: um paletó de tweed, os bigodes eternos, um sorriso estacionado num canto da boca, uma mala pequena, quase maleta, um embrulho na mão esquerda. Nunca entendi aquele embrulho. Nunca perguntei o que havia nele.

Passou um tempinho, veio o golpe, veio a ditadura, e no dia 24 de agosto de 1976 um grupo de militares – pouca gente, o suficiente – foi até a casa onde Juan havia morado. Levaram seu filho Marcelo, de 20 anos, sua nora Maria Cláudia, de 19. Treze anos depois, Juan conseguiu recuperar os restos do filho. Estavam dentro de um barril de aço, mergulhados em cimento. O barril foi tirado das águas do Rio da Prata. De Maria Cláudia, soube-se que tinha sido mantida viva. Foi levada para o Uruguai, dentro da Operação Condor. Mulheres grávidas eram preservadas, uma espécie de troféu. Logo depois de terem seus filhos, eram mortas. E os bebês eram entregues a militares ou policiais. Tudo isso era parte do plano sistemático e macabro do terrorismo de Estado praticado pelos militares argentinos. Havia uma lógica sinistra: filhos de terroristas não podiam ser criados por famílias de terroristas. Seriam contaminados.

Marcelo e Maria Cláudia nunca foram terroristas. Eram militantes estudantis. E a única arma empunhada por Juan foi sempre a palavra. Mas isso não importou. Maria Cláudia teve uma filha, nascida num quartel uruguaio. Vinte dias depois, o bebê foi dado de presente a um chefe de polícia. Cresceu achando que aquela era a sua história. De Maria Cláudia, nunca mais se teve notícia. Foi morta, e é só.

Assim que Juan soube do sequestro de Marcelo, e ele sabia que naquela Argentina ser sequestrado significava ser assassinado, foi abandonado pela poesia. Foram anos sem conseguir escrever. Uma vez, me explicou: “A poesia é uma senhora que nos visita ou não. Convocar essa senhora é uma impertinência inútil. Durante uns bons quatro anos, o choque do exílio e da dor fez com que essa senhora não me visitasse. Já tinha acontecido antes, é verdade, mas nunca por um tempo tão prolongado”. Um dia, a senhora voltou. E não o abandonou jamais.

E como eram essas visitas e essa permanência? Dizia Juan: “Na verdade, é como uma obsessão. Uma espécie de ruído junto ao ouvido. Escrevo para entender o que está acontecendo. Em determinado momento, essa obsessão me leva a escrever. É sempre uma obsessão muito forte e meio nebulosa. Quando você começa a escrever, a obsessão está num ponto muito elevado, e a expressão dessa obsessão, num ponto muito baixo. Quase sempre a expressão traz elementos de uma obsessão anterior, que ficaram incrustados na memória. Isso aparece naquilo que os estudiosos chamam de ‘técnica’, de ‘estilo’. Qual o quê. À medida que você vai escrevendo, a obsessão baixa, e aumenta sua proximidade em relação à expressão. Há um ponto em que elas se cruzam, e aí, então, surge o poema”.

Achava graça na própria explicação. E rindo seu riso travesso, dizia de lado: “O que eu faço, na verdade, é buscar. A partir de uma certa idade, você percebe que escrever deixou de ser vocação e virou vício. E, você sabe, é preciso cultivar algum vício nessa vida...”.

O vício – esse vício – manteve Juan vivo, desde que enfrentou a dor maior de um ser humano, que é a de enterrar o próprio filho. E antes, enquanto durou a busca alucinada primeiro pelos restos do filho e, ao mesmo tempo e depois, pela filha do filho. Juan encontrou sua neta, Macarena, no ano 2000. Devolveu a ela sua história, roubada 24 anos antes. E ela devolveu a ele o direito de ser avô.

Juan Gelman morreu em casa e em paz. Uma paz que não teve ao longo da vida. Muitos, muitos anos antes, havia escrito um poema estranho: “Um homem morreu e estão juntando seu sangue em colherinhas/ querido Juan, morreste finalmente./ De nada serviram teus pedaços/ molhados em ternura./ Como foi possível/ que tu fosses embora por um furinho/e ninguém tenha posto o dedo/ para que ficasses?”.

É o que me pergunto até agora. Durante 40 anos fomos de uma amizade fraterna. Ele foi-se embora levando um pedaço da minha alma.

ERIC NEPOMUCENO É ESCRITOR E TRADUTOR, AUTOR DE QUARTA-FEIRA E ANTOLOGIA PESSOAL (AMBOS PUBLICADOS PELA EDITORA RECORD), ENTRE OUTROS TÍTULOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.