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O ar que falta e o preconceito que abunda

É preciso ter esperança na cura das mentes atormentadas pelo preconceito

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 03h00

A sensação de tristeza devastadora tem raízes familiares. Juntou-se à bipolaridade e emigrou das crises europeias para o Brasil. O protagonista viveu uma espécie de herança sombria de depressão com explosões de humor. A tal herança não impediu a vida: o pai e o avô conheceram momentos de heroísmo diante da barbárie nazista. O brasileiro, Luiz, construiu uma carreira de sucesso junto a uma esposa amada e brilhante. A vida flui, mas, ao lado de cada nascer do sol, a pantera silenciosa da tristeza total ronda a cena. Aqui, dei pequenos traços de uma narrativa corajosa e bem-feita: O Ar que me Falta, de Luiz Schwarcz, texto biográfico editado pela Companhia das Letras. 

Eu tinha lido O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon. A obra, grande e densa, trazia também uma narrativa pessoal, porém, tentava ampliar a busca pelas raízes da depressão. Quase tudo o que sei sobre o fenômeno tinha saído do livro de Solomon.

Todos temos amigos e parentes com algum traço das redondezas das zonas cinzentas da alma: depressão, ansiedade extrema, bipolaridade, agorafobia e outros males. São doenças e ainda precisamos superar a psicofobia, ou seja, o preconceito com questões psíquicas. Descrevi a pantera para a narrativa do Luiz. Na verdade, a consciência humana convive com uma manada de transtornos variados. Alguns convivem com seus lobos, panteras e serpentes com certa autonomia. Há pessoas paralisadas e impedidas de prosseguir, como um tuberculoso é impedido de correr longe com seu pulmão comprometido. Temos absoluta compreensão com alguém que tosse sangue; raras vezes, entendemos que há cérebros sem ar que engolem angústias absolutas e maiores do que a mais forte das vontades.



A medicina psiquiátrica cresceu muito e, hoje, traz a marca do maior conhecimento e de novas concepções sobre o complexo mundo da mente. Há duzentos anos, o doutor Philippe Pinel (1745-1826) libertou doentes mentais  de masmorras. Insistia que as doenças psíquicas eram, enfim, doenças. Lutou muito em sua época. 

O rio do conhecimento viu surgirem novas correntes como Sigmund Freud (1856-1939), pensador revolucionário e fundamental. Havia muito a aprender e cada época trouxe suas dúvidas renovadoras e seus erros ancestrais. O doutor Antônio Egas Moniz (1874-1955) avançou na técnica da arteriografia cerebral e ganhou Prêmio Nobel. O médico havia tratado Fernando Pessoa. Diante de casos graves de pacientes agressivos com alterações de comportamento,  o médico desenvolveu uma técnica de intervenção chamada de leucotomia pré-frontal. O resultado era um paciente dócil, sem agressividade e, na maioria das vezes, sem vontade própria. A técnica foi abandonada como medida psiquiátrica, mas deve ser entendida como uma resposta em uma época sem medicamentos muito eficazes diante de pacientes com riscos de homicídio ou suicídio. Uma irmã do famoso presidente Kennedy, Rosemary, foi submetida ao processo. A menina tinha deficiências cognitivas e alguns comportamentos agressivos. O patriarca Joseph Kennedy achou que era intolerável essa vergonha na família e autorizou (sem conhecimento da esposa) dois cirurgiões, Walter Jackson Freeman e James W. Watts, a fazer um procedimento agressivo de lobotomia nela. A jovem de 23 anos perdeu quase toda a mobilidade e poder de fala. Faleceu em 2005, sempre discretamente escondida pela família em clínicas. 

Pessoas com especificidades comportamentais já foram exorcizadas, presas, lobotomizadas ou, geralmente, marginalizadas como algo constrangedor para a família. Depressão, por exemplo, é quase sempre vista como falta do que fazer, incapacidade de se ocupar ou simples “frescura”. Amamos pessoas do passado que produziram muito e que eram muito atormentadas por pensamentos fixos ou melancolias graves. Fácil elogiar o paciente do doutor Moniz, Fernando Pessoa, ou o grande Van Gogh ou a terrível depressão que acompanhava Michelangelo. Difícil é o parente ou colega de trabalho. O citado poeta português dizia que “para ser cadáver, só me faltava morrer”.

Eu já fui uma pessoa que tinha dificuldades para entender comportamentos ditados por algum transtorno. Tive de ler muito para não pensar mais de forma equivocada. Pude entender que eu me levantava de forma natural todas as manhãs e ia pela rua observando o dia claro ou as tarefas pela frente. Finalmente, com muito desejo de conhecer, entendi que há pessoas para quem cada dia é um peso insuportável e sair do quarto, uma luta por vezes vencida com esforço enorme e, amiúde, uma derrota avassaladora. Entendi que a rua é um ambiente opressivo e sufocante para muita gente e que explosões de raiva ocorrem fora de controle para bipolares. Para muitos dos casos citados, a medicina cresceu e oferece acompanhamentos e medicamentos com relativa taxa de controle e eficácia. Alguns funcionarão como diabéticos por toda a vida: seus remédios de controle de humor ou antidepressivos passam a fazer parte da rotina. Hoje, pela manhã, ao tomar minha dose de estatina para controlar meu fígado que é entusiasmado na produção desenfreada de colesterol, pensei nisso. Eu tenho uma especificidade hepática que deve ser controlada por medicamento.  Tomo minha dose recomendada pelo meu médico Jairo Hidal e inicio o meu dia, controlando o desvario de um órgão meu. Sou uma pessoa normal, porque meu mal não provoca tiques, movimentos bruscos ou frases inadequadas. Se ao lado da estatina, eu tomasse um antidepressivo, algumas pessoas diriam que devo estar desocupado ou sem Deus no coração. Depressão e colesterol, hoje, podem ser controlados. Preconceito continua uma doença complicada. É preciso ter esperança na cura das mentes atormentadas pelo preconceito. 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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