O ar fresco que bellocchio traz

O diretor Marco Bellocchio, considerado o maior da Itália atual, não anda lá muito satisfeito com Veneza. Depois de perder um festival com um filme que merecia o Leão, Bom-Dia, Noite (sobre o caso Aldo Moro), reservou o seguinte, Vincere, ao festival concorrente, o de Cannes. E agora exibe o novo, Sorelle Mai, fora de concurso. Mas talvez esse fosse mesmo o lugar ideal para filme tão doméstico. E encantador.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 00h00

Lá está ele, de novo, em Bobbio, a província de sua infância e jamais abandonada de todo. São seis episódios, interpretados por vários atores, entre eles Pier Giorgio, Elena, Letizia, Maria Lusa - todos estes de sobrenome... Bellocchio. São, respectivamente, filho, filha e irmãs do diretor. Os seis episódios foram filmados em seis anos diversos (de 1999 a 2008) e contam a história de Elena, de sua mãe Sara (Donatella Finocchiaro), irmã de Giorgio (Pier Giorgio Bellocchio) e do difícil relacionamento dos dois. A mãe é atriz e mora em Milão. A garota permanece em Bobbio com as tias. Giorgio aparece e some, sempre às voltas com namoradas novas e negócios fracassados.

É a história de uma família, de um lugar, de relacionamentos duradouros e efêmeros. "Falo das coisas que vão e de outras que permanecem", diz Bellocchio. Há cenas do cotidiano, há humor (nas tias que, previdentes, pretendem ampliar o jazigo da família) e responsabilidade social, num dos melhores episódios. Uma professora cansada (Alba Rohrwacher) reprova um aluno no conselho de classe, acusando-o de distraído. Depois, em casa, pensa melhor e reconsidera: a distraída era ela, preocupada demais com seus assuntos pessoais para prestar atenção ao aluno.

O filme é ar fresco no ambiente carregado do festival, com tantos filmes empenhados e que às vezes confundem a seriedade do assunto tratado com a rigidez da realização. Em Sorelle Mai tudo flui. É um filme sobre o tempo, sobre o devir, o rigor das coisas como elas são, a doçura do momento presente e o devir inevitável, que tudo carrega. Um filme fluvial. Não por acaso, o episódio final, o desfecho se dá no rio que banha a pequenina Bobbio. Bellocchio é um mestre absoluto do cinema. Mestres sabem tocar seu instrumento em vários registros. No operístico de Vincere ao delicado e poético de Sorelle Mai. "É um filme feito com afeto, mas sem nostalgia", diz Bellocchio.

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