O aquecimento mexicano

Se tudo correr bem, estarei na cidade resort de Cancún, no México, quando você receber estas mal traçadas. Vou a trabalho. Juro.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Lá acontece, neste momento, a COP-16, uma enorme reunião das Nações Unidas cuja finalidade é... salvar a humanidade. Participam todos os países. O objetivo é elaborar um acordo para que se diminuam as emissões de gases de efeito estufa, a ponto de estabilizar a temperatura média da Terra em dois graus ou menos. Um aumento de mais de dois graus é considerado perigoso, quiçá trágico, por milhares de cientistas ao redor do globo. Corremos o risco de enfrentar secas e chuvas descontroladas, de perder florestas e recifes de corais. O nível do mar pode subir. O gelo vai acabar, ou pelo menos ficar mais caro. Um grau já foi. Já faz mais calor no planeta. Vai levar um bom tempo para o clima esfriar de novo.

Se você for um leitor assíduo, pode protestar: "Uai, o Shirts não acaba de voltar de um encontro da ONU no Japão com essa mesma meta? Ele não foi ao dentista por lá?"

Sim, é verdade. Fui à COP-10, no Japão, mas essa é dedicada à preservação da diversidade biológica. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diz o meu amigo Marcão Sismotto.

O número 16, de Cancún, indica que esta é a 16.ª reunião no gênero. A anterior, a 15.ª, você deve lembrar, foi em Copenhague, na Dinamarca. Lá estiveram Dilma, Lula, Serra, Marina, Gilberto Gil, sem falar da Hilary e do Obama, entre centenas de outras autoridades. Este ano acharam melhor fazer o encontro sobre o aquecimento global em um lugar quente. Para mim, faz sentido.

Na trilha da diversidade biológica foram feitas já dez grande reuniões mundiais da ONU. A última foi em Nagoya, no Japão, a COP-10. Tudo isso, tanto as reuniões do clima quanto as da biodiversidade, começou, acredite se quiser, no Brasil, em 1992, no Rio-92, conhecido no resto do mundo como Eco-92. Foi lá, na ocasião, que a portuguesa Tereza Heinz, dona do império de ketchup, conheceu o senador John Kerry, futuro candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos (2004). Tomaram umas caipirinhas, imagino, e, bem, o resto é história. Mas este é apenas um detalhe, para não chamá-lo de digressão.

Você pode perguntar, e não sem razão: se já fizeram tantas reuniões, por que ainda não resolveram o problema?

Não é fácil, convenhamos. O aquecimento global é provocado pela queima de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, óleo diesel), pelo desmatamento, pelos arrotos dos bois (sério), por quase tudo que o homem vem fazendo desde o início da revolução industrial no começo do século 19. A industrialização trouxe uma riqueza nunca antes vista na história da humanidade. Graças a ela, pessoas comuns puderam se livrar de uma busca diária pela subsistência. A saúde da humanidade melhorou. As pessoas vivem mais. Sem a revolução industrial não existiriam televisão, jornal diário, revistas - e videogame, nem pensar.

Mas a revolução industrial trouxe, também, um aumento monumental de população. Levamos milhares de séculos para chegar à marca de 1 bilhão de pessoas, em 1800. Em 2011, no ano que vem, 211 anos depois apenas, segundo a próxima edição da revista National Geographic Brasil, a população mundial vai superar 7 bilhões de habitantes.

Todos nós geramos gases de efeito estufa. O acúmulo deles forma uma espécie de grande cobertor em torno da Terra. De um modo geral, os ricos emitem mais do que os pobres. Mas se antes eram tão somente as regiões mais avançadas - EUA, Europa, Japão - as responsáveis pelo aquecimento global, hoje China, Índia, Indonésia, Rússia e mesmo o Brasil contribuem para o problema na mesma medida ou quase.

Não quero trazer más notícias logo cedo na segunda-feira. Mas a verdade é que não vai ser fácil resolver a situação, que é crítica. Nos Estados Unidos, o ministro de Energia e ganhador do Prêmio Nobel de Física, Steven Chu, comparou este momento ao do lançamento do Sputnik em 1957, em meio à Guerra Fria. Foi esse desafio que levou os Estados Unidos a colocarem um homem na Lua.

Zerar o aquecimento global é mais difícil do que viajar no espaço. Exige que todos os países do mundo desenvolvidos e em desenvolvimento façam a transição para um novo modelo econômico, conhecido como a economia de baixo carbono, movido a energia limpa (vale etanol de cana). Foram feitos avanços significativos na preservação da diversidade biológica na COP-10, em Nagoya, liderados pela ministra Izabella Teixeira, do Brasil. Vamos torcer para que aconteça o mesmo com o aquecimento global em Cancún. As duas trilhas, a da biodiversidade e a do clima, vão se cruzar, ainda, no Rio +20, outro grande evento da ONU, este de desenvolvimento sustentável, marcado para maio de 2012 no Rio. Não seria bacana se se festejasse, na Cidade Maravilhosa, o cumprimento de pelo menos uma etapa do que se começou a fazer 20 anos atrás? Qual será o romance que vai começar desta vez?

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