O apagão apagou a ceia de Natal

Sobre as toalhas brancas, manchas de vinho e pingos de cera sólidos. Há velas que arderam inteiramente, outras apenas metade. A chuva - e que chuva, que raios - já havia terminado, os primeiros convidados tinham chegado quando a escuridão se fez em toda a região. O computador da empresa de energia informava laconicamente: momento crítico em São Paulo. Isso estávamos vendo dentro de casa.

O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h08

Estávamos montando a ceia de Natal, ultimando detalhes, quando as luzes se apagaram. Sorrisos: vai voltar logo. Olhando para fora, só víamos janelas escuras, bocas negras. O vinho foi aberto. Meia hora mais tarde, veio a preocupação. E se a energia não voltar? Tinha sido uma ceia longamente preparada para Marize, nossa matriarca. A primeira dela em São Paulo. Após uma vida inteira, deixou a cidade natal e veio para a capital morar perto das filhas. Um apartamento abaixo do nosso vagou, alugamos para ela, amenizando a adaptação.

Os convidados eram familiares, parentes próximos, amigos que ela não encontrava havia muito. O clima era bom, de expectativa, cordial. Cada família levou uma coisa, durante a tarde. Assados, tenders, bolos, vinhos, refrigerantes, frutas secas. Todos, com uma exceção, a de um ex-genro, o Jorge, que chegaria à noite com o peru. Então, puf, nosso pedaço mergulhou na obscuridade. Buzinaço, congestionamentos, apitos estridentes da CET, o caos se esparramou pelo bairro de Pinheiros.

Um telefonema pelo celular, o primeiro problema. Um dos casais, que já passara a marca dos 80, ficou em dúvida. Como subir 13 andares? Ambos tinham boa vontade, não tinham pernas. Outra mulher, a Rose, viera de Porto Alegre para passar junto ao filho e perto de Marize. Rose também não poderia subir. Então, a própria Marize igualmente que não subiria os 11 andares entre o apartamento dela e o nosso, era demais. Desde que - ela também ultrapassou os 80; tem 81, ainda que garanta que está com 89 - caiu e quebrou o fêmur, andar é um sacrifício. Baixas se sucederam.

Assim, de repente, aquele apagão - que não tem culpados (Não é Dilma? Não é Alckmin?), são os raios, as chuvas, os ventos, o destino, a incompetência ou os equipamentos apodrecendo - estilhaçou uma festa de Natal. Dividiu o grupo. Na hora foi lembrado o Muro de Berlim. Um lado, o nosso, tinha tudo, as bebidas, as comidas, os aperitivos. Era o lado ocidental. O outro, tinha apenas um peru, nada mais. A ser dividido por dez. Era o lado "comunista". Como vivi essa situação nos anos 80, quando morei naquela cidade. Esplendor de um lado, pobreza do outro. Pensamos em alguém apanhar o carro e levar umas garrafas. Mas e os semáforos apagados? A rua parada? Marize, do segundo andar, pediu: podem trazer a minha ceia? Desceram pelas escadas, pratos e bandejas nas mãos. Os que ficaram, comiam aperitivos. A luz acendeu, ouviu-se um aaaaaahhhh em toda a parte (igual àquele antológico "Chupa Carminha!") e um minuto depois apagou.

A árvore de Natal ficou sem iluminação, com inúteis e desconsolados cordões de luzes que os netos tinham escolhido. Comidas em fim de preparação. O que dependia de um toque final de micro-ondas ficou frio. O forno foi aceso com fósforos. Outra odisseia: quem acha fósforos numa casa, no escuro, a uma hora dessas? O tender estava pronto, assim como a maionese, restava a decoração. Para olhar o lombo sendo assado, levavam a vela à boca do forno, porém a luz bruxuleante era insuficiente.

Comemos à luz de velas, tentando consolo no romantismo, trocando informações pelos celulares, cujas baterias logo pifaram. "E aí no lado comunista?", perguntávamos. Eles riam: "É, mas o lado comunista tem luz. Dividimos irmãmente o peru. Só que ficamos sem presentes." Como todos os anos, para evitar aquele excesso de presentes - há quem dê muitos, levado pela generosidade, ocasionando um desequilíbrio -, combinou-se usar o velho amigo secreto. E agora? Os que não tinham podido vir?

Uma fórmula chinesa, lembrada pela prima Liz, foi aplicada. Cada um recebe um número. O primeiro olha a pilha de pacotes, apanha o que mais lhe convém, agradecia. E assim por diante. Porém, se um dos convidados decide que prefere "roubar" de alguém que já escolheu, pode. Vai lá e sequestra. Dessa maneira, escolhas e "roubos" se sucederam até o último. Então, pacotes foram abertos, muito homem recebeu creme de beleza (mulher adora dar), mulher recebeu cueca ou barbeadores de última geração, terminei com um ralador de queijo elétrico, providencial. Dali em diante, começaram as negociações, entre risos. Risos na escuridão.

As velas ameaçavam extinção, iam diminuindo. Somos uma civilização que depende da energia elétrica. De repente, a luz se fez, à meia-noite. Gritos ecoaram de todas as janelas. Marize subiu para receber abraços e presentes. Estava feliz, conversava. "Cadê o resto?", perguntou. Afinal, queria ver a amiga Rose que veio do Sul. "E a Margô, o Jorginho, o doutor Gerard, a Bia, a Betina, as meninas da Bia?" Estas tinham vindo dos Estados Unidos, onde moram. Pequenas decepções. Ainda teve uma hora de doces, frutas. Uma nova garrafa de vinho foi enxugada. Muitos tinham idade para lembrar a velha comédia com Doris Day, Onde Estavas Quando as Luzes se Apagaram?.

Já que não existe política energética, nem ministro, nem responsável, ganhamos blackout no Natal e fica por isso. Anotamos em nossos deveres para 2013: muitas velas. Fósforos. Lanternas e pilhas suficientes. Lampiões. Coolers cheios de gelo. Se possível, um gerador. Lembrei-me que à tarde, fazendo as derradeiras compras, percebi que muitos comerciantes têm um gerador ao lado do estabelecimento. Ou, no próximo ano, combinar tudo com quem tem casa térrea. Viva Lula, viva Dilma, viva Lobão, viva Alckmin, que têm helicópteros e provavelmente geradores pagos por nós. E disseram que não há apagões. Esperem até a chuva cair.

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