O anti-herói contra as convenções

Nascido há 130 anos, Lima Barreto fez do protagonista de Triste Fim de Policarpo Quaresma, que completa um século em 2011, mais do que mera caricatura, como supôs parte da crítica, um personagem de raro calibre estilístico

Antonio Arnoni Prado, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

Francisco de Assis Barbosa declarou por mais de uma vez que Lima Barreto veio reescrevendo o Gonzaga de Sá por cerca de 13 anos. De fato, já na primeira entrada (sem data) do Diário de 1906, e depois num registro do mês de abril, surpreendemos o escritor tracejando minuciosamente a composição de cenas, tipos, resumos e ordenação de capítulos, roteiro de traços e marcas para a descrição do personagem Gonzaga, ainda com o nome provisório de Sá-Bragança, aí incluindo a transcrição de alguns de seus pensamentos.

O cruzamento dessas notas de composição com os esboços preliminares do Policarpo Quaresma vão gradualmente afinando uma intenção literária, de técnica e de estilo, que a crítica esteve longe de reconhecer, ao transformar os desabafos da miséria e do preconceito no Isaías Caminha em ponto de convergência para a interpretação do conjunto da obra do romancista.

No Gonzaga e no Policarpo Quaresma, o tom é muito diverso do que predomina na preparação e nas reflexões sobre o Isaías Caminha, como é possível observar, por exemplo, na entrada de 16 de julho de 1908, em que Lima Barreto demonstra muito pessimismo, parecendo mesmo não acreditar no projeto do livro. Nessa entrada, depois de confessar que não encontrava mais energia para continuar lendo; que sentia náuseas de tudo que não fosse o álcool e que só podia contar com os seus próprios irmãos, é assim que se refere ao Isaías Caminha: "Tenho um livro (trezentas páginas manuscritas), de que falta escrever dois ou três capítulos. Não tenho ânimo de acabá-lo. Sinto-o besta, imbecil, fraco, hesito em publicá-lo, hesito em acabá-lo".

Pode-se talvez justificar, sem concordar com os excessos da crítica, que o espírito de Lima Barreto na composição do Isaías Caminha reflete todo aquele ruminar dos preconceitos e desenganos que o autor experimentou e expôs com mais amargura ao longo dos diários dos anos de 1903 a 1907, num tempo em que, como ele mesmo confessa, ainda "temia pôr em papel impresso" as suas ideias. Para o Gonzaga e o Policarpo Quaresma, ao contrário, ele demonstra canalizar o projeto de um tema crítico desligado do biografismo excessivo da figuração à clef, como foi o caso do Isaías Caminha, dado que naqueles parece haver uma intenção autoral mais sedimentada na busca de um horizonte maior, entre a história política e a realidade social, como deixa entrever a construção de um herói que investe contra a ordem para afinal confirmá-la.

Sob esse aspecto, se o Policarpo Quaresma de algum modo reflete a necessidade de compor um argumento mais descolado das circunstâncias biográficas e da elocução do desengano com que foram esboçadas as recordações do Isaías Caminha, o romance Gonzaga de Sá parece concentrar em si a consciência da maturidade, para a qual se impunha a conquista de um apuro técnico mais refinado e à altura de compor a trajetória de um personagem que se harmonizasse ao contexto da dicção quase ensaística que atravessa os movimentos do livro.

O que sobressai desses três momentos na evolução da consciência literária de Lima Barreto é que tanto o Policarpo Quaresma quanto o Gonzaga de Sá foram lidos pela crítica a partir das duas restrições que José Veríssimo encontrou na construção do Isaías Caminha, em carta que enviou ao romancista a 5 de março de 1910: o excessivo personalismo e a incontinência verbal que banaliza a imaginação inventiva propriamente dita. Ocorre que esses "defeitos graves", que José Veríssimo circunscreveu ao romance de estreia, outros críticos fizeram expandir para o conjunto da obra, como foi o caso, por exemplo, de João Ribeiro, que em artigo de 1917 para o Imparcial retoma a pecha do "defeito grave", dando-a agora como um sintoma "dos romances" de Lima Barreto, numa direção que punha em dúvida a própria capacidade narrativa do romancista, ao lhe negar a habilidade para conduzir os relatos "a um razoável acabamento".

Ora, o primeiro dado crítico que se perde nessa dilação indevida é que se a constatação de Veríssimo se justificava por corresponder a uma fase febricitante e cheia de pulsões negativas no cotidiano moral e pessoal do escritor, as restrições de João Ribeiro, embora coexistindo - como revelam os diários - com uma etapa intelectual mais amadurecida do projeto literário do romancista, retrocedem, em outro contexto, ao tópico do biografismo exacerbado, fundindo-o às "fragilidades da composição" e pondo assim a perder a riqueza dos motivos imaginados em vista de sua incompetência para estruturá-los artisticamente.

Com isso, personalismo e rebeldia social desbragada e sem critérios como que se juntam na expressão de um estilo cheio de desleixo e despeito, de ressentimento incontido por parte de quem ataca por atacar, insensível à lógica das diferenças. É verdade que, sob certo aspecto, o Triste Fim de Policarpo Quaresma é apenas o preâmbulo de uma atitude crítica que só depois vai se radicalizar e produzir efeitos concretos na irreverência das sátiras e das crônicas, na ampliação temática dos contos e na fragmentação do espaço romanesco, sem falar na prontidão dos contrastes e na lucidez dos desfechos com que avivou a escrita jornalística de seu tempo.

Para ficar apenas no âmbito dos estudos sobre o Policarpo Quaresma, que completa este ano o centenário de sua publicação em 52 folhetins pelo Jornal do Comércio entre os dias 11 de agosto e 19 de outubro de 1911 - e ganha edição Penguin-Companhia -, talvez valha a pena mencionar até onde e de que modo se expandiu no tempo o alcance dessa redução indelével que moldou a fortuna crítica do autor de Clara dos Anjos.

Um aspecto preliminar é que a uniformidade de seus efeitos, ao mesmo tempo que aproxima críticos os mais dessemelhantes, aproxima igualmente - mas na direção oposta - a opinião dos escritores e poetas, quase todos unânimes em celebrar a vocação literária de Lima Barreto. Jorge Amado, entre esses, chega mesmo a denunciar publicamente uma "campanha de silêncio" contra Lima Barreto, proposta pelos "senhores intelectuais" da crítica brasileira, para os quais "é como se Lima Barreto não houvesse existido", justamente ele que, como romancista - acrescenta - exerceu uma influência decisiva na formação das novas gerações. E José Lins do Rego, que se confessa um "limista" da primeira hora, ao reafirmar esse esquecimento injusto e premeditado, não perde a ocasião para chamar de "eternos" a alguns de seus livros - "mais eternos, nos diz ele, do que os seus contemporâneos poderiam imaginar".

Mas não é só. De Rocha Pombo a Monteiro Lobato; de Gonzaga Duque a Rachel de Queiroz; de Jackson de Figueiredo a Osman Lins, passando por Mário de Andrade, Manuel Bandeira e João Antônio, em todos eles, as restrições ao personalismo imoderado e às imperfeições da linguagem como que se esvaem, para ceder lugar justamente à louvação daqueles venenos que, na opinião dos críticos, desfiguravam a obra, a personalidade do romancista, vistos agora por eles como sintomas de um inconformismo intelectual e humano, difícil de ser igualado por qualquer outro escritor interessado em combater as convenções retóricas que paralisavam a literatura da época.

No outro extremo, críticos antípodas como Sérgio Buarque de Holanda e Agrippino Grieco, por exemplo, como que se alinham, coisa rara de imaginar, na varredura meticulosa das restrições formais inauguradas por José Veríssimo e João Ribeiro. Sérgio, por julgar impossível escrever sobre Lima Barreto "sem incorrer no pecado do biografismo", indesatável de uma obra que, para ele, não vai além de "uma confissão mal escondida"; e Grieco, por julgar que faltavam a Lima Barreto o movimento, a intensidade e a verossimilhança que ele não soube exprimir como escritor, mas tão somente como homem, merecedor de toda admiração do crítico.

Ambos retomavam, de ângulos diferentes, as observações "positivas" do artigo pioneiro com que Oliveira Lima, em novembro de 1916, atribuía a Lima Barreto a grandeza autoral de reviver na tradição literária brasileira o papel representado pelo Quixote na literatura universal, sem contudo ter deixado de assinalar que se tratava de um autor levado antes pelo sentimento que pelas virtudes da técnica (Lima Barreto não se dava ao luxo de "rebuscadas psicologias": o leitor que tratasse de pescá-las nos escaninhos do relato). E também as distinções com que, no mesmo ano, em artigo que escrevera para a revista A Lusitana, Jackson de Figueiredo se encarregava de diluir as "qualidades excelentes" do Triste Fim de Policarpo Quaresma na sugestão de que o livro, "de caráter eminentemente panfletário", baralhava as vozes do ficcionista e do historiador.

Será preciso recorrer a Tristão de Athayde para verificar que tanto a imagem do Quixote quanto a excelência panfletária do Policarpo Quaresma não passam de projeções retóricas no sentimento de afirmação do homem marginalizado, que foi, para Tristão, "no mais puro sentido da palavra: um pobre". Um pobre, segundo ele, que escreveu "não para desabafar a sua ira contra os vencedores, nem para promover a revolução social, como um Plínio Salgado ou um Jorge Amado; nem a revolução espiritual, como um Jackson de Figueiredo; nem a revolução estética, como um Mário de Andrade". Mas escreveu, nos diz o crítico, "para se libertar, para sofrer menos e encher o trágico vazio das suas noites".

Tais motivos, no entanto, se parecem anunciar um esboço crítico pertinente, logo nos desalentam, ao reduzir o horizonte literário de Lima Barreto a um mero recorte de caricaturas retocadas pelo despeito, ainda que "magistralmente traçadas". João Ribeiro, ao menos, tentara uma justificativa profissional para explicar a origem dessa redução: Lima Barreto não chegara a dominar a arte do romance, porque escrevia para os jornais, e o jornalismo - para Ribeiro - "é sempre uma arte apressada e imperfeita que não deixa amadurecer e compor-se a congruência de obras mais complexas que reclamam delongas de meditação e estudo".

Mas ninguém foi mais longe que Gilberto Freyre na delimitação intelectual da arte escrita por Lima Barreto. Mesmo reconhecendo neste um poder de observação "quase sempre agudo", Freyre como que se sobrepõe à hipótese de José Veríssimo, ao ver nessa virtude um esforço apenas desordenado e sem qualquer lastro para se transformar no que ele chama de "um saber sistemático". "A Lima Barreto faltou formação universitária ou seu justo equivalente", é o que dirá convicto, para nos explicar que o conhecimento que o escritor reuniu sobre os assuntos de sua predileção, "vê-se pelo seu diário que foi um saber desordenado e, como ele próprio, boêmio".

Se isso vale para a ficção, talvez caiba acrescentar que Policarpo Quaresma não passa de um anti-herói desordenado e insuficiente para afrontar a realidade histórica contra a qual se rebelou. E não é só a ficção. Para Gilberto Freyre, faltou a Lima Barreto formação suficiente para compor a sonhada História da Escravidão Negra no Brasil, que anunciara com entusiasmo na juventude, mas não conseguiu escrever. Freyre não se faz de rogado: "Eu escrevi a meu modo o livro que ele mais desejou escrever", eis o que afirma, sem o menor constrangimento, ante a suposta incompetência de Lima Barreto, certamente pensando em Casa-Grande & Senzala.

Sob o fogo aceso da polêmica, Lima Barreto continuou driblando com picardia todas as imperfeições que lhe iam sendo atiradas, para o bem e para o mal. Lembremos que para Astrogildo Pereira o major Quaresma só veio a compreender a verdade trágica dos latifúndios depois que a consciência crítica do narrador, muito à frente do seu tempo, o resgatou daquela luta mesquinha e interminável "contra a esmagadora pressão do meio atrasado", levando-o a transcender "a exaltação anacrônica do quixotismo" para ser visto como uma voz mais próxima das reivindicações pela reforma agrária. Se isso basta para fazer de Lima Barreto, segundo Astrogildo, um dos nossos maiores romancistas, não podemos esquecer que Caio Prado Júnior, o editor de suas Obras Completas em 1956, o inscrevia entre os raros escritores - aí incluindo intelectuais, sociólogos e pensadores - que alcançaram "uma percepção tão clara e tão nítida do que é o Brasil".

Frente a esse conjunto de circunstâncias, fica mais do que claro que as investidas da crítica contra as impropriedades da linguagem e a inabilidade para o arranjo estético da composição literária não ficariam sem respostas. Dessas se encarregou justamente a comissão que, encabeçada por Francisco de Assis Barbosa, organizou a publicação das Obras Completas pela editora Brasiliense, de São Paulo.

À voz mais indignada de Assis Barbosa, que se dirige publicamente aos críticos que "formam na quinta-coluna literária" só para destacar na obra de Lima Barreto "o improviso, o remoque ou caricatura", seguiram-se as ponderações menos agastadas de Antônio Houaiss e Cavalcanti Proença; o primeiro preocupado em nos mostrar cabalmente que o romancista carioca, a par de ter feito sempre um "uso eficaz do instrumento da linguagem", jamais excluiu de sua convicção "a necessidade de compenetrar-se, tanto quanto pôde, de uma consciência artístico-linguística" do texto, de tal modo só os irresponsáveis poderão chamá-lo de incorreto; e o segundo - notável pela variedade dos planos com que costumava enriquecer as suas análises - convencido de que Lima Barreto "é um estilista que consegue recriar a realidade filtrada através de um temperamento artístico".

É assim que ele chega aos nossos dias, cada vez mais admirado pela força dos seus temas e pela riqueza talvez única de sua personalidade intelectual. Para falar com João Antônio, de Lima Barreto "está tudo aí, vivo, pulando, nas ruas, se mexendo, incrivelmente sem solução".

ANTONIO ARNONI PRADO É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNICAMP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE TRINCHEIRA, PALCO E LETRAS (COSAC NAIFY), ITINERÁRIO DE UMA FALSA VANGUARDA (EDITORA 34) E LIMA BARRETO:

O CRÍTICO E A CRISE (MARTINS FONTES)

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA

Autor: Lima Barreto

Editora: Penguin-Companhia

(368 págs., R$ 25)

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