Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

O ano de viver perigosamente para Mel Gibson

Ator e diretor guarda muitas semelhanças com Henrique VIII e assim como o rei pode estar vendo seu reinado ruir

Joe Queenan / GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Mel Gibson tem se mostrado há tanto tempo um ser humano repulsivo que é difícil lembrar quando ele não o é. Mas ele já foi uma pessoa adorada, considerado a oitava maravilha do mundo. Como disse o historiador AJP Taylor, quando alguma coisa está, hoje, muito no passado, é difícil lembrar que ela um dia foi uma promessa futura. Assim, pode chocar muita gente saber que Mel Gibson, como Paul McCartney e Sting, e mesmo Madonna, foi essa grande promessa.

Quando Mad Max foi lançado em 1979, os "hipsters" adoraram. Mas Mel Gibson também conquistou os críticos com seu excelente desempenho en Gallipoli e O Ano em Que Vivemos em Perigo, ambos dirigidos pelo jovem e talentoso Peter Weir. No início da sua carreira, ele representava tudo o que a indústria desejava: um australiano simpático, presunçoso e com muito charme. Nessa época, australianos com um charme natural eram uma novidade no setor cinematográfico. Já não são mais.

Agora que a carreira inteira de Mel Gibson está em suspenso, depois que o departamento de polícia do condado de Los Angeles abriu uma investigação sobre alegados atos de violência doméstica no meio do ano passado, não é possível prever se ele conseguirá sair do limbo.

Recentemente, o New York Times publicou um longo artigo especulando que, na verdade, a carreira de Mel pode ter acabado - apesar de sua próxima aparição em The Beaver, dirigido por Jodie Foster - vítima dos seus problemas domésticos, seus embates familiares no tribunais e seus acessos antissemitas e racistas.

Famoso por realizar um filme incômodo, provocando os judeus numa cidade onde eles não estão, absolutamente, sub-representados, e mais tarde voltar a atacar os judeus, quando de um incidente em que dirigia sob efeito de álcool e foi detido pela polícia de Malibu, até mesmo um produtor criativo e bem-sucedido como Mel percebe que a sua estrela finalmente se apagou e que seu navio levantou as velas e saiu para o mar para sempre.

Não tenho meios de saber se Mel Gibson achará uma maneira de sair da enrascada em que se encontra. É bom dizer que o mais popular jogador de futebol dos Estados Unidos no momento é um homem surpreendentemente talentoso, de 31 anos, que passou 18 meses na prisão por torturar e matar cães, quando operava uma rede criminosa de briga de cachorros - e pode receber o maior prêmio concedido a um jogador pela Liga Nacional de Futebol do país. O que prova, mais uma vez, que todo mundo, ou pelo menos muita gente, adora um vencedor.

Se Mel Gibson ressarcisse a namorada Oksana Grigorieva e sua filha, de quem está separado, fizesse as pazes com a ex-esposa e seus sete filhos, e se desculpasse com a comunidade judaico-americana, as mulheres em geral e a polícia de Malibu, e depois, talvez, dirigisse um filme comovente do tipo Coração Selvagem ou O Patriota - um filme sobre os Maccabees é uma sugestão - talvez conseguisse sair do buraco que cavou para si mesmo. Mas vai ter que trabalhar muito.

Se 2010 foi o ano em que Mel Gibson chegou ao fundo do poço, isso não é motivo de alegria, pelo menos do ponto de vista do cinéfilo (estava pensando no seu misterioso filme da era Viking, com Leonardo DiCaprio, cujos diálogos são inteiramente em viking).

Esta não é uma indústria que pode se permitir perder atores e diretores talentosos, já que não existem muitos. Além do que, não podemos falar das três últimas décadas de história do cinema sem incluir Mel Gibson nela. Ele é parte primordial dessa indústria, o tipo de ator (como John Wayne, Steve McQueen ou Clint Eastwood) que não ganha prêmios, mas sem o qual não haveria atores atuando em filmes.

Pense o que quiser dele, Mel Gibson é Hollywood. Assim, se a sua carreira está chegando ao fim, inesperadamente cedo - fato que muitas pessoas nos Estados Unidos e no setor cinematográficos estão desejando - este será um caso clássico de um grande amor que foi frustrado.

Mel Gibson é um ator sutil que se presta a muitos papéis, de comédia e drama, como demonstrou mais de uma vez em filmes tão diversos como Rebelião em Alto-Mar, O Homem Sem Face, Alta Tensão, Mrs. Soffel, Maverick, Do Que as Mulheres Gostam, Sinais e, claro, a série de enorme sucesso Máquina Mortífera.

Ao contrário de Tom Cruise e Harrison Ford, cujo trabalho nunca atraiu uma plateia muito exigente, Mel impressionou esse público logo no início com o admirado Gallipoli, seguido por O Ano Que Vivemos em Perigo, um filme mais reflexivo. Depois, vieram o segundo e terceiro Mad Max e ele se tornou o Mel Gibson que todos nós conhecemos. Atuou em muitos filmes medíocres e em alguns péssimos - como O Troco e Teoria da Conspiração -, mas, como ator, ele não estava mal neles. A proporção de bons filmes em que atuou, em relação ao total em que apareceu é grande; nesse sentido, ele se assemelha a Michael Douglas.

Riscos. Mel também gostava de se arriscar, às vezes - como foi o caso de Hamlet, quando se inseriu na longa lista de atores que, ou eram muito velhos (Laurence Olivier, Kenneth Branagh) ou muito manipuladores (como Jude Law) para ser o imaturo e indeciso príncipe dinamarquês. Se é verdade que, bem no início da carreira, ele decide contar com aquele olhar incrédulo e maroto, ou manter os lábios ligeiramente entreabertos ao falar com as pessoas, ou desviar os olhos dos outros atores para, repentinamente, lançar aquele olhar de soslaio para eles, esses cacoetes não eram mais irritantes do que os olhos semicerrados que são a marca registrada de Clint Eastwood, ou o sorriso luminoso de Tom Cruise.

Mel Gibson, como Steve McQueen, faz parte de um grupo de atores que estrearam no cinema já com uma bagagem em termos de interpretação e continuaram da mesma maneira nos 30 anos seguintes.

Alguns atores, talvez muitos, não correspondem às expectativas criadas quando estreiam na tela. Mas não foi o que ocorreu com Gibson; ele esteve tão bem em O Fim da Escuridão como em Gallipoli e Mad Max. Ao contrário de Robert De Niro e Al Pacino, que a esta altura da carreira parecem cansados e apáticos e não fazem muito esforço de interpretação, Gibson sempre encarou o trabalho como um profissional. Ele pode ser uma pessoa irreverente na vida real, mas não o é no cinema.

Ele é também um excelente, e sob muitos aspectos ousado, diretor. Coração Selvagem, um filme retrô, é um épico histórico vigoroso que lembra Ben-Hur e Doutor Jivago. O mesmo vale para O Patriota e o seu estranho e interessante Apocalypto, que não tem nenhum diálogo em inglês.

Na verdade, uma das coisas mais surpreendentes em A Paixão de Cristo, um filme cujo antissemitismo se assemelha a qualquer coisa escrita na Idade Média por alguém cujo pai não se importa muito com os judeus, é que é um filme bem-feito. Ao realizar esse projeto, Mel quis mostrar que as últimas 18 horas na vida de Jesus Cristo foram terrivelmente dolorosas. E conseguiu.

Embora tenha sido enorme sucesso financeiro, foi um tremendo erro do ponto de vista de relações públicas. Marcou o início de um período sombrio e lastimável da vida de Mel, do qual ele pode nunca mais ressurgir. Foi uma ideia estúpida realizar esse filme, uma decisão autodestrutiva, o que suscita um paralelo interessante entre sua carreira e a personalidade de alguns personagens que ele interpretou.

Teoria da Conspiração, uma produção sobre um homem que parece ter perdido a razão, é o exemplo mais óbvio. Mad Max, que fala de um homem contra o mundo, é um outro.

Mas o mais pertinente de todos é O Preço de Um Resgate, um remake sombrio do genial filme Céu e Inferno, de Akira Kurosawa, em que Mel Gibson interpreta um magnata que se recusa a pagar um resgate de US$ 2 milhões para ter de volta o filho sequestrado e, em vez disso, oferece uma recompensa de US$ 2 milhões pela cabeça do sequestrador.

Sem perdão. O Preço de Um Resgate é um filme sobre um homem cabeçudo que faz algo pelo qual jamais será perdoado, mesmo que a trama tenha um final feliz. É um filme sobre um homem admirado que despreza os valores básicos da sociedade para provar que está certo e se arrisca a destruir sua família no processo. O personagem interpretado por Mel, no filme, parece tão execrável quanto aquele que decidiu produzir um filme acusando os judeus pela morte de Cristo.

Há anos, o que me impressiona é como os filmes de Mel Gibson exalam um grande desprezo pelo império britânico. Gallipoli é um indiciamento da conduta britânica durante a Primeira Guerra Mundial. O Patriota, cujo clímax emocional é um massacre perpetrado por soldados britânicos, exibe um ódio dos ingleses que raramente observamos em filmes americanos, que costumam retratá-los invariavelmente como os primos arrogantes e afetados, mas jamais como monstros.

Rebelião em Alto-Mar é marcado pelo antagonismo entre oficiais e marujos, é um ataque ao sistema de classes britânico; e Coração Selvagem é também um ataque implacável contra a Inglaterra em geral. O comportamento antibritânico é irônico porque a carreira de Gibson se assemelha à de Henrique VIII, um jovem muito admirado, garboso, vaidoso, que acabou se tornando um sociopata que não conseguia se dar bem com as mulheres. Diga o que quiser, os dois homens tiveram carreiras fascinantes.

A propósito, Henrique VIII viu seu reinado chegar ao fim quando tinha 55 anos. Mel Gibson completou 55 no dia 3 de janeiro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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