O ano da redescoberta de Caio Fernando Abreu

Quase dez anos após sua morte, Caio Fernando Abreu volta aos holofotes. Desde abril, o escritor vem tendo sua obra relançada pela editora Agir, terá um de seus livros mais famosos (Onde Andará Dulce Veiga?) levado para as telas do cinema em 2006 e esteve em cartaz por duas vezes no teatro. Caio era assumidamente gay e alguns de seus textos eram fortemente permeados pela diversidade sexual. Marcos Mendes /AECaio F., como ele assinava cartas para os amigos, em foto de 1993Os textos de Caio F. (assim ele assinava cartas para os amigos) foram parar na internet, ganharam várias comunidades no orkut e um verdadeiro escambo de contos passou a acontecer. A jornalista e artista plástica Paula Dip foi amiga íntima de Caio e agora escreve uma biografia sobre o escritor com base nas cartas e faxes que trocavam. No orkut, as quatro maiores comunidades sobre Caio já somam mais de 4.200 membros. Moderador da maior delas, o carioca Egídio La Pasta explica como se dá a interação entre os leitores pela web. "A comunidade aponta em direções mil. Tem o pessoal dos trechos, que cita os livros, e acontece uma troca interessante." O jornalista Thiago Soares, autor da tese de mestrado A Prosa Videoclíptica de Caio Fernando Abreu, explica os motivos. "Caio é atual por falar de solidão, de dramas urbanos, temáticas contemporâneas que podem ser facilmente transportadas para outras mídias. Sua prosa é quase cinematográfica", afirma. "A obra dele já foi levada para o teatro, para o cinema, está na internet, só falta a TV ter peito de incorporá-lo à dramaturgia", diz Breda. "Talvez não demore muito para isso acontecer. Tenho pensado numa minissérie com os contos dele." BiografiaSobre as cartas de Caio F., Paula Dip conta que "por muitos anos, guardei as cartas que ele me mandava e nem tinha coragem de olhar, era meio dolorido", conta Paula. A escritora revela ainda que o projeto do livro é justificável por um acordo feito por ambos em tom de brincadeira. "Tínhamos um pacto de um escrever a biografia do outro." O cineasta Guilherme de Almeida Prado conheceu Caio na década de 1980 e chegou a dividir apartamento com o autor durante um ano. Atualmente, finaliza o longa-metragem Onde Andará Dulce Veiga?, baseado num dos livros de maior sucesso do amigo. "Escrevemos um roteiro antes mesmo de ele fazer o livro, foi um projeto que ficou muitos anos em nossas vidas", revela Guilherme. O filme teve orçamento de R$ 6 milhões e deve chegar às telas no próximo ano. O filme terá um personagem chamado Caio (vivido por Eriberto Leão), Maitê Proença no papel-título e Carolina Dieckmann interpretando uma cantora lésbica. Caio 3D - O Essencial da Década de 1980 é uma recém-lançada coletânea que traz contos e escritos avulsos inéditos, parte da correspondência trocada com parentes e amigos e o conto Uma Praiazinha de Areia Bem Clara Ali, na Beira da Sanga, do livro Os Dragões não Conhecem o Paraíso, de 1988, que inspirou a peça homônima dirigida por Cássio Scapin.O ator Marcos Breda guarda parte do espólio literário de Caio e vê com bons olhos a aproximação da juventude com a obra do amigo. "O adolescente tem uma tendência natural à rebeldia, flerta com a marginalidade e com o subversivo. E a literatura de Caio é marginal, não fala de moral e bons costumes, o que fascina naturalmente." Marcos atuou no curta-metragem Sargento Garcia e produziu peças como O Homem e a Mancha. "Basta ler a primeira frase de um conto que você já é tragado." Dessa maneira o produtor teatral Celso Curi explica o efeito do texto de Caio.

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