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O anfitrião sonâmbulo

Difícil imaginar alguém mais fino. Mesmo naquela hora em que só cabe um palavrão

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 03h00

José Carlos pode ser apresentado como o perfeito cavalheiro, atencioso ao ponto de mandar cartão de Natal para alguém que conheceu num cruzeiro marítimo 17 anos atrás e nunca mais voltou a ver. Finíssimo, de sua boca jamais se ouviu um palavrão, nem mesmo um desses termos chãos de que todos nos servimos para nomear eventos e produtos do organismo humano. Com ele, é excreção, flatulência, micção. O gorgolejante nhon-nhon-nhon de vísceras em convulsão tem nome, e mais, sublinha ele, nome com raiz francesa: borborigmo.

Já se tornara conhecido pelos rapapés, mesuras e salamaleques quando, aos 20 e poucos anos, foi viver um tempo em Paris, num esquema quase estudantil, dividindo teto com dois jovens jornalistas brasileiros. Moravam os três num pardieiro destituído do mais remoto charme parisiense, no qual alugavam uma peça grande e sombria, de pé-direito avantajado, com mezanino ao fundo e WC no corredor. Na hora de dormir, o mezanino cabia, claro, ao José Carlos, por ser ele cheio de manias – “sistemático”, carimbaram em mineirês seus parceiros de cafofo, naturais, ambos, de Belo Horizonte.

A coabitação teve seu momento inesquecível na noite em que por ali passou, amigo de um dos moços, ninguém menos que um embaixador, lotado, à época, num pequeno país africano. Se se tratasse de uísque, em termos de carreira ele seria um Red, longe ainda de um Black Label. 

Na iminência de presença tão ilustre, José Carlos entrou em excitado pânico. Passou o dia em furiosa arrumação, barata tonta em meio a umas tantas de verdade, na tentativa quixotesca de disfarçar a precariedade da moradia. No final da tarde, resfolegante, precipitou-se ao comércio das imediações, em busca de bebida e acepipes.

De forma que estava exausto, o impecável José Carlos, quando chegaram embaixador e respectiva embaixatriz. 

Aboletado num banquinho ao pé dos visitantes, o diligente anfitrião adotou o que lhe pareceu ser um sorriso embaixadoral, e, em rigoroso sentido horário, se pôs a municiar a roda com vinho, torradinhas e patê. 

Lá pelas tantas, bateu-lhe o cansaço da arrumação, da torradinha, do patê, da diplomacia em geral – e eis que José Carlos, sem sair do lugar, saiu do ar. Por detrás do sorriso congelado, adormeceu no banquinho. Os demais se entreolharam, baixaram o tom de voz – e a noitada prosseguiu, pontuada agora pelo ronco intermitente e o estalar de boca seca do rapaz.

Bom tempo havia se passado quando, a sono solto, José Carlos se levantou, boquiabriu-se num bocejo odontológico, esgalhou os braços e, com passo trôpego, tomou o rumo do mezanino. 

Ali, como no proscênio de um show pornô, sob o olhar esbugalhado da plateia, começou a se despir. Não com a brutalidade de um sonâmbulo que arrancasse a roupa – ao contrário, tirou peça por peça, no capricho, com o requinte de apanhar as calças pelo friso e pendurá-las num encosto de cadeira. E então, com os berloques ao vento, avançou qual bicho tonto até a cama, em cujo velho estrado desabou estrepitosamente.

Quando, no dia seguinte, os amigos lhe contaram do ocorrido, José Carlos quis morrer. Só não se atirou no Sena porque não podia faltar a um compromisso importante naquela tarde, um café com alguém que conhecera num aeroporto e que nunca mais voltara a ver.

*

Quem disse que o tempo daria jeito na sua bizarria? Dez anos mais tarde, casado de fresco, por pouco o enredo parisiense não teve reprise paulistana. 

Na volta da lua de mel, os sogros quiseram conhecer o ninho dos pombinhos. Para infortúnio do genro, sucedeu que o dia de trabalho tinha sido duro, e ele, exausto, a partir de certo ponto já não deu conta de administrar o papo. O sono apossou-se dele, e entrou a ressonar – o que, para os visitantes, criou embaraço: acordá-lo seria grosseria, mas não menor do que se escafeder sem despedida. O impasse fez baixar na sala um silêncio espesso, quase de pegar com a mão. 

Não durou muito. Dali a pouco o anfitrião, como em Paris, ergueu-se do pufe, e foi sorte que dessa vez não tenha promovido strip-tease. Caminhou para a cozinha e voltou com o copo d’água que jamais faltava em seu criado-mudo. Marchava com ele rumo ao quarto, quando a esposa não conteve um grito, que o acordou. A sogra tentou aparentar naturalidade: 

– Já vai, José Carlos? 

Mal pôde balbuciar:

– Aguar as plantas... 

E despejou na goela o conteúdo do copo.

***

Ainda se tivesse sido aquela a única performance do recém-casado no quesito sono – mas não. Sequer foi a primeira. Aconteceu já na noite de núpcias, no coroamento de um dia em que ele fez questão de adentrar a suíte do hotel com a amada nos braços. Esforço físico que, somado às emoções do casório e da recepção, por pouco não comprometeu o desempenho marital. Até que se saiu a contento, para em seguida despencar no sono recompensatório do amor cumprido. 

Pelas tantas da madrugada, a voz irada do marido acorda moça:

– Quede a latinha de cocô?

Brutalmente devolvido à vida real, até para maldizer-se ele foi fino, ao mesmo tempo em que estapeava as têmporas:

– Fezes! Fezes!

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

 

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